Capítulo 8: A Gaiola de Ouro

1698 Words
O trajeto pelas ruas chuvosas de Nova York transcorreu em um silêncio denso e reconfortante dentro do SUV blindado. O som da tempestade batendo contra os vidros escuros parecia pertencer a outro mundo, uma realidade hostil da qual Sienna Brooks finalmente havia sido resgatada. Recostada no banco de couro macio, ela observava os neons borrados da cidade passarem rapidamente, sentindo a exaustão física e mental cobrar o seu preço. Seus músculos doíam devido à tensão prolongada, e o vazio deixado pela fuga de Thomas ainda latejava em seu peito, mas a proximidade física de Damian Cole agia como um anestésico poderoso. Damian dirigia com apenas uma das mãos no volante, enquanto a outra repousava casualmente sobre a perna dela, os dedos grandes desenhando círculos lentos e possessivos sobre o tecido do sobretudo molhado de Sienna. Era um gesto simples, mas que gritava domínio. Ele não perguntou o que ela queria comer ou aonde preferia ir; a ilusão de escolha já não era necessária nesta fase da perseguição. O carro parou silenciosamente em frente a um restaurante discreto e requintado no Upper East Side, um lugar sem letreiros chamativos, projetado exclusivamente para a elite que valorizava a privacidade absoluta. Antes mesmo que Sienna pudesse processar o ambiente, um manobrista uniformizado abriu a porta do passageiro, segurando um guarda-chuva preto e espesso. Damian já estava ao lado dela. Ele envolveu a cintura de Sienna com um braço protetor e a guiou para o interior do estabelecimento. O ambiente cheirava a cera de abelha, vinho caro e trufas frescas. A iluminação era baixa, vinda de arandelas de cristal que projetavam sombras quentes sobre as mesas de mogno espaçadas. — Senhor Cole, é uma honra recebê-lo esta noite — o maître cumprimentou com uma reverência sutil, os olhos desviando rapidamente para Sienna com uma curiosidade mascarada por puro profissionalismo. — A sua mesa habitual está pronta. — Obrigado, Henri. Por favor, garanta que não sejamos interrompidos — Damian ordenou com uma polidez que beirava a ameaça, sua voz grave ressoando no salão silencioso. Sienna foi guiada até uma cabine isolada no fundo do restaurante, envolta por cortinas de veludo pesado que bloqueavam qualquer visão do resto dos clientes. Assim que se sentaram, ela percebeu o quão deslocada estava. Suas roupas estavam úmidas, seu cabelo estava bagunçado pela garoa e seu rosto carregava as marcas de um dia de puro terror. No entanto, o olhar que Damian direcionava a ela não continha um pingo de pena ou julgamento; ele a olhava com a fome silenciosa de um homem que admira sua mais valiosa posse recém-adquirida. — Eu não devia estar aqui... olhe para mim, Damian. Eu estou um desastre — ela sussurrou, abaixando a cabeça e escondendo as mãos trêmulas debaixo da mesa. — Você está exatamente onde deveria estar — ele cortou, a voz aveludada, porém implacável. Ele esticou as pernas compridas por baixo da mesa, roçando o joelho no dela de forma intencional. — E está incrivelmente linda. Pare de se preocupar com o exterior. O mundo lá fora não importa quando você está comigo, Sienna. O garçom aproximou-se em silêncio absoluto, servindo duas taças de um vinho tinto encorpado antes de se retirar como um fantasma. Damian não ofereceu o menu a ela. Ele mesmo fez o pedido, escolhendo pratos sofisticados com uma facilidade que denotava anos de riqueza e controle absoluto sobre o ambiente. Sienna não se importou em não ter escolha; na verdade, não ter que tomar nenhuma decisão naquela noite era o maior alívio que ela poderia pedir. Durante o jantar, a conversa fluiu de forma assimétrica. Damian perguntou sobre a infância dela, sobre seus sonhos na faculdade de design e sobre seus medos, dissecando a mente da garota com a precisão de um cirurgião. Sienna, inebriada pelo vinho, pelo calor do ambiente e pelo carisma sombrio daquele homem, entregou cada pedaço de sua alma em uma bandeja de prata. Ela não percebeu que, enquanto falava sem parar sobre suas fraquezas, Damian não revelava quase nada sobre o próprio passado. Ele era um cofre trancado, um labirinto sem saída que ela, ingenuamente, tentava desbravar. — Você acha que ele vai voltar, Damian? — ela perguntou de repente, a voz embargada, quebrando o clima hipnótico. — O homem que forçou a minha janela. Você acha que ele vai tentar de novo? Damian pousou a taça de vinho lentamente. Um sorriso frio, quase predatório, curvou seus lábios perfeitos. Ele olhou no fundo dos olhos castanhos e vulneráveis dela. — Ele pode tentar, Sienna. Mas ele nunca vai alcançar você. Eu vou garantir que o seu apartamento passe por uma reforma completa no sistema de segurança antes que você pise lá novamente. Até que eu tenha absoluta certeza de que aquele lugar é impenetrável, você ficará comigo. Na minha casa. Sob as minhas regras de proteção. O tom possessivo não soou como um convite, e sim como um veredito. E, para o coração ferido e apavorado de Sienna, soou como a mais pura declaração de amor e cuidado. Uma hora depois, o SUV