A estufa de vidro havia se tornado o santuário particular de Sienna Brooks. Durante as duas semanas seguintes, a rotina dela limitou-se ao contraste absoluto entre o frio cortante que observava através dos vidros da cobertura e o calor tropical e perfumado que Damian havia construído para ela. Ali, cercada por orquídeas e pelo som relaxante da fonte de água escura, ela passava as tardes desenhando, lendo e tentando não pensar no fato de que o mundo lá fora continuava girando sem a sua presença.
Era uma tarde de quinta-feira. O céu de Nova York estava carregado com nuvens pesadas e escuras de tempestade, bloqueando a luz do sol e mergulhando a estufa em uma penumbra aconchegante. Sienna estava sentada em uma das poltronas de couro marrom, vestindo uma calça de seda solta e um suéter fino. O colar de platina com o diamante n***o repousava frio contra a sua clavícula, um lembrete constante e inegável de quem era o dono daquele oásis.
O silêncio do ambiente foi quebrado por um som que ela raramente ouvia durante o dia: o zumbido agudo e metálico do elevador privativo principal entrando em operação.
Sienna paralisou, o lápis de grafite parando no meio do papel de rascunho. Damian nunca voltava para casa àquela hora. Ele havia deixado claro pela manhã que teria um longo almoço de negócios com investidores europeus e só retornaria ao anoitecer. O coração dela acelerou. Uma fagulha do antigo terror — o medo de ser encontrada, de que o stalker do passado tivesse finalmente invadido a fortaleza — acendeu em seu peito.
Ela deixou o caderno de rascunhos sobre a mesa, levantou-se com as pernas trêmulas e caminhou silenciosamente até a porta de vidro fosco da estufa, abrindo apenas uma pequena fresta para espiar a sala principal da cobertura.
As portas de aço do elevador se abriram com um estrondo suave.
A primeira figura a sair foi Damian Cole. Ele vestia um terno sob medida de três peças em um tom escuro de carvão, a postura rígida e emanando uma fúria contida que fez o oxigênio da sala parecer escasso. Mas, para o horror absoluto de Sienna, ele não estava sozinho.
Atrás de Damian, caminhava um homem na faixa dos quarenta anos. Ele era alto, de cabelos loiros perfeitamente alinhados, e vestia um sobretudo de grife bege que exalava o mesmo nível de riqueza do dono da casa. No entanto, a linguagem corporal do estranho era drasticamente diferente. Havia uma arrogância forçada nele, uma tensão nervosa visível na forma como ele olhava ao redor, avaliando a cobertura como se estivesse pisando em um campo minado.
— Eu já disse que isso poderia ter sido resolvido no saguão do prédio da empresa, Julian — a voz de Damian cortou o ar, soando tão letal e áspera que fez Sienna estremecer mesmo escondida atrás da porta da estufa. — Trazer você até a minha casa foi um erro que a sua impaciência me forçou a cometer.
— Os acionistas precisavam da sua assinatura física hoje, Damian. Não amanhã, não na semana que vem. Hoje — o homem chamado Julian respondeu, o tom de voz carregado de um deboche que mascarava o medo óbvio. Ele abriu uma pasta de couro e tirou um maço de documentos grossos. — Nós estamos falando de uma fusão de meio bilhão de dólares. A sua mania de reclusão está começando a afetar os negócios.
Damian virou-se bruscamente, arrancando a caneta de ouro do bolso interno do paletó e os documentos das mãos de Julian com uma violência calculada.
— A minha reclusão não é da sua conta. Você é pago para gerenciar a filial, não para questionar a minha rotina — Damian rosnou baixinho, assinando os papéis sobre a ilha de mármore n***o com traços rápidos e agressivos.
Sienna observava a cena em silêncio. Ela nunca havia visto Damian interagir com outra pessoa daquela forma. Para ela, ele era possessivo, controlador, mas sempre revestido de uma gentileza protetora e aveludada. Aquele homem na sala era um predador impiedoso e intimidador, alguém que claramente esmagava seus pares no mundo corporativo sem um pingo de remorso.
