Capítulo 6: Território Marcado

1620 Words
O resto da madrugada passou sob uma calmaria tensa e artificial dentro do apartamento 504. Damian Cole não havia saído do lado de Sienna Brooks até que os soluços dela cessassem por completo e sua respiração se tornasse pesada, indicando que o cansaço extremo finalmente havia vencido o pânico brutal causado pelo blecaute. Demonstrando a atitude de um cavalheiro impecável, paciente e protetor, ele se recusou a deixá-la sozinha, acomodando-se no sofá estreito e desconfortável da sala após insistir suavemente para que ela se trancasse em seu quarto e tentasse descansar o resto da noite. Quando os primeiros raios pálidos e cinzentos do sol de outono cortaram a névoa fria de Nova York e iluminaram a sala pela fresta da cortina, Sienna abriu a porta do quarto devagar, os ombros ainda encolhidos por reflexo. Ela ainda vestia o pijama de algodão e trazia olheiras profundas e escuras marcando seu rosto pálido. Ao entrar na cozinha, deparou-se com uma cena que fez seu coração falhar uma batida — mas, dessa vez, não foi de medo. O cheiro de café forte recém-coado e torradas quentes preenchia o ar, dissipando o cheiro úmido da chuva. Damian já estava de pé, vestindo a mesma camisa preta da noite anterior, embora agora estivesse com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando os antebraços fortes. Ele mexia calmamente uma colher em uma caneca de cerâmica fumegante, agindo com uma naturalidade tão avassaladora e dominante que parecia que aquele espaço sempre fora a sua casa. — Bom dia — ele disse, a voz rica, grave e matinal ecoando suavemente pelo cômodo enquanto ele exibia um sorriso de canto acolhedor. — Presumi que você não teria forças ou ânimo para preparar o café hoje depois de tudo. Como se sente? Sienna aproximou-se da bancada de granito, abraçando os próprios braços contra o peito friorento em um gesto de autodefesa que já havia se tornado um hábito. — Eu nem sei o que dizer, Damian... Você passou a noite em um sofá duro e minúsculo e ainda preparou o café? — ela soltou uma risada fraca e sem humor, os olhos castanhos marejados de uma gratidão exaustiva. — Acho que passei a noite inteira esperando acordar desse pesadelo. Eu ainda sinto que estou enlouquecendo, que estou perdendo o controle da minha própria vida. Damian deixou a caneca sobre o granito com um clique seco e deu dois passos longos e firmes em direção a ela. Ele diminuiu a distância de forma deliberada até que Sienna pudesse sentir o calor familiar e reconfortante que emanava de seu peito. Ele estendeu a mão direita e, com uma lentidão calculada para não assustá-la, afastou uma mecha de cabelo castanho que caía sobre o rosto dela, deixando seus dedos quentes roçarem de leve em sua bochecha fria. O toque foi explícito, pesado e carregado de uma possessividade camuflada de puro carinho. — Você não está enlouquecendo, Sienna. O perigo lá fora é absurdamente real, mas o que importa é que eu estou aqui dentro com você agora — ele proferiu, mantendo o olhar escuro fixo e implacável nos olhos dela, prendendo sua atenção de forma absoluta e quase magnética. — Mas nós precisamos conversar seriamente sobre como as coisas vão funcionar a partir de hoje. O que aconteceu ontem provou que aquele homem sabe exatamente quando você está vulnerável. Ele desligou a energia do seu bloco antes de tentar forçar a janela. Isso é o comportamento de alguém que está caçando, alguém que não vai desistir até conseguir o que quer. Sienna engoliu em seco, sentindo o estômago revirar violentamente diante da análise cirúrgica de Damian. Ela assentiu levemente, entregando completamente as rédeas de sua própria segurança nas mãos daquele homem imponente. — O que eu faço? Eu tenho que ir para o escritório hoje de qualquer jeito, tenho prazos acumulados por causa do sumiço repentino do Thomas e meu chefe já está no meu pescoço... — Você vai trabalhar, sim. Mas não vai andar sozinha por aquelas calçadas nem mais um único dia — Damian determinou, o tom de voz caindo para uma seriedade inflexível, rouca e dominante que não dava qualquer margem para discussões. — Eu vou levar você até a porta do seu escritório todas as manhãs. E vou buscá-la exatamente no minuto em que seu expediente terminar. Se precisar sair do prédio para almoçar, tomar um ar ou resolver qualquer pendência na rua, você vai me ligar antes de colocar os pés na calçada. Sem exceções. Sienna piscou repetidamente, surpresa com o nível de controle daquela nova rotina imposta. Uma sutil e distante pontada de alerta tentou piscar no fundo de sua mente, um instinto primitivo de sobrevivência sussurrando que aquilo era excessivo. No entanto, a lembrança aguda do barulho metálico da janela sendo forçada na escuridão breu da madrugada apagou qualquer faísca de racionalidade. Ela estava apavorada demais para querer liberdade; ela queria, acima de tudo, proteção. — Mas Damian... você tem