A noite havia sido um borrão de pânico e insônia para Sienna Brooks. Depois de passar horas encolhida no canto do sofá com uma faca de cozinha na mão, observando cada sombra projetada nas paredes de sua sala, o amanhecer trouxe pouca ou nenhuma paz. Os estilhaços do copo de vidro continuavam no chão da cozinha, uma prova física de que a noite anterior não fora um delírio de sua mente exausta. Mas o que mais a aterrorizava era o perfume doce e persistente dos jasmins, que parecia ter impregnado cada centímetro daquele apartamento.
Assim que os primeiros raios de sol cortaram a névoa cinzenta de Nova York, Sienna reuniu o resto de coragem que lhe restava e foi até a delegacia de polícia mais próxima. O ambiente estava barulhento, cheirando a café requentado e desinfetante barato.
— Deixe-me ver se entendi, senhorita Brooks — disse o detetive de plantão, um homem de meia-idade com olheiras profundas, sem tirar os olhos da tela do computador onde digitava lentamente. — A senhora chegou em casa e encontrou um livro fora do lugar e um ramo de flores na bancada. Havia sinais de arrombamento na porta? Alguma janela quebrada?
— Não — Sienna respondeu, a voz trêmula, mas firme. — As trancas estavam intactas. Mas eu sei que deixei o livro na sala. E eu não comprei flores! Alguém esteve lá dentro, eu sinto isso há semanas. Estou sendo perseguida!
O detetive soltou um suspiro audível, recostando-se na cadeira. Seu olhar era uma mistura de tédio e condescendência.
— Olha, senhorita, sem sinais de invasão, sem ameaças explícitas por escrito ou furto de bens, não há muito o que possamos fazer. Nova York é uma cidade estressante. O trabalho de design, os prazos... Às vezes, o cansaço nos faz esquecer pequenas coisas. Meu conselho? Troque as fechaduras se isso a fizer se sentir melhor, tome um chá e descanse.
Sienna sentiu o estômago revirar. A humilhação de não ser levada a sério doeu quase tanto quanto o medo. Ela se levantou da cadeira sem dizer mais nada, sabendo que estava completamente sozinha. A polícia não a ajudaria. Para o mundo, ela era apenas mais uma mulher paranoica sofrendo com o estresse da cidade grande.
Do outro lado da rua, dentro de um SUV preto com vidros blindados e totalmente escurecidos, Damian Cole observava a silhueta de Sienna emergir pelas portas de vidro da delegacia. Um sorriso frio e calculado brincou nos cantos de seus lábios. Ele sabia exatamente o que havia acontecido lá dentro; ele havia interceptado a frequência de rádio local e monitorado o depoimento dela em tempo real. Ele adorava o fato de que ninguém acreditaria nela. Isso a isolava do resto do mundo, empurrando-a cada vez mais para perto do único destino possível: os braços dele.
Damian ligou o motor do carro e seguiu-a à distância enquanto ela caminhava em direção ao escritório. Havia uma tarefa pendente em sua agenda naquela manhã, algo que ele pretendia resolver antes que o dia terminasse. O toque de Thomas no ombro de Sienna no dia anterior ainda queimava na memória de Damian como uma afronta pessoal. E Damian Cole não tolerava afrontas.
Quando Sienna chegou ao escritório, tentou se concentrar nas telas do computador, mas seus olhos insistiam em desviar para a mesa vazia ao seu lado. Já passava das dez da manhã, e Thomas nunca se atrasava. Ele era a pontualidade em pessoa.
— Alguém viu o Tom hoje? — Sienna perguntou para uma das supervisoras que passava pelo corredor.
— Ele ligou bem cedo, Sie. Disse que teve um imprevisto médico de última hora e que precisaria se afastar por alguns dias. Achamos estranho, a voz dele parecia muito nervosa, mas ele garantiu que enviaria os layouts por e-mail assim que pudesse.