Incapaz de conter a própria curiosidade e a ansiedade gerada pela presença de um estranho, Sienna empurrou a porta de vidro da estufa, dando um passo hesitante para o corredor que dava acesso à sala. O rangido ínfimo da dobradiça de aço foi como um alarme em um cofre silencioso.
Julian Vance parou no meio de uma frase. Ele virou a cabeça e seus olhos azuis e afiados cravaram-se em Sienna.
O ar congelou.
A expressão de Julian mudou de irritação corporativa para um choque puro e absoluto. Ele percorreu a figura frágil da garota de cima a baixo, notando a calça de seda, o cabelo solto e a forma como ela parecia completamente deslocada naquele monumento escuro de mármore e vidro. Então, o olhar dele parou no pescoço dela. O diamante n***o.
Um sorriso lento, incrédulo e carregado de uma malícia sombria curvou os lábios de Julian.
— Meu Deus... — Julian murmurou, a voz caindo para um sussurro fascinado, esquecendo completamente os documentos milionários sobre a mesa. — Então os rumores dos corredores são verdadeiros. Você não está doente. Você não está focado em novas aquisições na Europa. Você trouxe uma garota para a sua jaula de vidro.
Damian parou de escrever. A caneta de ouro sofreu uma pressão tão absurda entre os dedos dele que Sienna jurou ter ouvido o metal estalar. A velocidade com que a atmosfera da sala mudou foi aterradora.
— Dê mais um passo na direção dela, Julian — Damian murmurou, a voz caindo para uma frequência tão grave que não parecia humana. Ele não levantou a voz. Ele não precisou. O tom letal fez o sangue nas veias de Sienna virar gelo puro. — Dê mais um passo, olhe para ela por mais três segundos, e eu juro pela minha alma que os documentos dessa fusão serão assinados com o seu sangue.
Julian estancou no lugar, a arrogância evaporando instantaneamente, substituída por um terror cru. Ele recuou um passo, engolindo em seco, mas a língua venenosa foi mais rápida que o instinto de sobrevivência.
— Eu não quis ofender, Damian — ele levantou as duas mãos em sinal de rendição, mas os olhos dele ainda desviaram de forma perigosa para Sienna. — É apenas fascinante. Você sempre teve a reputação de esmagar seus inimigos e tomar o que queria no mercado, mas eu não sabia que esse traço predatório se estendia a pessoas. Coleiras de diamante? Realmente?
Sienna sentiu o estômago despencar. As palavras de Julian soaram como facas enferrujadas perfurando a bolha perfeita de ilusão que ela havia aceitado. Coleiras de diamante. Traço predatório. Aquele homem não via Damian como um salvador; ele o via como um monstro que toma as coisas à força.
A mente dela, já saturada de trauma, girou. O sumiço repentino e violento de Thomas no meio da madrugada. O fato de que os advogados de Damian conseguiram limpar o nome dela dos registros da polícia como se fossem deuses manipulando o sistema. A facilidade com que ele havia comprado uma galeria de arte inteira.
— Saia — a palavra saiu dos lábios de Damian como a sentença de morte de um carrasco. Ele enfiou os papéis assinados violentamente no peito de Julian. — Saia da minha casa. Se você mencionar a existência dela para qualquer pessoa viva, se o nome dela sequer passar pela sua mente novamente, não haverá um buraco no planeta Terra profundo o suficiente para esconder você de mim. Você entendeu?
Julian não respondeu. O pânico de finalmente ter cutucado a fera errada o dominou. Ele agarrou a pasta de couro e caminhou em direção ao elevador o mais rápido que pôde sem correr, os olhos fixos nas portas de aço.
Antes de apertar o botão, no entanto, ele olhou por cima do ombro, diretamente nos olhos arregalados e apavorados de Sienna.
— Apenas tome cuidado, Srta. Brooks — Julian sussurrou, a voz carregada de um aviso sombrio e agourento. — O mundo lá fora pode estar cheio de lobos ruins... mas você está dormindo com o próprio d***o. E ele não é do tipo que divide suas presas.