a sua própria vida, seu próprio trabalho e seus negócios. Eu não posso prender você à minha rotina caótica dessa forma — ela argumentou timidamente, abaixando o olhar. Damian soltou uma risada baixa, um som sombrio e aveludado que ecoou de forma enigmática pela cozinha. Ele se inclinou um pouco mais, o rosto perigosamente próximo ao dela, inalando o cheiro doce da pele da garota. — Meu trabalho me permite ditar meus próprios horários com total liberdade, Sienna. E, neste momento, garantir que você permaneça inteira e intocável é a minha única prioridade absoluta — ele respondeu, e o brilho possessivo e quase selvagem em seus olhos escuros era o juramento de um predador marcando seu território definitivo. Ninguém chegaria perto dela. Ninguém além dele. — Agora, coma essas torradas e tome um banho quente. Eu vou até o meu apartamento do outro lado da rua trocar de roupa e estarei de volta em exatos vinte minutos para buscar você. Deixarei a porta trancada por fora, não abra para ninguém. Sienna apenas assentiu, completamente hipnotizada pela autoridade natural que ele exercia. Ela assistiu Damian pegar seu casaco pesado no aparador e cruzar a porta principal. O clique da fechadura girando do lado de fora soou alto e definitivo, um lembrete físico de que ela estava trancada. Segura. Sozinha, ela arrastou-se até a área de serviço. Suas mãos tremeram violentamente ao tocar a esquadria de alumínio da janela da lavanderia. O parafuso central estava, de fato, solto, e parecia haver leves arranhões no metal que não estavam ali antes. Um calafrio violento subiu por sua espinha. Se Damian não tivesse atendido o telefone na primeira chamada... se ele não tivesse chegado tão rápido... ela balançou a cabeça, recusando-se a pensar no que poderia ter acontecido. Vinte minutos depois, após um banho rápido, Sienna estava vestida com um sobretudo elegante e tentava mascarar as olheiras com uma camada extra de corretivo diante do espelho do corredor. Exatamente no vigésimo minuto, como um relógio suíço impecável, três batidas firmes, conhecidas e pausadas ecoaram na porta da sala. Ao abrir, Damian estava do outro lado, vestindo um sobretudo escuro sobre um terno sob medida impecável que exalava dinheiro e poder. Ele cheirava a banho recém-tomado e ao seu perfume amadeirado. Eles desceram até a garagem subterrânea do prédio em um silêncio confortável. O carro de Damian era um SUV preto robusto e luxuoso, com vidros tão densamente escurecidos que era impossível ver qualquer detalhe do interior. Uma verdadeira fortaleza sobre rodas. Ele abriu a porta do passageiro para ela com uma cortesia extrema. Assim que Sienna entrou, o som pesado da porta se fechando a isolou instantânea e completamente dos ruídos úmidos e vazados da garagem. O interior cheirava a couro novo e ar-condicionado. Damian deu a volta com passos tranquilos, assumiu o banco do motorista e, antes mesmo de dar a partida no motor silencioso, o som alto e metálico das travas elétricas ecoou pelo veículo. Clique. Trancados. Ninguém poderia entrar. E ela não poderia sair. — O trajeto até a sua agência leva dez minutos sem trânsito — Damian murmurou, deslizando o carro luxuoso para fora da garagem e fundindo-se ao fluxo de veículos de Nova York. O trajeto foi marcado pela chuva fina batendo contra o vidro blindado, enquanto o interior do carro permanecia quente e silencioso. Quando finalmente pararam em frente ao prédio comercial de Sienna, ela fez um movimento para soltar o cinto de segurança, mas as mãos grandes de Damian foram mais rápidas. Ele se inclinou sobre o corpo dela, invadindo seu espaço pessoal, e pressionou o botão vermelho do cinto ele mesmo. O rosto dele ficou a centímetros do dela, seus narizes quase se tocando. — Direto para a sua mesa, Sienna. Não saia do prédio. Eu estarei aqui às dezoito horas em ponto esperando por você — ele sussurrou, a voz carregada de uma ordem inquestionável, enquanto destravava as portas do carro. — Estarei aqui — ela prometeu, ofegante pela proximidade, descendo apressada para a calçada e correndo para dentro do saguão espelhado do escritório. Enquanto Damian assistia a silhueta dela desaparecer pelas portas giratórias, a gentileza prestativa evaporou de suas feições como fumaça. Sua mente operava em puro êxtase. Ele havia conseguido estabelecer as linhas de controle ao redor dela de forma totalmente física. Ao ditar seus horários de transporte, ele eliminava qualquer chance de ela interagir com terceiros no caminho, receber ajuda externa ou tropeçar em qualquer pista sobre o desaparecimento forçado de Thomas. Ele havia se tornado o único filtro através do qual o mundo poderia alcançá-la. O território estava formalmente marcado, e a perseguição entrava em sua fase mais perigosa: a doce e sufocante ilusão do amor e da segurança, construída perfeitamente dentro de uma jaula sem grades.
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