Tomo uma soneca depois do almoço, Bruno me deixa sozinha para descansar e retorna assim que acordo. Atrás dele vem o psiquiatra que, após me cumprimentar, senta-se em uma das cadeiras. Bruno me agarra e me coloca ao lado da maca, segura minha mão e espera silenciosamente que o Dr. Ful comece.
— O Sr. Bruno disse querer que ele estivesse presente. Está certo?
— Sim!
— Ok. Hoje, falamos sobre coisas relacionadas à sua infância e família. Hoje gostaria de falar sobre o incidente com o pai do seu bebê.
Eu não olho para Bruno, mas eu aperto sua mão e ele a devolve para mim, isso é o suficiente para me dar força para falar:
— A manhã daquele dia, fui para casa ajudar meu irmão, que me tratou m*l, e meu pai não fez nada. Todo esse dia confuso, eu estava muito sobrecarregada por emoções e, quando Leonardo me ofereceu para sair, eu vi isso como minha chance de relaxar e esquecer tudo. Errado não era para ter aceitado, já tinha notado uma atitude nele de que eu não gostava e eu estava rejeitando antes, mas eu estava fraca — eu paro para engolir o caroço na minha garganta e continuar falando.
— Parece que foi uma experiência extracorpórea, lembro-me de comer com ele e depois ir a um bar. Lembro-me das bebidas, da dormência e depois da dor. Havia tanta dor.
Bruno não pode mais ficar na cadeira e se levanta para deitar ao meu lado. Seu abraço nos conforta.
— Você sabe que não foi culpa sua, certo? — Descubra o médico.
— Eu continuo repetindo para mim toda vez que as memórias me invadem, mas não é fácil. Se eu não tivesse me colocado em perigo...
— Ele teria encontrado outra maneira de fazer. Pessoas como ele não desistem e também não aceitam negações. Se não fosse esse dia, teria encontrado outro. Seja como for, a culpa recai sobre ele, não sobre você.
— Sinto-me estranha, sinto que me devia sentir pior considerando que fui assaltada. No entanto, há momentos em que me sinto bem. Isso significa que estou quebrada?
— Não, Helena. Você não está quebrada — assegure — As pessoas superam o trauma de diferentes maneiras. Você não se lembrava do que aconteceu até acordar do coma, você lidou com tantas coisas em sua curta vida que você processa o trauma do seu jeito. Não há uma maneira certa de lidar com um ataque, o importante é que você entenda que não foi sua culpa, nada do que aconteceu é sua culpa.
Continuamos falando de outras coisas, quando terminamos, estou tão exausta que cochilo no peito de Bruno.
— Voltei!
Ele me encaixa no travesseiro e depois sai da sala. Eu o ouço falando com o Dr. Ful e posso identificar algumas palavras.
— Acha que devo dizer? — Ele pergunta.
— Dizer o quê?
— Considerando a sua autoestima, faria bem saber que há alguém por perto que a ama e cuida dela.
— Tenho Autismo de nível médio, tento ter cuidado para não magoar com algo que ela diz. Sei como me sinto, mas temo que ela pense que não estou sendo honesto.
— O Autismo não impede que os seus sentimentos sejam reais, apenas afeta a sua percepção de sinais sociais. Diga a verdade, ela a reconhecerá.
— Obrigado, doutora.
— Eu sou uma mulher profissional, no entanto, não posso me conter agora; você é um bom homem para ela, tenho certeza de que serão felizes. A Helena vai recuperar.
Eu não ouço a resposta dela, mas suas palavras continuam tocando em minha mente. Ela tem certeza de que eu vou me recuperar e acreditar nela, assim como eu acredito em Bruno. Isso será suficiente para deixar tudo para trás e ser feliz? Bruno volta e se senta ao meu lado na cama, me coloca em seu peito novamente e, em seguida, coloca a mão para baixo para a minha barriga e tocá-la.
— Há uns dias, perguntou por que é que eu cuidei de você, disse que não era da minha responsabilidade — falar em silêncio, como se revelasse um segredo — Você entrou na minha vida como um redemoinho, foram deliciosos sorrisos e sobremesas e você me matou e tudo o que eu acreditava estava bem. Entraste na minha vida e não quero tirar dela. Demorei um pouco para processar, mas eu te amo, eu sei que eu faço.
O pai, antes de falecer, contou o que sentia pela mãe. Ela disse ser a bagunça que ela não sabia que precisava em sua vida, ela era tão desajeitada e intrometida que a tirou de sua zona de conforto e é por isso que ele a amava. Você me preocupa, eu não sei como tratá-la a maioria do tempo e eu tenho medo de dizer algo que te machuca, mas eu te amo. Eu sei que sim. Você me ama? Não tenho a certeza, mas vou fazer me amar e me aceitar do meu jeito.
Quero abrir a boca e dizer tantas coisas, mas o caroço na minha garganta impede-me, não estou pronto para ele. Eu tenho que melhorar mentalmente para ser digno dele.
— Você é minha, Helena Veiga, sua filha incluída. É por isso que o faço, é por isso que cuido de vocês. Estou apaixonada e nunca mais deixarei que ninguém te magoe.
— Obrigado, Bruno, por tudo. Queria que fosse você o homem que me entregaria de verdade, mas me violentaram e mesmo assim está aqui dizendo que me ama.
— Não acredita, Helena?
— Acredito, só desejava que tudo fosse diferente, peço que tenha paciência comigo e um processo longo, e sei que agora de fato você é o homem da minha vida e não importa que seja especial, porque pessoas especiais também podem amar e viver, etc.
— Então, me aceita em sua vida?
— Sim, por que não? Você esteve presente em todos os momentos, só apenas fugiu porque não sabia exatamente como assumir seu amor por mim ou talvez por medo de te rejeitar, mas eu quero você, Bruno, na minha vida.
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Exixtem pessoas como Bruno que aparecem de verdade em nossas vidas não e mesmo?