O contraste entre o interior do SUV blindado de Damian e o saguão espelhado da agência de design foi um choque brutal para os sentidos de Sienna Brooks. O calor reconfortante e o cheiro amadeirado de couro e perfume masculino deram lugar, em questão de segundos, ao ar-condicionado excessivamente frio do prédio comercial e ao cheiro asséptico de produtos de limpeza cítricos.
Enquanto caminhava em direção aos elevadores, Sienna sentiu os próprios ombros enrijecerem. A sensação de estar sendo observada, que havia milagrosamente desaparecido enquanto ela estava trancada no carro de Damian, começou a rastejar de volta pela base de sua nuca. Cada rosto anônimo que cruzava seu caminho no saguão parecia carregar uma ameaça velada. O homem de terno cinza lendo o jornal no canto, o mensageiro segurando um pacote de papelão, até mesmo o segurança do prédio... qualquer um deles poderia ser o monstro invisível que desligara a sua energia na madrugada.
Ela apertou o botão do elevador e abraçou a própria bolsa contra o peito, contando os andares digitalmente. Apenas respire. Ele vai voltar às dezoito horas, ela repetiu mentalmente, como um mantra desesperado. A promessa de Damian Cole era a única coisa sólida que a impedia de dar meia-volta e sair correndo daquele prédio.
Quando as portas se abriram no andar da agência, o ambiente vibrante e caótico de sempre a recebeu. Telefones tocavam, impressoras zumbiam e o murmúrio constante de conversas criativas preenchia o ar. Sienna caminhou apressada pelo corredor de divisórias de vidro, mantendo a cabeça baixa, ansiando pela segurança de sua própria mesa.
No entanto, ao virar no corredor principal, seus passos vacilaram e pararam abruptamente.
A mesa ao lado da sua, que pertencia a Thomas, estava vazia. Mas não era um vazio casual de alguém que estava atrasado ou havia saído para tomar um café. Era um vazio estéril. Os porta-retratos com fotos do cachorro dele não estavam mais lá. A caneca de cerâmica do Star Wars, que ele usava religiosamente todos os dias, havia sumido. Os post-its coloridos que forravam a borda de seu monitor tinham sido arrancados, deixando apenas o plástico preto e sem vida.
— Sienna? Que bom que você chegou — a voz ríspida de Arthur, o diretor de criação da agência, cortou o ar antes que ela pudesse processar o que estava vendo. Ele segurava uma pasta de couro e tinha uma expressão de pura irritação no rosto. — Preciso de você na minha sala por um minuto.
Sienna engoliu em seco, sentindo as palmas das mãos começarem a suar frio. Ela seguiu o chefe até a sala de vidro no final do corredor, fechando a porta atrás de si para abafar o barulho do escritório.
— Sente-se — Arthur apontou para a cadeira com impaciência, sem sequer olhar para ela enquanto abria a pasta. — Eu sei que você e o Thomas estavam trabalhando em dupla na campanha da Lumina Cosmetics, e é por isso que estou chamando você primeiro.
— Arthur, o que aconteceu com a mesa dele? — Sienna interrompeu, a voz saindo um pouco mais esganiçada do que ela pretendia. O pânico já borbulhava em sua garganta, ameaçando sufocá-la. — Ele disse que teve um problema médico ontem... ele está no hospital?
Arthur soltou um suspiro pesado e esfregou as têmporas, claramente exausto com a burocracia.
— Ele não está no hospital. Thomas pediu demissão no meio da madrugada. Mandou um e-mail curto e direto para o RH, com cópia para mim, às três da manhã. Disse que estava abrindo mão do aviso prévio e que precisava deixar o estado imediatamente por motivos pessoais e irrevogáveis. E pior, ele mandou um serviço de entregas buscar os pertences pessoais dele na mesa hoje, antes mesmo do prédio abrir.
