O som metálico e abafado da porta principal se fechando soou como o bater de um martelo em um tribunal, selando o destino de Sienna Brooks.
Eram quase nove horas da manhã quando Damian Cole finalmente deixou a cobertura. Antes de partir, ele havia montado um escritório temporário impecável para ela na enorme mesa de jantar de carvalho maciço. Um laptop prateado de última geração, já configurado e conectado a uma rede de internet irrastreável, repousava ao lado de um bloco de notas de couro e canetas de ponta fina. Ele não havia poupado despesas para garantir que a transição dela para o trabalho remoto fosse perfeita.
A despedida dele ainda formigava na pele dela. Vestido em um terno risca de giz azul-marinho que exalava autoridade, Damian havia se inclinado, segurado o queixo dela com aquela firmeza possessiva de sempre e depositado um beijo demorado no topo de sua cabeça. As instruções foram claras, ditas em um tom que não admitia réplicas: “O elevador está bloqueado para descer e ninguém tem autorização para subir. Não atenda o interfone. Não chegue perto da porta. Eu retorno ao anoitecer.”
Agora, no silêncio absoluto do apartamento monumental, Sienna sentia o peso de sua nova realidade.
Ela caminhou lentamente até a mesa e sentou-se na cadeira estofada. A tela do laptop brilhava com os e-mails criptografados que Arthur, seu chefe, já havia enviado. Ao lado do computador, o celular escuro e novo que Damian lhe dera repousava como um peso morto de chumbo. A ausência de notificações, de mensagens de spam, de alertas de redes sociais ou de qualquer sinal de vida do mundo exterior era ensurdecedora. Ela era um fantasma flutuando no Upper East Side.
Tentando afastar o nó de ansiedade que se formava em sua garganta, Sienna forçou-se a abrir o software de design e começou a trabalhar na campanha da Lumina Cosmetics. As horas se arrastaram de forma surreal. Acostumada com o caos criativo, telefones tocando e o falatório constante da agência, o silêncio da cobertura de Damian era tão denso que ela quase podia ouvir o próprio sangue bombeando nas veias. A única companhia era a vista panorâmica e intimidadora de Nova York através das imensas janelas de vidro, uma cidade inteira acontecendo lá embaixo, inalcançável para ela.
Por volta das três da tarde, o cansaço mental e o cheiro persistente do perfume de Damian que impregnava a camisa que ela ainda usava começaram a incomodá-la. Ela precisava de um banho. Precisava tirar aquela peça de roupa que, embora confortavelmente macia, parecia marcá-la como propriedade dele a cada movimento.
Sienna fechou a tampa do laptop e caminhou descalça pelo mármore frio até a suíte de hóspedes. Ela decidiu que tomaria uma ducha rápida e, em seguida, usaria o telefone criptografado para ligar para Damian. Ela precisava pedir permissão — a simples ideia de ter que pedir permissão a fez engolir em seco — para que ele a acompanhasse até o apartamento dela naquela noite, apenas para buscar roupas limpas e seus itens básicos de higiene.
Ela entrou no banheiro luxuoso, ligou a ducha com acabamento em ouro fosco e deixou a água quente lavar a tensão de seus ombros por longos minutos. Quando terminou, enrolou-se em uma toalha felpuda e branca que encontrou dobrada sobre a pia e caminhou de volta para o quarto, esfregando o cabelo úmido.
Foi então que ela abriu a pesada porta dupla de carvalho do closet embutido da suíte de hóspedes.
Sienna parou abruptamente. A toalha que ela usava para secar o cabelo escorregou de suas mãos, caindo silenciosamente no chão de madeira.
Seu cérebro levou alguns segundos inteiros para processar a imagem à sua frente, tentando encontrar qualquer justificativa lógica para a impossibilidade visual que estava presenciando.
O closet não estava vazio. Estava perfeitamente e milimetricamente preenchido.
