Capítulo 9: Fronteiras de Vidro

1915 Words
A transição do sono para a vigília foi lenta, envolta em uma névoa de conforto que Sienna Brooks jamais havia experimentado. Ela não foi despertada pelo som estridente das sirenes de Nova York ou pelo ronco abafado dos caminhões de lixo na rua abaixo de sua janela. Em vez disso, o que a trouxe de volta à realidade foi o toque gelado da luz do sol de outono que se infiltrava pelas frestas das cortinas de linho pesadas da suíte de hóspedes. Sienna abriu os olhos devagar, piscando contra a claridade. O colchão sob seu corpo era absurdamente macio, os lençóis de seda perfeitamente brancos deslizavam contra sua pele como água, e o travesseiro de plumas parecia moldado para apagar qualquer tensão de sua nuca. Por alguns segundos de desorientação pura e pacífica, ela esqueceu o stalker, esqueceu a fuga de Thomas e esqueceu o próprio medo. Mas então, ela se moveu, e o tecido escuro da camisa social de Damian Cole roçou em suas coxas nuas. O cheiro dele — aquela mistura inebriante e possessiva de madeira, especiarias e poder absoluto — subiu pelas narinas dela, e a realidade do dia anterior desabou sobre sua mente com a força de uma maré violenta. Ela estava na cobertura de Damian. Ela havia dormido do outro lado da rua, trancada na fortaleza daquele homem, com a porta destrancada por ordem dele. Sienna sentou-se na cama, puxando os joelhos contra o peito. Seu coração deu um solavanco leve, mas, surpreendentemente, não era de pânico. Era uma ansiedade estranha, uma sensação de antecipação que a deixava inquieta. Ela jogou os lençóis para o lado e colocou os pés descalços no piso de madeira escura e aquecida do quarto. A camisa de Damian caía até a metade de suas coxas, cobrindo-a de forma modesta, mas a sensação do tecido roçando em sua pele nua por baixo a fazia sentir-se incrivelmente exposta e intimamente marcada. Ela caminhou até a porta dupla que levava ao banheiro da suíte, lavou o rosto com água fria na pia de mármore esculpido e tentou arrumar o cabelo castanho embaraçado usando apenas os dedos. O reflexo no espelho com iluminação de camarim mostrava uma mulher exausta, mas cujos olhos traziam um brilho febril de sobrevivência. Ela girou a maçaneta da porta do quarto. Não havia tranca. O silêncio do corredor era quase ensurdecedor. Sienna caminhou a passos lentos e silenciosos pelo piso de mármore escuro que conectava os cômodos. A cobertura era ainda mais intimidadora à luz do dia. As imensas janelas do chão ao teto exibiam Nova York lá embaixo como um formigueiro silencioso. Carros minúsculos moviam-se em linhas perfeitamente desenhadas, e as pessoas não passavam de pontos anônimos na calçada. Daquela altura, a cidade parecia inofensiva. Era fácil entender por que Damian emanava tanta arrogância; morar acima das nuvens dava a ilusão de que se era um deus intocável. Um aroma rico e encorpado de grãos de café torrados e baunilha começou a flutuar no ar gelado do apartamento, guiando os passos dela até a área principal. Damian estava lá. A visão dele no balcão da ilha da cozinha fez os passos de Sienna vacilarem por uma fração de segundo. Ele não vestia um terno completo como na noite anterior, mas continuava impecável. Usava uma calça social de alfaiataria grafite e uma camisa branca com os dois primeiros botões abertos e as mangas dobradas, revelando as veias de seus antebraços fortes. Ele estava encostado na pedra escura, segurando uma xícara fumegante de café expresso em uma das mãos e rolando a tela de um tablet prateado com a outra. Quando percebeu a presença dela, Damian não se assustou. Ele simplesmente ergueu os olhos escuros e insondáveis da tela, fixando-os nela com a intensidade de um disparo. Ele percorreu a figura frágil de Sienna de cima a baixo, admirando abertamente a forma como a camisa dele engolia o corpo dela. Um sorriso lento, possessivo e sombriamente satisfeito curvou os cantos de seus lábios. — Bom dia — a voz dele ressoou grave e rouca pelo ambiente aberto, enviando um arrepio instantâneo pela espinha de Sienna. — Você conseguiu dormir ou a tempestade a manteve acordada? — Bom dia... — ela murmurou, cruzando os braços instintivamente ao se aproximar, sentindo-se absurdamente pequena diante da presença magnética dele. — Eu dormi. Acho que foi a primeira noite de sono completa e sem interrupções que eu tive em semanas. O silêncio aqui em cima é... absoluto. — Esse é o objetivo — Damian respondeu, deixando o tablet sobre o mármore com um leve clique metálico. Ele pegou uma segunda xícara de porcelana n***a que já estava sobre a bancada, perfeitamente preparada, e a empurrou na direção dela. — Café forte, sem açúcar, com um toque de leite, exatamente como você pediu no jantar de ontem. Sienna piscou, surpresa com a memória afiada dele para um detalhe tão pequeno jogado no meio de uma conversa regada a vinho e desespero. Ela aceitou a xícara, envolvendo as mãos no calor da cerâmica. — Obrigada. Por tudo, Damian. Pelo jantar, pelo abrigo... pela camisa — ela corou levemente, baixando o olhar para a própria barra do tecido escuro. — Eu prometo que vou voltar para o meu apartamento hoje. Só preciso passar lá rápido para pegar algumas roupas limpas antes de ir para a agência. Tenho uma reunião com o Arthur às dez horas para resolver a confusão que o Thomas deixou para trás. O sorriso no rosto de Damian não desapareceu, mas a temperatura de seus olhos pareceu cair para zero absoluto. Ele deu a volta na ilha de mármore com movimentos felinos, suaves, silenciosos e predatórios, até parar a menos de um passo de distância dela. Sienna precisou