O chão sob os pés de Sienna pareceu desaparecer. Uma vertigem violenta a atingiu, fazendo o escritório de vidro girar levemente ao seu redor.
— Deixar o estado? — ela sussurrou, os olhos castanhos arregalados e fixos no chefe, buscando desesperadamente qualquer sinal de que aquilo era uma brincadeira de mau gosto. — Isso... isso não faz o menor sentido, Arthur. Ele acabou de alugar um apartamento novo no Brooklyn. Ele estava animado com a campanha. Ele não iria simplesmente largar tudo e fugir no meio da madrugada!
— Bem, foi exatamente o que ele fez — Arthur retrucou, o tom prático e corporativo demonstrando zero empatia pela crise emocional do ex-funcionário. — E agora nós temos um buraco no cronograma. Eu preciso saber se você consegue assumir a direção de arte da campanha sozinha ou se vou precisar realocar o projeto para a equipe B.
Sienna não ouviu o resto das palavras do chefe. O zumbido em seus ouvidos tornou-se ensurdecedor. A imagem da janela de sua área de serviço sendo forçada exatas horas antes do e-mail de Thomas ser enviado piscou em sua mente como flashes de uma câmera. A conexão era perturbadora demais para ser ignorada, e dolorosa demais para ser aceita.
Alguém a estava isolando. Alguém estava cortando, uma a uma, todas as linhas de comunicação que ela tinha com o mundo. O detetive da polícia que riu dela. E agora Thomas, seu único porto seguro no trabalho, fugindo no meio da noite como se estivesse correndo pela própria vida.
Ela passou o resto do dia em um estado catatônico de choque. Seus dedos moviam-se sobre o teclado do computador, clicando em camadas de design e ajustando paletas de cores no piloto automático, mas sua mente estava presa em um labirinto escuro de paranoia e terror absoluto. A cada vez que o telefone de sua mesa tocava, ela dava um sobressalto na cadeira. A cada vez que a porta do elevador do andar se abria, ela prendia a respiração, esperando ver uma figura encapuzada caminhando em sua direção.
Durante a pausa para o almoço, trancada dentro de uma das cabines do banheiro feminino, ela tentou ligar para Thomas catorze vezes. Em todas as tentativas, a mesma voz robótica da operadora informava que o número chamado não existia mais ou estava fora da área de cobertura. A linha havia sido cortada. Ele havia desaparecido no ar, assim como sua sanidade ameaçava fazer.
Enquanto Sienna definhava em seu pânico silencioso no décimo quarto andar, o cenário na rua lá embaixo era de um controle muito mais frio e calculado.
Faltavam quinze minutos para as dezoito horas, mas o SUV preto blindado de Damian Cole já estava estacionado exatamente em frente às portas de vidro do prédio comercial. A chuva lá fora havia engrossado, transformando a tarde de Nova York em um borrão cinzento e úmido. Dentro do carro, o clima era de puro conforto e soberania.
Damian estava recostado no banco de couro do motorista, os olhos escuros acompanhando o movimento da porta do prédio com a paciência infinita de um predador esperando a presa sair da toca. Em seu colo repousava um tablet de última geração. Na tela iluminada, o software de monitoramento que ele havia instalado sorrateiramente no celular de Sienna mostrava não apenas a localização exata dela no prédio, mas o registro de chamadas do dia.
Um sorriso lento, perverso e satisfeito curvou os lábios de Damian ao ver as catorze ligações frustradas para o número antigo de Thomas.
Ele sentiu uma onda de puro êxtase primitivo aquecer seu sangue. O plano havia sido executado com uma perfeição estonteante. Thomas era uma peça descartável no tabuleiro de xadrez de Damian, um peão insignificante que havia sido obliterado com uma única ameaça no galpão abandonado. Ele sabia que o pânico que Sienna estava sentindo agora a empurraria inevitavelmente para a única saída segura que restava no labirinto: os braços dele.
Quando o relógio digital no painel do carro virou para as dezoito horas em ponto, as portas giratórias do prédio se moveram.