Seus vestidos de trabalho, seus casacos de outono e suas calças jeans estavam pendurados em cabides de veludo n***o, organizados por paleta de cores. Nas prateleiras iluminadas por fitas de LED embutidas, seus sapatos estavam alinhados com precisão cirúrgica. Até mesmo suas roupas íntimas estavam dobradas e guardadas nas gavetas de vidro fosco. Mas o que fez o estômago de Sienna revirar violentamente foi a prateleira da direita. Ali repousavam seus cremes hidratantes, seu perfume de lavanda, sua escova de cabelo de cerdas naturais e até o seu livro de cabeceira — o mesmo livro que havia sido movido misteriosamente na noite do primeiro ataque.
Uma onda de tontura quase a derrubou. Ela recuou um passo, cobrindo a boca com a mão trêmula.
Alguém havia entrado no apartamento dela. Novamente. Mas não para invadir ou assustar. Alguém havia entrado, empacotado toda a sua vida com uma calma e uma precisão aterrorizantes, e transferido tudo para aquele closet de luxo.
“Eu vou garantir que o seu apartamento passe por uma reforma... Até que eu tenha absoluta certeza de que aquele lugar é impenetrável, você ficará comigo.”
As palavras de Damian no jantar da noite anterior ecoaram em sua mente. Ela havia entendido que passaria alguns dias ali, acampada de forma improvisada. Mas aquilo? Aquilo não era um abrigo temporário. Aquilo era uma mudança definitiva. Ele não havia lhe dado a chance de empacotar suas próprias coisas. Ele simplesmente havia obliterado a necessidade de ela sequer pensar em voltar para o seu antigo lar.
A raiva, fina e aguda, finalmente rasgou o véu de passividade de Sienna. Uma invasão de privacidade daquele nível era inaceitável. O pânico de ser caçada por um monstro invisível nas ruas de repente foi ofuscado pelo terror de perceber o grau de controle que seu "protetor" estava exercendo sobre ela.
Ela vestiu uma calça jeans e um suéter de lã seu, que agora cheirava sutilmente à cera de madeira cara do closet de Damian, e marchou de volta para a sala principal. Ela andou de um lado para o outro como um felino enjaulado, a fúria borbulhando sob a pele enquanto o sol começava a se pôr sobre Manhattan, tingindo a sala de tons alaranjados e sombras longas.
Exatamente às dezoito horas e trinta minutos, o clique eletrônico do elevador privativo quebrou o silêncio do apartamento.
As portas de aço se abriram e Damian Cole pisou na cobertura. Ele parecia a personificação do sucesso e da letalidade em seu terno impecável, segurando uma pasta de couro em uma mão e afrouxando a gravata de seda com a outra. Ao ver Sienna parada no centro da sala, com os punhos cerrados e o peito subindo e descendo de forma ofegante, ele parou. A expressão dele não se alterou. O mesmo olhar calmo, escuro e impenetrável varreu o corpo dela, notando imediatamente que ela vestia as roupas que ele havia providenciado.
— Vejo que encontrou o closet — ele comentou com uma voz aveludada e casual, caminhando até a ilha de mármore para deixar sua pasta, como se estivesse comentando sobre o clima lá fora.
— Você invadiu o meu apartamento! — Sienna disparou, a voz tremendo de indignação e raiva acumulada, o som ecoando nas vidraças da cobertura. — Damian, o que significa aquilo? Você mandou alguém ir à minha casa e mexer nas minhas coisas íntimas? Nas minhas gavetas? Você empacotou a minha vida inteira sem sequer me perguntar!
Damian virou-se lentamente. Ele não piscou. Ele não recuou diante da explosão dela. Com passos lentos e medidos, ele começou a cruzar a distância entre eles.
— Eu não mandei ninguém, Sienna. Eu mesmo fui — ele corrigiu, o tom de voz perigosamente controlado, baixo e vibrante. Cada passo que ele dava parecia sugar o oxigênio da sala. — Eu recolhi cada peça de roupa sua. Eu guardei os seus pertences. Não confio em estranhos mexendo no que é seu, e, por consequência, no que está sob a minha proteção.
