Capítulo 21: Xeque-Mate

2439 Words
O som da água escura caindo na fonte de pedra da estufa, que antes parecia um murmúrio relaxante, agora ecoava nos ouvidos de Sienna Brooks como o tique-taque ensurdecedor de uma bomba-relógio. Damian Cole continuava de joelhos à sua frente, no tapete de pele felpuda. A postura dele era perfeitamente relaxada, os ombros largos caídos em uma aparente tranquilidade, mas os olhos... os olhos dele eram dois poços de escuridão impenetrável, brilhando com a letalidade silenciosa de um predador que encurralou sua presa. — Você está vendo problemas onde não existem, Sienna? A pergunta pairou no ar quente e úmido, pesada como chumbo. O cérebro de Sienna entrou em curto-circuito. Ela tentou manter a máscara de porcelana. Ela tentou forçar as engrenagens do próprio rosto a formar uma expressão de confusão inocente, mas os músculos simplesmente não obedeciam. O pânico cru e absoluto começou a vazar pelas rachaduras de sua compostura. — Eu... eu não sei do que você está falando — ela gaguejou, a voz não passando de um sussurro trêmulo e frágil. Ela desviou o olhar para o bloco de rascunhos no chão, incapaz de sustentar o peso daquela encarada. — Eu só achei que a sombra do arquivo estava pixelada. Eu queria que o Arthur conferisse antes de mandar para o cliente. Foi só excesso de zelo profissional. Damian soltou um suspiro longo, lento e profundamente decepcionado. O som fez o sangue nas veias da garota congelar. Ele não gritou. Ele não se levantou em fúria. Em vez disso, com a calma aterrorizante de um mestre de xadrez que acaba de anunciar o fim da partida, ele levou a mão ao bolso interno do paletó que havia deixado na poltrona momentos antes e puxou um tablet ultrafino e escuro. A tela do aparelho acendeu com a biometria dele. Damian deslizou o dedo polegar pela tela de vidro e, sem dizer uma única palavra, virou o tablet na direção do rosto de Sienna. O mundo dela desabou em ruínas. Na tela de alta resolução, brilhava o arquivo do banner da Lumina Cosmetics. Mas não era a imagem normal. O Cole Security Protocol não era apenas um filtro de palavras; era um sistema de inteligência artificial militar. O software havia desconstruído o PDF de Sienna camada por camada, isolando as formas vetoriais. Ali, no centro da tela de Damian, destacada em um vermelho fluorescente e ampliada em mil por cento, estava a sua mensagem oculta. Cada letra, cada pedido de socorro, cada menção ao sequestro de Thomas e ao nome de sua mãe. O grito de desespero que ela achou que estava camuflado nas sombras brilhava como um holofote de traição nas mãos do sequestrador. — O meu servidor processa três milhões de linhas de código malicioso por segundo, meu anjo — Damian murmurou, a voz caindo para uma frequência grave e vibrante que ressoou no peito dela. Ele abaixou o tablet, os olhos cravados no rosto agora pálido como cera de Sienna. — Você realmente achou que mudar a cor de uma fonte para o tom de grafite e transformá-la em curvas enganaria a arquitetura digital que eu construí para manter você segura? A máscara quebrou. Sienna soltou um soluço rasgado, o peito subindo e descendo em uma hiperventilação violenta. O terror primitivo engoliu a sala. Ela recuou no tapete, arrastando-se para trás, tentando colocar distância entre o seu corpo e o homem à sua frente, até que as costas dela bateram contra a base de pedras úmidas da fonte de água. Não havia para onde fugir. — Por favor... — ela implorou, a voz falhando, as lágrimas transbordando e escorrendo quentes pelo rosto manchado de carvão. Ela juntou as mãos em frente ao peito, tremendo da cabeça aos pés. — Damian, por favor. Fui eu. Fui eu quem escreveu. A minha mãe não tem culpa de nada! O Arthur não viu, não machuque ninguém, por favor! A reação dela pareceu ferir Damian. Uma ruga de descontentamento surgiu entre as sobrancelhas espessas dele. Ele guardou o tablet, aproximou-se arrastando os joelhos pelo tapete e segurou os pulsos tremeluzentes da garota, forçando-a a abaixar as mãos em posição de súplica. — Olhe para mim, Sienna — ele ordenou, o tom inflexível. Ela balançou a cabeça freneticamente, soluçando, mas ele soltou um dos pulsos dela e segurou o queixo da garota com firmeza, obrigando-a a erguer os olhos marejados. — Você quebrou a nossa confiança. Você tentou convidar o caos e a destruição para dentro da nossa casa depois de tudo o que eu sacrifiquei para blindar a sua mente do mundo lá fora. Você tentou me pintar como um monstro em uma carta. — Você sumiu com o Thomas! E agora vai matar a minha mãe! — ela gritou, a histeria finalmente rasgando a garganta, a verdade sendo cuspida no