"Gostava de poder voltar no tempo, gostava de não ter cometido esse erro porque agora não sei como lidar com a verdade."
Helena Veiga.
Aperto a cabeça às exigências de Leonardo, ele quer que eu beba alguma coisa, mas não me sinto bem em beber. Segure minha mandíbula e levanto o copo, embora eu não tenha escolha a não ser engolir o conteúdo completamente estranho.
— Isso, beba tudo.
— O que me deu, Leonardo? — pergunto, mas não sei por que é que a minha língua está pesada.
— Agora podemos ir.
Quero recusar, abro a boca em várias ocasiões; no entanto, nada sai. Ele me coloca em seu carro e dirige para outro lugar, minha visão é tão turva que eu não identifico nada. Eu vou do frio ao calor e depois ao frio quando meu corpo é despojado de minhas roupas. Dor, nojo e indignação são as emoções que eu experimento enquanto Leonardo faz o que quer comigo. Como alguém pode fazer isso? O que fiz para merecer?
— Helena, acorde. — Eu ouço uma voz familiar que me chama — Helena?
Abro os olhos lentamente, tudo está escuro; no entanto, a luz da noite é suficiente para ver a pessoa inclinada sobre mim: Bruno. Seu rosto mostra sinais de preocupação, sua barba é desleixada e parece que ele passou as mãos muitas vezes sobre o cabelo, dando-lhe um toque turbulento incomum para ele.
— Helena...
— Bruno — Pouca uma voz rouca.
Ele se afasta de mim por alguns segundos para voltar com um copo de água e um canudo, eu bebo o conteúdo ansiosamente até o terminar.
— Como se sente? — Pergunta.
Eu permito que meu cérebro escaneie meu corpo e o sentimento é esmagador. Todo o meu corpo dói demais, é como se um rolo compressor tivesse passado por mim; lembranças do acidente, do que Leonardo fez comigo, vêm até mim em ondas e eu consigo me apoiar do outro lado da maca bem a tempo de vomitar.
— Tire tudo, deixe. — Bruno me dá palavras de encorajamento.
— Ele... — Um soluço corta as minhas palavras — Eu não queria, eu disse que não, Bruno. Ele me deu algo para beber e meu corpo ficou pesado. Eu não queria, juro. — Continuo a repetir porque preciso que acredite em mim.
Isso me atrai para o peito dele e deixa ele mergulhar a camisa com minhas lágrimas. Choro pelo que me fizeram, choro pela minha família que não está aqui por mim, choro pelo acidente, choro pelo bebê no meu ventre que é produto de um ato tão c***l. Eu deixei sair toda a dor contida nos braços de Bruno, que é meu amigo e meu porto seguro.
— Esta tudo bem, agora. — Enrola-me como se fosse um pequeno.
— Não me lembro, não quero lembrar.
— Ele vai pagar, prometo —juro.
E eu acredito nele. Porque isso doí demais, foi um ato violento, um estrupo. Como alguém pode fazer isso com outros?
— Perdi-o? — Sussurro a pergunta, receio a sua resposta.
— Não, ele é corajoso como a mãe. Ambos sobreviveram à cirurgia. Foi um milagre, disseram os médicos.
Eu não sei como me sentir sabendo a origem do bebê no meu ventre. Eu tenho sentimentos mistos porque, embora ela seja minha filha, ela também é a consequência de um ato desumano. Sou uma pessoa má por desejar ter morrido no acidente? Que ambos tínhamos?
— Quantos dias se passaram? Quanto tempo devo ficar aqui? — Questiono-me.
— Uma semana se passou, o inchaço do seu cérebro melhorou ontem à noite e é por isso que eles decidiram tirá-la do coma; você entrou e saiu da inconsciência o dia todo. Eles repararam o seu braço e perna na cirurgia —explica. — O médico diz que você deve manter o descanso absoluto até que você e o bebê estejam fora de perigo, você provavelmente receberá alta em um mês se tudo correr bem.
— Não posso ficar um mês nesta cama —refutar.
— Você pode e vai — Ordena Bruno.
— Você me obedece e para o bem de vocês duas.
— Então, não seja teimosa. Não vou perder de vista, da última vez que fiz, conseguiu fugir e aqui estamos nós.
Eu imediatamente me sinto culpada por arrastá-lo para isso.
— Desculpe.
— Nada disso deveria ter acontecido, não vou cometer o mesmo erro duas vezes.
— Por que está falando isso, Helena?
— Vou buscar alguém para limpar o vômito. — Omitir a minha pergunta.
Sai antes que eu tenha tempo de falar. Vejo a porta fechando e uma sensação de pânico me invade, temo que ele também me deixe. Não importa que você prometa que vai cuidar de mim, o terror de estar completamente sozinha me impede de pensar com clareza. Eu me sinto tão confusa, insegura sobre como processar todas as informações.
A porta se abre e uma mulher entra para limpar a bagunça. Tenho vergonha de não poder me controlar, então evito olhar para ela até que ela saia. Eu espero e espero, mas Bruno não volta e eu começo a sentir ansiedade. Para onde foi? Por que não volta? Não há relógio na sala, mas parece uma eternidade quando a porta se abre novamente e Bruno aparece com uma mulher em uma túnica atrás dele.
— Por que demorou? — A pergunta sai tão rápido que não consigo pará-la — Desculpa.
Ele não parece se importar porque apenas fica ao meu lado enquanto o médico se senta em uma das cadeiras da sala.
— Oi, Helena, eu sou o Dr. Ful —aparece e eu aprecio que você não estenda a mão para agitá-la — Eu serei seu psiquiatra enquanto você estiver hospitalizada.
Eu olho para Bruno, que já estava me observando, ele acena com a cabeça e isso é o suficiente para mim.
— Helena Veiga, não gosto do meu nome completo.
Nos últimos meses, tenho notado que meu corpo não reage bem quando ouço que eles me chamam assim. Presumo que agora tem uma explicação, que Leonardo me chamava assim.
— Ok, Helena. O seu marido contactou-me, disse que precisaria da minha ajuda para falar sobre algumas coisas. Concorda com isso?
Eu olho para Bruno novamente, não porque ele busca sua autorização, mas porque ela o chamou de meu marido e ele não negou. Finge estar casado comigo para tomar decisões por mim?
— Eu sou. — Afirmo, pode não ser tão mau, afinal.
— Gostaria que ele estivesse presente? — Pergunta o médico.
— Não precisa responder, Helena, irei buscar umas roupas para você, volto mais tarde —informa ele.