— Você não tinha esse direito! — ela gritou, recuando um passo por instinto quando a sombra dele a engoliu. — Nós combinamos que eu ficaria aqui até o meu apartamento ser seguro. Você não tinha o direito de transferir a minha vida para cá como se eu fosse um móvel que você acabou de comprar! Eu ia pedir para você me levar lá hoje à noite para pegar algumas mudas de roupa...
— E correr o risco de encontrar aquele homem arrombando a sua porta da frente? — Damian cortou, a voz repentinamente dura, os olhos escurecendo com uma fúria possessiva que fez Sienna congelar. Ele parou a centímetros dela, a presença dele monumental e esmagadora. — Você acha que eu permitiria que você colocasse os pés de volta naquele lugar, mesmo acompanhada por mim, enquanto um stalker sabe o seu endereço? Você tem a menor ideia do que ele poderia ter feito com você ontem se eu não tivesse chegado a tempo?
A menção ao perigo iminente atingiu Sienna como um soco no estômago, drenando parte de sua raiva.
— Eu quis evitar que você sofresse o trauma psicológico de voltar ao cenário do seu maior pesadelo, Sienna — Damian continuou, suavizando o tom de voz com uma precisão cirúrgica, transformando a agressividade em uma empatia fabricada e venenosa. Ele levantou as duas mãos e segurou os ombros dela, os polegares massageando a tensão acumulada nos músculos da garota. — Eu não invadi a sua privacidade. Eu poupei você de ter que recolher suas coisas tremendo de medo e olhando por cima do ombro. Eu trouxe o seu mundo para cá, para dentro de um lugar onde nada e ninguém pode tocar em você.
Sienna olhou para cima, encontrando o mar de escuridão nos olhos de Damian. A mente dela girava em uma dissonância cognitiva brutal. Uma parte dela gritava que a atitude dele era controladora, obsessiva e doentia. Mas a outra parte — a parte exausta, aterrorizada e traumatizada pelas últimas semanas — só conseguia ouvir as palavras "poupar", "cuidar" e "segurança".
Ela sentiu as lágrimas quentes de confusão inundarem seus olhos. Ela estava perdendo a capacidade de distinguir o limite entre o abuso e o cuidado.
— Você deveria ter me avisado... — ela sussurrou, a voz perdendo completamente a força, o choro preso na garganta quebrando sua postura defensiva. As mãos dela, antes cerradas em punhos, agora repousavam inertes na lateral do corpo.
Damian soltou um suspiro pesado, uma atuação brilhante de um homem que apenas tentava proteger a mulher que amava. Ele escorregou as mãos dos ombros para o rosto dela, aninhando as bochechas pálidas de Sienna em suas palmas quentes.
— Eu sei. Peço desculpas se a surpresa a assustou. Fui movido pelo instinto de mantê-la segura a qualquer custo, e talvez tenha exagerado na execução — ele murmurou, a mentira deslizando por seus lábios com gosto de mel. Ele encostou a própria testa na dela, obrigando-a a fechar os olhos e a inalar o perfume dele. — Mas entenda uma coisa, meu anjo... a sua segurança é minha jurisdição primária agora. Eu moveria o mundo inteiro para dentro dessa cobertura se isso significasse que você dormiria em paz.
Sienna não respondeu. Ela soltou o ar de forma trêmula e deixou o próprio corpo ceder contra o peito sólido de Damian, aceitando o abraço que se formou ao redor dela. A fúria inicial havia evaporado, substituída pela submissão exausta e pela aceitação distorcida de que ele estava certo. Ele havia fechado as correntes de veludo ao redor dos pulsos dela com tamanha gentileza que ela sequer havia sentido a pele arranhar.
A cobertura milionária de Damian Cole não era mais apenas um abrigo temporário contra a tempestade lá fora. Oficialmente, era o seu novo — e talvez eterno — lar.