O elevador se fechou com um clique, apagando Julian Vance da cobertura e deixando para trás um silêncio sufocante.
Sienna continuou parada no início do corredor, as mãos tremendo incontrolavelmente, os olhos úmidos focados nas costas largas e tensas de Damian. O ar parecia carregado de eletricidade estática. Ela havia visto o homem sem a máscara. Ela havia visto a força bruta, a ameaça de morte dita com a mesma naturalidade de quem pede um copo de água. A dissonância cognitiva gritava em sua mente, forçando-a a escolher entre acreditar na crueldade que o estranho havia exposto ou no cuidado que o seu "salvador" lhe dava.
Damian respirou fundo, os ombros subindo e descendo em uma tentativa de conter a violência que fervia em suas veias. Ele se virou lentamente para ela.
O contraste foi avassalador. O monstro impiedoso sumiu. As feições endurecidas suavizaram, e os olhos escuros dele encontraram os dela com uma preocupação possessiva, devota e desesperada. Ele caminhou em direção a ela com passos lentos, como se estivesse se aproximando de um animal selvagem prestes a fugir.
— Sienna... — ele começou, a voz aveludada e quente retornando, as mãos estendidas.
Ela recuou um milímetro por puro instinto, mas a fraqueza em suas pernas a traiu. Ela não recuou mais. A verdade sombria era que o aviso de Julian não a havia impulsionado a fugir; havia acendido o terror absoluto de enfrentar o mundo exterior sem a proteção daquele homem terrível. Se até mesmo os executivos milionários de Wall Street tinham pânico do que Damian Cole podia fazer, então ele realmente era a fortaleza impenetrável que havia prometido ser. Ninguém jamais ousaria machucá-la enquanto ele estivesse por perto. O monstro era dela.
Ela deu um passo à frente e colidiu com o peito sólido de Damian, envolvendo a cintura dele com os dois braços e enterrando o rosto no paletó de tecido caro, tremendo como uma folha no vento frio.
Damian soltou um longo suspiro de alívio e triunfo. Ele a envolveu imediatamente, os braços fortes esmagando-a contra si em um abraço possessivo, as mãos grandes acariciando o cabelo castanho dela com uma devoção fanática. Ele beijou o topo da cabeça dela repetidas vezes.
— Eu sinto muito que você tenha tido que ouvir e ver aquilo, meu anjo — ele sussurrou asperamente contra os fios de cabelo dela, a mentira mais doce e venenosa já proferida escorrendo por seus lábios. — Eu tentei blindar você dessa sujeira. É por isso que eu mantenho você longe daquelas pessoas. É por isso que o mundo lá fora não é um lugar para a sua pureza. Eles são cruéis. Eles tentarão corromper a sua mente com mentiras para atingir a mim.
— Ele tinha medo de você — ela murmurou contra o peito dele, as palavras abafadas, o tom carregado de uma clareza entorpecida. — Ele estava apavorado.
— E todos eles deveriam estar — Damian respondeu, segurando o rosto dela, erguendo o queixo de Sienna para olhar profundamente em seus olhos. A escuridão possessiva nas pupilas dele era como um abismo sem fim. — Porque eu destruiria a vida de Julian Vance, eu destruiria a empresa dele, a reputação dele e a própria existência dele em um piscar de olhos, apenas por ele ter olhado para você de uma maneira que eu não aprovei.
Ele encostou as testas, obrigando-a a compartilhar a mesma respiração letal e quente que ele.
— Eu sou o seu escudo, Sienna. Eu posso ser o d***o para o resto do mundo, se isso for necessário para mantê-los longe da nossa casa. Mas para você, e apenas para você, eu serei a paz. Não deixe que as palavras de um rato morto assustem você. Onde você pertence?
A lavagem cerebral estava concluída. A armadilha psicológica havia se fechado com um fecho de platina, e Sienna Brooks não tinha mais qualquer desejo de encontrar a chave.
— Eu pertenço a você — ela sussurrou, a voz frágil e anestesiada ecoando no vazio milionário da cobertura, entregando-se voluntariamente aos braços de seu brilhante e perigoso carcereiro.