inclinar a cabeça para trás para continuar olhando em seus olhos. — Sobre isso — ele começou, a voz caindo para um sussurro aveludado e inflexível. Ele estendeu a mão grande e contornou a mandíbula dela com o polegar, um toque tão macio que contrastava violentamente com a ordem que estava prestes a dar. — Você não tem nenhuma reunião às dez horas hoje, Sienna. E não vai colocar os pés naquela agência pelo resto da semana. O ar sumiu dos pulmões de Sienna. Ela congelou sob o toque dele, a confusão nublando sua mente. — O... o quê? Como assim? O projeto da Lumina Cosmetics não pode esperar, o Arthur vai me demitir se eu não aparecer... — O Arthur não vai demitir você — Damian a interrompeu calmamente, deslizando a mão do rosto para a nuca dela, embrenhando os dedos nos fios embaraçados e mantendo-a firmemente no lugar. — Eu mesmo entrei em contato com o seu chefe hoje cedo, antes do sol nascer. Tivemos uma conversa muito produtiva e sensata. Eu o informei que você sofreu uma tentativa de arrombamento, que está lidando com questões graves de segurança pessoal e que, sob nenhuma circunstância, pisará em um ambiente vulnerável como aquele prédio comercial nos próximos dias. Sienna sentiu o estômago despencar em queda livre. A invasão de privacidade era tão massiva, tão chocante, que ela sequer conseguiu formular uma frase de indignação imediata. — Você... você ligou para o meu chefe? — ela gaguejou, o choque fazendo sua voz falhar. — Damian, você não tinha o direito de fazer isso! Você não pode simplesmente decidir a minha vida profissional e falar por mim! O rosto de Damian não demonstrou um pingo de remorso. Pelo contrário, ele se inclinou ainda mais perto, a respiração quente dele batendo contra os lábios trêmulos da garota. O domínio dele era sufocante. — Eu não apenas posso, Sienna, como é o meu dever fazer isso agora que você está sob os meus cuidados — a voz dele engrossou, vibrando com um alerta sombrio. Ele apertou levemente a nuca dela, exigindo contato visual total. — Você acha que aquele monstro lá fora é um amador? Você acha que o sumiço do Thomas foi uma simples coincidência do destino? Alguém está caçando você. Alguém sabe a hora que você entra no trabalho, a hora que você almoça e a hora que você volta para casa. A sua rotina é uma ferida aberta sangrando no meio do oceano, implorando para que o tubarão a encontre. Sienna prendeu a respiração, as palavras dele perfurando suas defesas racionais como facas afiadas. A imagem da janela rangendo no escuro voltou com força total. — Para manter você viva e intocável, nós precisamos cortar os padrões — Damian continuou, o tom de voz mudando da repreensão dura para um cuidado quase paternal, confundindo completamente a bússola moral de Sienna. Ele acariciou o cabelo dela com o polegar. — Você vai trabalhar daqui. Esta cobertura tem a internet mais rápida e segura de Nova York. O Arthur concordou em enviar todos os arquivos criptografados para você e lhe deu permissão para trabalhar remotamente até que as coisas se acalmem. Ninguém vai demitir você. A sua carreira está segura. E, mais importante, a sua vida está segura aqui dentro. Sienna sentiu os olhos encherem de lágrimas de frustração e medo. Ela estava com raiva pela atitude controladora dele, mas, tragicamente, o argumento de Damian fazia um sentido distorcido e assustador. Ela estava apavorada demais com o mundo exterior para bater o pé e sair por aquela porta. Ele havia destruído suas defesas com lógica e pânico, deixando-a sem alternativa a não ser aceitar a submissão. — Eu só... eu não gosto que tomem decisões por mim sem me avisar — ela sussurrou, a voz quebrada, abaixando a cabeça em um sinal claro de derrota. — Não é controle, meu anjo. É proteção extrema — ele corrigiu suavemente, beijando o topo da cabeça dela com devoção. A mentira deslizou por seus lábios com uma perfeição venenosa. Ele afastou-se apenas o suficiente para alcançar o bolso de sua calça social e tirar de lá um objeto retangular e escuro. Ele colocou o objeto sobre a bancada, bem ao lado da xícara de café dela. Era um smartphone de última geração, de um modelo caro e fosco, completamente novo. — O seu celular antigo foi desligado e jogado em uma gaveta bloqueada. Eu não confio na segurança daquele aparelho. Se o invasor for habilidoso, ele pode estar rastreando sua localização pelo GPS ou até mesmo clonando suas mensagens — Damian explicou com uma frieza clínica, observando a reação dela. — Este aparelho é novo. A linha é criptografada e indetectável. Ninguém pode rastrear ou interceptar. Sienna olhou para o celular escuro sobre a pedra de mármore como se fosse um objeto alienígena. Ela hesitou por um longo momento antes de estender a mão e pegar o aparelho. A tela acendeu imediatamente com o toque de seus dedos, revelando uma interface minimalista e limpa. Não havia redes sociais. Não havia aplicativos de e-mail instalados. Ela abriu a lista de contatos. Havia apenas um único número salvo na memória do aparelho. Damian Cole. Uma corrente elétrica de puro isolamento subiu pelo braço dela. Naquele exato segundo, a porta da jaula bateu com um estrondo silencioso e definitivo. Seu antigo número não existia mais. O seu escritório não a esperava mais. Sua rotina havia sido aniquilada. Para o mundo lá fora, Sienna Brooks havia se tornado um fantasma, escondida nas nuvens do Upper East Side. E a única ponte que a conectava à realidade agora era o homem de olhos escuros e possessivos que a observava beber o café, satisfeito com o fechamento de sua armadilha perfeita.
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