Eu seguro sua mão com força antes que ele se afaste de mim. No entanto, eu o liberto quando percebo o quão irracional estou me comportando, ele voltará, já que ele sempre cumpre suas promessas.
— Vejo daqui a algumas horas? — Odeio que saia como uma pergunta e não como uma afirmação.
— Voltarei, Helena. — Garante.
Quando ele sai da sala, concentro minha atenção no médico que tem o olhar no caderno em suas mãos. Ela é uma mulher jovem, mas há algo nela que gera confiança em mim, algo fundamental considerando a posição que ela ocupa.
— Como foi a sua infância? — Pergunta.
— Pensei em começar por falar sobre o que Leonardo fez comigo.
— Vamos chegar lá. Ainda assim, gostaria de saber mais sobre você.
Eu me acomodo melhor na cama, ignorando a dor maçante em meus membros. Fecho os olhos e memórias felizes me invadem, é inevitável não sorrir.
— Tive uma boa infância, o meu pai e o meu irmão mais velho brincaram comigo e cuidaram de mim. Havia muitas risadas, mamãe feliz o tempo todo, aprendi a amar cozinhar graças a ela. Lembro-me de que ela costumava ter momentos estranhos, havia dias em que ela não saía do quarto e, com o tempo, eu entendi que era devido à sua depressão. Seu humor melhorou quando Kevin nasceu, ele era a luz em nossas vidas.
— Foi?
— O meu irmão morreu há cinco anos de um acidente. Eu deveria cuidar dele, mas tudo aconteceu muito rápido e em poucos minutos ele estava morto. A culpa foi minha, minha família não me perdoou por isso.
— Tenho uma pergunta, empurrou o seu irmão para a estrada?
— Não! Claro que não! — O grito causa dor no meu corpo.
— Conduziste o carro que bateu?
— Não.
— Então, como a sua morte é culpa sua? — Descubra, a sua confusão parece honesta.
— Eu tive que cuidar dele.
— E tenho a certeza do que fiz, sinto que o ama da forma como fala dele. Acidentes acontecem a todo tempo, Helena, eles fazem parte da vida.
— Ele era da minha responsabilidade e eu falhei com ele.
— Qual foi a última coisa que disse antes de morrer?
Eu mordo meu lábio duro para conter o soluço, as gotas de água já correm livremente pelo meu rosto e o peso no meu peito aumenta. Dói tanto, não importa o tempo passado, ainda dói como se fosse ontem.
— Ele... Ele queria que eu fosse feliz, que cozinhasse e fizesse as pessoas felizes com as minhas sobremesas.
— O teu irmão queria que fosses feliz, Helena. Ele não te culpou, por que te condena assim?
— Destruí a minha família, a morte dele partiu-nos, eu parti.
— Você não pode quebrar algo que já está destruído, Helena. Eles podem não ter sido capazes de vê-lo antes, Kevin pode ter sido a banda que os manteve juntos e decolou quando ele morreu. No entanto, é ingênuo acreditar que a culpa é sua. É mais fácil para algumas pessoas culparem os outros antes de aceitar sua responsabilidade.
— Tentei acertar, tentei, mas a mãe não melhorou e pensei que, se saísse de casa, ela melhoraria e foi isso que fiz. Descobri na semana passada que ela melhorou.
— O que reforça a minha teoria. Se eles culpam você, então eles não têm que lidar com suas próprias ações. Agora, diz-me, por que acha que não merece viver?
Sua pergunta me pega de surpresa e eu fico em branco por alguns minutos. Dra.Ful espera pacientemente até eu falar:
— Se a minha família não me ama, qual é o sentido de viver?
— Apesar da crença popular de que a família nos torna quem somos, os seres humanos são entidades independentes com pensamentos, comportamentos e crenças que moldamos ao longo dos anos. Você não é sua família, é você e sua vida não deve ser condicionada pelo seu amor ou falta dele.
— É mais fácil dizer do que acreditar.
— Eu sei, é por isso que vamos trabalhar na tua autoestima, Helena. Este não será um processo simples; no entanto, espero que você esteja disposta a continuar e, mais importante, terminá-lo. Vou visitá-la três vezes por semana, se não tiver problema.
— Ok.
— Antes de ir, gostaria de saber alguma coisa. Você está disposto a continuar a sua gravidez?
Suas palavras anteriores ecoam em minha mente, minha filha não deve ser condenada por quem é seu pai, muito menos pelo que ela fez. Os sentimentos continuam confusos, mas eu sei que é a coisa certa a fazer.
— Sim, estou disposta.
A psiquiatra acena com a cabeça, escreve algo em seu caderno e diz adeus a mim antes de sair da sala. Na solidão da sala, eu me permito liberar a dor contida; se eu pudesse sair dessa cama sozinha, eu correria para o chuveiro para lavar meu corpo e remover a sensação de sujeira. Por que é que o Leonardo teve que fazer isto? O choro é tão alto que sinto que estou me afogando na respiração. A máquina conectada a mim começa a assobiar, alertando uma enfermeira que vem me encontrar.
— Você deve se acalmar, senhorita.
Ela coloca as mãos nos meus ombros e isso me preocupa mais. Eu torço para afastá-la de mim, mas não há muito que eu possa fazer, considerando que eu tenho meu braço e perna direita em um elenco.
— Senhora, por favor —pergunte.
Eu abro a boca para gritar com ela, para me libertar, para me deixar em paz, mas uma figura que eu conheço bem aparece.
— Eu vou cuidar dela— Bruno.
— Mas...
— Eu disse que vou dela. — Cortava a réplica da enfermeira.
Bruno consegue acomodar seu corpo pesado e grande ao meu lado na maca e me puxa com cuidado até que eu esteja deitado em seu peito. Uma sensação de calma me invade e os soluços diminuem, embora não parem completamente. Ouço a porta fechar, a enfermeira deixou-nos em paz.
— Por que eu, Bruno?
— A culpa não é tua, foi ele.
— Ainda assim, se eu não tivesse concordado em namorar ele...
— Isso não é justificação, Helena, para ter feito isso com você. Disse que não, e mesmo que não tivesse recusado, ele não tinha o direito de fazer o que fez. A transgressão começou desde que ele pôs algo na tua bebida. Não fez nada de errado, ele fez, e quero que entenda.
— Por que quer cuidar de mim? — Sussurro.
— Eu te digo quando tiver alta, está bem?
Eu não respondo, no fundo, eu sei que você está certo, mas vai levar algum tempo para minha mente entender completamente. O Bruno continua a coagir-me até eu adormecer. Naquela noite, eu sonho com um monstro gigante me perseguindo com a intenção de me devorar.