ar pesado da estufa. — Você é o monstro! Você forjou aquele ataque! Você forjou tudo! O rosto de Damian não se alterou. A tranquilidade dele era pior do que se ele a tivesse estapeado. — Eu eliminei as variáveis que faziam você sofrer e que ameaçavam a sua segurança. Eu purifiquei o seu ambiente — ele corrigiu com a convicção sombria e distorcida de um fanático religioso. — E a sua mãe é a mais nova variável. Ao contratar um investigador particular, ela acendeu um farol em direção à nossa vida. Ela está puxando os fios de um tapete que, se desenrolado, destruiria a paz que construímos. Eu não posso permitir que ninguém a tire de mim, Sienna. Ninguém. Nem o próprio sangue. — Não! Damian, eu faço o que você quiser! — Sienna se atirou para a frente, agarrando a gola da camisa branca dele, o orgulho completamente aniquilado pelo instinto de salvar a mãe. — Eu nunca mais toco naquele computador. Eu aceito o colar, eu aceito a estufa, eu não saio daqui nunca mais, eu prometo pela minha alma! Apenas cancele a ordem! Não deixe os seus homens machucarem a minha mãe! Damian a observou se desfazer em suas mãos. A adoração possessiva retornou aos olhos dele, misturada com o triunfo absoluto. Ele havia chegado ao núcleo dela. Ele havia extraído a submissão final, voluntária e desesperada. — As suas promessas são doces, meu anjo, mas as suas ações me mostraram que você precisa de incentivos mais firmes — ele sussurrou, acariciando os cabelos castanhos bagunçados da garota, enquanto ela chorava contra o peito dele. Ele enfiou a mão no bolso da calça de alfaiataria e puxou o próprio celular criptografado. Sem desviar os olhos dos dela, ele digitou um código rápido e colocou o aparelho no viva-voz, descansando-o sobre o tapete felpudo entre eles. Três toques secos ecoaram pelo sistema de som de alta definição. — Comando pronto, Cole — uma voz masculina, áspera, fria e metálica, atendeu do outro lado. Sienna parou de respirar. O ar ficou preso na traqueia. — Qual a posição da variável em Nova Jersey, Marcos? — Damian perguntou casualmente, enquanto usava o polegar para enxugar uma lágrima no rosto de Sienna. — Posição confirmada. Estou a cento e cinquenta metros de distância, estacionado em uma van de serviço na mesma rua. O investigador acabou de sair da casa com uma pasta de arquivos. A variável está na cozinha, sozinha. Tenho contato visual pela janela lateral. Aguardando o sinal verde para iniciar a limpeza e a queima do perímetro. Queima do perímetro. A expressão corporativa para assassinato e destruição de provas soou pior do que qualquer palavrão. Sienna abriu a boca para gritar, para implorar para a voz do outro lado, mas a mão pesada de Damian cobriu a boca dela instantaneamente, silenciando-a. Ele aproximou o rosto do ouvido de Sienna, o hálito quente batendo contra a pele gelada da garota. — O destino dela está nas suas mãos agora, Sienna — Damian sussurrou apenas para ela, de forma inaudível para o celular. — Eu não sou um carrasco. Eu sou um homem disposto a negociar. Você vai ligar para a sua mãe agora. Do meu telefone blindado. Sienna arregalou os olhos, o coração batendo com tanta força que doía. Ela assentiu freneticamente contra a mão dele, desesperada. Damian não a soltou imediatamente; ele continuou a ditar as regras. — Você vai dizer a ela que conheceu um homem rico. Que se apaixonou de forma cega e imprudente. Que você está na Europa, vivendo um conto de fadas, e que fugiu porque não queria a pressão da família ou da agência. Você vai dizer que Thomas a ajudou a despistar as pessoas e seguiu o próprio rumo. Você vai exigir que ela cancele o investigador particular agora mesmo, ou você nunca mais falará com ela. Você vai queimar as pontes, Sienna. Você vai ser convincente. Se a sua voz tremer, se você insinuar qualquer perigo, ou se ela não acreditar... eu dou a ordem para o Marcos puxar o gatilho. A crueldade da exigência era indescritível. Ele não estava apenas ameaçando a mãe dela; ele a estava forçando a ser a arquiteta do próprio isolamento perpétuo. Ele queria que a mãe de Sienna parasse de procurá-la voluntariamente, acreditando que a filha a havia abandonado. Mas a imagem de um atirador na rua chuvosa de Nova Jersey não lhe deixava escolha. Sienna assentiu mais uma vez, as lágrimas caindo livremente. Damian finalmente tirou a mão da boca dela. Ele pegou o aparelho, mudou a linha e discou o número que ela conhecia de cor. O telefone chamou uma, duas, três vezes. O som do toque parecia durar uma eternidade. — Alô? — a voz suave, preocupada e exausta da sra. Brooks ecoou pelo viva-voz no chão da estufa. Sienna engasgou. O som da voz da mãe depois de quase dois meses presa no inferno milionário quase quebrou o restante de sua sanidade. Damian inclinou a cabeça, os olhos negros cravados nela, o dedo pairando sobre o botão de encerrar chamada, pronto para dar o sinal verde aos seus homens a qualquer momento. — Mãe... — Sienna forçou as palavras a saírem, engolindo o bolo de choro espinhoso que rasgava a sua garganta. Ela forçou uma leveza doentia na voz, uma atuação de Oscar movida pelo pânico. — Mãe, sou eu. — Sienna?! Meu Deus, Sienna! Minha filha, onde você está? O seu celular está desligado há semanas, o seu apartamento está vazio, o Thomas sumiu! Eu fui à polícia, eu contratei um homem para te achar, eu achei que você estivesse morta! — a voz da mulher do outro lado da linha falhou, desabando em um choro de alívio puro. O peito de Sienna afundou. A dor da culpa era lancinante. Damian a encarava de perto, a sombra dele bloqueando toda a luz do ambiente. — Mãe, me escuta. Por favor, se acalme. Eu estou bem — Sienna mentiu, a voz ganhando uma firmeza desesperada, apertando as mãos em punhos até as unhas cravarem na carne. — Eu não fui sequestrada. Eu... eu fugi, mãe. — Fugiu? Como assim, fugiu? De quem? — Com alguém — ela continuou, cada palavra queimando os próprios lábios. O olhar de Damian brilhou com aprovação. — Eu conheci um homem incrível. Muito rico. Nós estamos... nós estamos na Itália agora. Foi tudo muito rápido, impulsivo. Eu estava tão cansada da pressão da agência e de Nova York. Ele me levou com ele. Eu pedi para o Thomas não contar para ninguém, ele me ajudou a sair sem deixar rastros e foi seguir a vida dele. O silêncio do outro lado da linha foi denso, marcado apenas pela respiração ofegante da sra. Brooks. — Você está louca? Sienna, isso não parece com você. A polícia está atrás de você. E o homem que eu contratei achou umas coisas estranhas nas câmeras do seu prédio... Damian ergueu a mão esquerda. Faltava um milímetro para ele apertar o botão vermelho que cortaria a ligação e mataria a mulher em Nova Jersey. — Cancele isso, mãe! — Sienna elevou a voz, soando deliberadamente irritada, soando exatamente como uma filha mimada e cega por um romance repentino. A pressa a fez chorar ainda mais silenciosamente. — Mande-o parar agora mesmo! Você está me envergonhando! O homem com quem eu estou é uma figura pública importante, ele não quer escândalos na mídia com a família da namorada acionando polícia. Se você não cancelar esse investigador agora e deixar isso para lá, eu juro que troco de número e você nunca mais vai ouvir a minha voz! A estufa de vidro ficou em absoluto silêncio. Apenas a chuva lá fora e a fonte artificial murmuravam. Sienna olhava para o celular no tapete como se olhasse para a arma de um crime. — Você... você está falando sério? — a mãe dela perguntou, a voz agora carregada de uma mágoa profunda, um choque ferido que despedaçou o último resquício da alma de Sienna. — Eu fiquei sem dormir por um mês achando que haviam tirado você de mim... e você estava viajando com um ricaço? E ainda me ameaça? — É a verdade. Eu quero começar de novo. Pare de me procurar. Eu estou feliz. Eu juro que estou feliz — Sienna sussurrou a frase final, o peso da mentira fechando o seu próprio túmulo. — Eu amo você. Mas me deixe em paz. Ela não esperou a resposta. Com a mão trêmula, Sienna apertou o botão vermelho e encerrou a chamada. O celular apagou. A ponte havia sido explodida. Ela não existia mais para o sistema policial, não existia mais para a empresa e, agora, não existia mais para a própria família. Sienna Brooks estava oficialmente e irrevogavelmente isolada da face da Terra, trancada na redoma de vidro nas nuvens do Upper East Side. Ela desabou no chão, os joelhos cedendo, caindo para a frente até a testa bater no peito de Damian. O choro dela não era contido; era o lamento animalesco e quebrado de uma mulher que acabara de sepultar a própria identidade. Damian a envolveu no abraço mais forte, cálido e perfeitamente sádico de todos. Ele acariciou as costas trêmulas dela, beijando-lhe a testa, inalando o cheiro da dor e da submissão absoluta. — Shh... já passou. Você fez muito bem. Você tomou a decisão certa para a nossa família — ele sussurrou as palavras de conforto no ouvido dela, selando as correntes ao redor da mente despedaçada da garota. — O mundo lá fora finalmente morreu para nós, Sienna. Agora, nós temos a eternidade. Só você e eu. O monstro havia vencido. A porta da gaiola não apenas havia sido trancada; a fechadura havia sido preenchida com chumbo derretido, e Sienna nunca mais encontraria a saída.
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