Sienna sentiu um calafrio instantâneo. Um imprevisto médico. O pânico que ela vinha tentando sufocar voltou com força total. Suas mãos começaram a suar frio sobre o teclado. Seria apenas uma coincidência? Ou o sumiço de Thomas tinha alguma ligação com a presença sombria que a cercava?
Enquanto isso, em uma área industrial isolada nos limites da cidade, o cenário era completamente diferente. O som metálico de gotas d'água caindo contra o chão de concreto ecoava pelo galpão abandonado. Thomas estava amarrado a uma cadeira de ferro pesada, com o rosto ensanguentado e os olhos arregalados de puro terror. À sua frente, Damian Cole removia calmamente suas luvas de couro preto, sem que uma única gota de suor ou sangue manchasse seu terno impecável.
— Eu vou perguntar apenas mais uma vez, e espero que sua memória seja melhor agora — a voz de Damian era um sussurro calmo, desprovido de qualquer emoção humana, o que a tornava ainda mais aterrorizante. — Por que você achou que tinha o direito de tocá-la?
— Eu... eu não fiz nada! — Thomas soluçou, o lábio partido tremendo violentamente. — Ela é só minha colega de trabalho... Somos amigos! Eu só estava me despedindo! Por favor, cara, eu tenho família... me deixa ir!
Damian deu um passo à frente, segurando o queixo de Thomas com uma força descomunal, obrigando o homem a olhar diretamente nos seus olhos desprovidos de piedade.
— Amigos não tocam no que é meu — Damian sibilou, a voz caindo uma oitava, fria como o gelo. — Você foi um erro crônico na rotina dela, Thomas. Uma distração que eu decidi eliminar. Você vai assinar a carta de demissão que preparei e vai pegar o primeiro trem para fora deste estado antes do anoitecer. Se eu vir seu rosto perto da Sienna de novo, ou se você ousar abrir a boca para qualquer pessoa sobre o que aconteceu aqui... eu farei questão de garantir que você nunca mais sinta a textura de nada neste mundo. Fui claro?
Thomas assentiu freneticamente, as lágrimas se misturando ao sangue em seu rosto. Ele entendeu perfeitamente que o homem diante dele não era apenas um criminoso comum; era um monstro com recursos ilimitados e uma obsessão doentia.
No fim da tarde, Sienna saiu do escritório ainda mais exausta. A ausência de Thomas e o silêncio dele nas mensagens de texto haviam transformado o dia em um pesadelo silencioso. Quando ela pisou na calçada molhada, a chuva voltou a cair, castigando a cidade. Ela procurou o guarda-chuva na bolsa, mas percebeu que o havia esquecido na pressa de sair de casa pela manhã.
Conformada em se molhar, ela deu o primeiro passo em direção ao metrô, mas a água parou de atingir seu rosto de repente. Sienna olhou para cima e viu a textura de um grande guarda-chuva de tecido preto cobrindo-a.
Ela virou o corpo rapidamente, o coração saltando na garganta, pronta para gritar. Mas o que encontrou não foi uma sombra ameaçadora. Diante dela estava um homem extraordinariamente atraente, vestindo um casaco escuro elegante. Seus olhos eram profundos e intensos, e ele exibia uma expressão de pura gentileza e preocupação cavalheiresca.
— Parece que a tempestade pegou você desprevenida — disse Damian Cole, sua voz soando rica, calorosa e perfeitamente controlada, muito diferente do tom que usara no galpão horas antes. Ele estendeu a mão livre em um gesto polido. — Prazer, eu me chamo Damian. Moro no prédio em frente ao seu e notei que você estava sem proteção. Posso dividir o guarda-chuva com você até lá?
Sienna olhou para a mão estendida dele, sentindo uma estranha e contraditória sensação de alívio misturada com uma sutil pontada de alerta. Pela primeira vez em semanas, a presença invisível que a sufocava parecia ter se dissipado, substituída pelo calor daquele estranho prestativo. Ela não tinha a menor ideia de que o homem que segurava o guarda-chuva para protegê-la da tempestade... era a própria tempestade que estava prestes a destruir sua vida por completo.