n***o deslizou para dentro da garagem privada do edifício de alto luxo onde Damian morava — o mesmo prédio do outro lado da rua do apartamento modesto dela, mas que parecia pertencer a um universo totalmente distinto. O elevador privativo, acionado apenas pela impressão digital de Damian, subiu rapidamente, sem fazer o menor ruído, deixando o estômago de Sienna em suspensão. Quando as portas de aço escovado se abriram, Sienna perdeu o fôlego. A cobertura de Damian Cole era um monumento arquitetônico ao poder e à solidão. O espaço era colossal, com um conceito aberto que misturava piso de mármore escuro, paredes revestidas de madeira n***a e vigas de metal fosco. O que mais impressionava, contudo, eram as imensas janelas de vidro do chão ao teto que compunham toda a extensão da sala, oferecendo uma vista panorâmica deslumbrante e vertiginosa de Nova York. Lá de cima, a cidade parecia pequena, caótica e insignificante. A tempestade continuava castigando os prédios menores, mas ali, no topo do mundo, não havia som algum. O isolamento era absoluto. — Bem-vinda à minha casa — Damian murmurou logo atrás dela, ajudando-a a tirar o sobretudo úmido. Seus dedos demoraram-se propositalmente nos ombros nus dela, arrancando um leve arrepio da garota. — Fique à vontade. O espaço é grande, mas você vai se acostumar rápido com a planta. Sienna caminhou hesitante até a enorme vidraça, observando as luzes distantes. Ela sentia-se pequena, uma intrusa em um santuário impecável. Ao olhar para baixo, conseguiu identificar o teto de seu próprio prédio do outro lado da rua. Uma sensação estranha de vertigem a atingiu. Ela não imaginava que, nas profundezas daquele mesmo apartamento de luxo, escondida atrás de uma porta trancada por biometria, estava a sala de monitores por onde Damian a vigiava há semanas. O lobo a havia convidado para o covil, e ela havia entrado sorrindo. — Você deve estar exausta, e suas roupas ainda estão levemente úmidas por causa da chuva — Damian interveio, caminhando até ela com dois copos curtos de uísque, entregando um para as mãos frias de Sienna. Ele deu um gole na própria bebida, observando a forma como a luz da cidade refletia no rosto pálido dela. — Meu quarto fica no fim do corredor à direita. A suíte de hóspedes fica à esquerda, e já está preparada para você. Ele deixou o copo sobre uma mesa de centro de vidro n***o e caminhou em direção ao próprio quarto, retornando segundos depois com uma camisa social de botão perfeitamente engomada. A peça era de um tecido macio, escuro e, obviamente, grande demais para o corpo miúdo dela. — Vista isso para dormir — ele instruiu, estendendo a camisa. — É confortável. E, Sienna... não tranque a porta da suíte de hóspedes hoje. Se você tiver outro ataque de pânico no meio da madrugada, ou se tiver um pesadelo, eu quero poder entrar e ajudar você imediatamente. Consegue fazer isso por mim? Sienna pegou a camisa, segurando o tecido contra o peito. A peça exalava o cheiro inconfundível dele — madeira, poder e masculinidade —, e apenas segurá-la já fazia seu coração palpitar em um ritmo perigoso. Ela olhou para a expressão séria e inabalável de Damian, vendo ali apenas o cavaleiro de armadura brilhante que a resgatara do caos absoluto de sua própria vida. — Eu não vou trancar a porta, Damian. Confio em você — ela respondeu, a voz frágil ecoando na imensidão vazia daquela cobertura milionária. — Eu sei que confia — ele sibilou suavemente, um sorriso de pura satisfação curvando seus lábios enquanto ele se inclinava e depositava um beijo lento e calculadamente suave na testa da garota. O toque de seus lábios queimou a pele dela. — Boa noite, Sienna. Durma bem. Sienna virou-se e caminhou em direção à suíte de hóspedes, abraçando a camisa de Damian como se fosse um escudo invisível. Quando a porta de carvalho pesada se fechou atrás dela — sem o clique da fechadura —, Damian Cole permaneceu parado no centro da sala, banhado pela luz fria da cidade. Ele terminou o uísque em um único gole e caminhou silenciosamente até o painel escondido na parede de sua biblioteca particular. Após digitar uma senha alfanumérica, a estante de livros deslizou, revelando o coração sombrio de sua obsessão: a sala de monitoramento. Damian sentou-se na poltrona de couro reclinável e ligou as telas. Havia seis visões diferentes do apartamento vazio de Sienna do outro lado da rua. Mas a tela principal, a maior e mais nítida de todas, agora exibia o interior de sua própria suíte de hóspedes. Ele assistiu, com a respiração suspensa e os olhos brilhando em pura euforia obsessiva, a mulher de sua vida tirar as roupas úmidas e vestir a camisa que pertencia a ele, afogando-se no cheiro dele, marcando-se com a presença dele. Ela não pertencia mais a Nova York. Ela não pertencia mais ao escritório de design ou às calçadas vazias. Sienna Brooks agora estava trancada do lado de dentro, na mais bela, luxuosa e inescapável gaiola de ouro já construída. E Damian faria questão de que ela nunca mais quisesse sair.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD