As sessões com a psiquiatra estão indo bem ou pelo menos é o que ela diz. Para ser sincero, noto uma certa leveza no peito, mas às vezes não consigo evitar a sensação de que estou me afogando quando as lembranças de tudo o que aconteceu comigo me invadem. Especialmente sobre Leonardo.
— Após receber alta, você gostaria de continuar frequentando?
— Eu penso que sim. Me sinto melhor quando termino, acho que falar clareia minha mente.
— Ok, vou ver se ela consegue continuar cuidando de você.
— Não há problema se for outra pessoa.
— Não, será ela, eu garanto.
E o habitual Bruno retorna. Eu me aconchego em seu peito espaçoso e ele me puxa para mais perto. Para minha surpresa, sua mão pousa na minha barriga e eu congelo com a ação. Ele o remove quando percebe a tensão.
— Eu não queria…
— Está tudo bem, só me pegou de surpresa. A obstetra disse que viria hoje com a ultrassonografia, ela quer a examinar para verificar o estado dela. Ele disse que poderia haver consequências para o acidente e temo que algo aconteça com ela. Não sinto ela se mexer dentro de mim, Bruno.
— Ela vai ficar bem, acredite.
— Eu tenho, mas…
— Nada, eu falhei com você até agora? — Ele pergunta, embora eu não tenha tempo de responder. Seja o que for, vamos descobrir.
— Você não é o pai dela. — Não digo isso como uma censura, mas para esclarecer que não é sua responsabilidade.
— Eu sei, mas você é minha e, portanto, ela também.
— Espere um minuto, o quê? Levanto a cabeça para olhá-lo nos olhos e há seriedade neles, ele não está brincando. Eu sei que ele gosta de mim. Porém, ele não mediu a intensidade de seus sentimentos.
— Bom dia, estou aqui para fazer o ultrassom. — A voz do obstetra me assusta, pois não ouvi a porta se abrindo. Este é um bom momento?
— Sim. — Bruno se levanta da maca e fica ao meu lado, permitindo que a mulher se aproxime de mim.
— No dia seguinte ao acidente, fizemos um ultrassom e não notamos nada de alarmante. No entanto, você está tomando medicamentos que, embora sejam indicados para gestantes, não descartamos efeitos colaterais.
— Ela poderia estar em perigo? Não a cinto se mover muito.
— É normal que os movimentos fetais diminuam às vezes, você esteve sob tensão; ainda assim, vamos verificar.
Ele espalha o gel frio na minha barriga e depois passa o ultrassom na minha barriga protuberante. Eu me permito observar a tela com atenção, meu coração acelerando conforme os segundos passam e ela permanece em silêncio.
— Há algo errado? — Bruno pergunta sobre mim.
— Não exatamente, mas há sinais de que eles disparam alarmes, responde. O bebê recebeu menos nutrientes do que deveria devido à perda de sangue que sofreu durante o acidente. É tão fez que não cresça como esperávamos neste momento da gravidez.
— O que isso significa para meu bebê? Vai ficar, tudo bem?
— Enquanto isso, seu coração continua forte, mas precisamos acompanhar seu crescimento muito em breve nas próximas semanas. Manteremos um monitoramento rigoroso para garantir que você receba os nutrientes necessários.
Meu corpo não estava lutando apenas para sobreviver, mas também pelo meu bebê. Não é suficiente? Não é forte o suficiente para protegê-lo?
“Vamos monitorá-la a cada duas semanas com ultrassons especiais para medir o seu crescimento. Também a colocaremos numa dieta mais rica em proteínas e vitaminas, e é importante descansar o máximo possível.” — Termina.
— O que vai acontecer se não ganhar peso? — A voz do Bruno soa mais grossa e rouca, carregada de emoções.
— Se o bebê não crescer o suficiente nas próximas semanas, podemos considerar o avanço do trabalho de parto para evitar complicações maiores. — responde — Mas os tratamentos atuais são eficazes, vamos confiar que funcionará.
Ele e eu ficamos em silêncio pelo resto da consulta. O obstetra saiu sem primeiro nos deixar duas fotografias do meu bebê. Eu acaricio seu rosto minúsculo na imagem, pedindo desculpas por colocá-la em risco.
— Você está se culpando novamente — ele diz.
— Como não podemos? Coloquei-a em risco em mais de uma ocasião. — O que me lembra algo importante — sabe quem conduzia o carro que me bateu? Eu estive tão distraído que não me ocorreu perguntar antes; você deve registrar uma reclamação.
É o mínimo que posso fazer, dessa forma vou me certificar de que o irresponsável não prejudique ninguém.
— Eu vou assumir, você não precisa se preocupar com isso.
— Faz muito por mim, Bruno.
— Gosto que me chame assim, faz-me sentir especial.
Minhas bochechas assumem a cor devido à intensidade de seu olhar. A memória dele nos chamando de seu também não ajuda a diminuir a vergonha. Ele merece uma mulher que não está quebrada nem danificada, uma cuja vida é mais fácil. No entanto, se ele está disposto a fazer qualquer coisa por mim, o mínimo que ele merece é que eu tente ser digno dele. Eu quero me recuperar para mim, para minha filha e para ele.
— Você é especial — eu reconheço.
— O seu igual.
— Quer falar da tua família? — Quero saber mais sobre eles.
— O que gostaria de saber? — Desta vez, senta-se numa das cadeiras, embora a traga o mais perto possível da maca.
— O que quer dizer.
Ele permanece em silêncio, suponho que olhando para suas memórias. Eu olho para ele com cuidado, apesar da diferença em anos — quarenta para ser exato — eu considero atraente. Não apenas fisicamente, mas também sua personalidade e tudo o que ele faz.
— A mãe sorria sempre, era uma mulher muito doce e paciente. Papai era, como eu, sério e ele tinha Asperger, embora em maior grau. A minha irmã era como a mãe, ela adorava-me e eu adorava-a.
— Como eles faleceram? — Eu questiono gentilmente enquanto a minha mão se move para agarrar a dele.
— Um acidente de trânsito. Eles foram em uma viagem e eu fiquei com minha avó, eu não queria ir com eles. Era rápido e indolor, em um minuto eles eram e no próximo não eram. Minha avó me criou até morrer de velhice, anos depois, eu era maior de idade, então eu conseguia cuidar de mim mesmo. Papai era engenheiro de sistemas, ele estava indo bem e deixou algum dinheiro, eu investi na minha educação e funcionou.
Ele fala tão simplesmente que poderia ser considerado insensível. No entanto, eu sei que, devido à sua condição, ele processa as emoções de forma diferente e isso não significa que ele não se importa, porque é óbvio que ele faz.
— Obrigado por me dizer.
— Ok. Tinha que saber.
— Gostaria que ficasse na sessão de terapia de hoje. Se não, se importa, problema.
— Tem certeza?
— Sim, eu gosto quando está comigo.
— Então não vou embora.
*******
Meu amados eleitores espero que estejam gostando da hístoria um pouco de realidade vivida na nossas vidas reais.
Espero que Leonardo pague pelo que fez com Helena e que Bruno possa faze-la feliz o que acham? Mesmo sendo especial acredito que ele vai de adptar assim com Helena também.