Sienna saiu quase correndo. Ela sequer abriu o guarda-chuva. A garoa gelada molhou instantaneamente o seu sobretudo e o seu cabelo enquanto ela atravessava a calçada de forma desajeitada, os olhos correndo freneticamente de um lado para o outro. Assim que ela avistou o imponente carro preto, um alívio tão profundo cruzou suas feições que Damian pôde sentir a energia dela mudando até mesmo através dos vidros blindados.
Ele destravou as portas. Sienna abriu a porta do passageiro e jogou-se para dentro do carro, batendo a porta atrás de si com força. Assim que o clique pesado da trava elétrica ecoou, selando a cabine, a armadura emocional de Sienna finalmente quebrou.
Ela não disse "boa noite". Ela não ajeitou o cabelo molhado. Ela simplesmente cobriu o rosto com as duas mãos e desabou, chorando com a intensidade de alguém que estava lutando pela própria vida o dia inteiro e não aguentava mais segurar o peso.
Damian não hesitou. Ele esticou o braço direito, envolvendo os ombros trêmulos dela e puxando-a para o centro dos bancos, colando o corpo frágil da garota contra o peito dele.
— Shh... eu estou aqui, Sienna. Eu avisei que estaria aqui — ele sussurrou de forma aveludada, enterrando o rosto no cabelo úmido dela, inalando profundamente o cheiro de lavanda e o aroma doce e inebriante do pânico. — O que aconteceu? Alguém tentou se aproximar de você no prédio?
— O Thomas... ele foi embora — Sienna engasgou, as palavras abafadas contra o terno caro de Damian, os dedos dela cravando-se no tecido das costas dele como garras de um animal ferido. — Ele pediu demissão no meio da madrugada, cancelou o número de telefone e simplesmente fugiu da cidade, Damian. Quem quer que esteja atrás de mim... também estava atrás dele. Ele foi embora para não morrer e me deixou sozinha!
Damian apertou o abraço, acariciando os fios de cabelo da nuca dela com uma lentidão sádica e protetora, acalmando o tremor do corpo da garota. Ele adorava ouvir como a mente dela criava teorias mirabolantes para justificar o controle que ele mesmo exercia.
— Eu sinto muito que ele tenha sido um covarde, Sienna — Damian murmurou, o tom de voz pingando uma empatia venenosa e meticulosa. Ele a afastou apenas o suficiente para segurar o rosto dela com as duas mãos, os polegares enxugando as lágrimas quentes que manchavam as bochechas dela. Seus olhos escuros eram como buracos negros, prontos para sugá-la por inteiro. — Eu avisei você hoje de manhã. As pessoas comuns fogem na primeira vez que o perigo mostra os dentes. Elas abandonam você. Mas olhe para mim.
Sienna piscou, os cílios pesados de lágrimas, e obedeceu, hipnotizada pela intensidade daquele homem.
— Eu não vou a lugar nenhum — Damian jurou, cada sílaba carregada de uma possessividade que fez o coração de Sienna disparar, ignorando completamente os alarmes vermelhos que soavam em sua mente. — Você não está sozinha. Ninguém nunca mais vai abandonar você.
Ele soltou o rosto dela, engatou a marcha do carro e acelerou suavemente, afastando-se do meio-fio molhado de Nova York.
— Você não tem a menor condição de voltar para aquele apartamento hoje e ficar olhando para as paredes — ele determinou, a autoridade voltando à sua voz enquanto ele ditava o próximo passo do confinamento. — Nós vamos jantar fora, em um lugar calmo e seguro. E esta noite, você não vai trancar a porta do seu quarto. Você vai dormir na minha cobertura.
Sienna não protestou. Ela apenas fechou os olhos, recostando a cabeça no banco de couro, sentindo que finalmente estava salva, sem saber que as algemas invisíveis acabavam de ser atadas de forma permanente em seus pulsos.