CAPÍTULO 11

1321 Words
"Toda vez que Helena está por perto, a ordem em minha mente se transforma em caos, e eu não sei como corrigi-la ." Bruno Não entendo o que se passa. Tudo estava em ordem, exatamente como deveria ser, antes que ela aparecesse. Minha rotina era clara, previsível. Todos os dias era desembrulhado como um relógio: trabalho, comida, exercício, silêncio. Ninguém entrou no meu espaço sem a minha permissão, e nunca houve necessidade de se ajustar à presença de ninguém. Foi uma tranquilidade que me deu segurança. Mas agora Helena estava aqui. E, sem querer admitir, tudo mudou. Eu me movo pela cozinha, pegando os pratos, limpando os restos da sobremesa que ela trouxe. Delicioso, sim. Eu disse? Acho que sim, mas não o suficiente o que esperava. Eu vi isso em seus olhos, a maneira como eles se iluminaram quando eu tentei provar a primeira colher. Ela quer algo mais de mim, algo que eu não sei como dar. Obrigado, talvez. Palavras doces. Não sou bom nisso. Eu nunca fui. Aos quarenta anos, já devia ter aprendido, mas não aprendi. Sempre evitei essas interações, essas expectativas. Com a Helena, isso é impossível. Não sei como aconteceu. Um dia eu estava aqui, em silêncio, sozinho. Então ela colidiu comigo, e desde então, é como se ela tivesse quebrado o equilíbrio. Ela vem, traz sobremesas, sorri, fala sobre coisas que eu não entendo completamente, e me sinto compelido a retribuir. Às vezes eu faço, mas sempre me deixa com essa sensação estranha e desconfortável. Como se me empurrasse para ser algo que não sou. Algo que não consigo mudar. Lembro de quando me ofereci para ficar após levá-la ao hospital. Helena não pediu, foi o que ofereci. O desconforto, o calor no peito, a confusão na minha cabeça. Tudo me dizia que eu tinha que mantê-la à distância, que sua proximidade era perigosa. Não fisicamente, é claro, mas emocionalmente. É difícil para mim pensar nessa palavra. Mas a verdade é que não sei como lidar com isso. Toda vez que me aproximo, algo dentro de mim se contrai, e tudo o que posso fazer é recuar. Helena pede algo que não sei se posso dar. Não diz isso em palavras, mas eu vejo. E isso me confunde mais. Não há manual para isso, não há instruções a seguir. Se houvesse, talvez eu pudesse entender melhor. Talvez eu possa dar o que precisa. Mas eu não posso processar bem o que você está me perguntando, o que sua presença significa. Eu a vejo sentada à mesa, sorrindo timidamente. Eu penso em como eu poderia dizer a ela que foi o suficiente para hoje, que eu preciso do meu espaço, mas toda vez que eu tento, ela se sente e c***l. Então, eu faço o que faço melhor: eu me levanto, pego os pratos. A ação é clara, direta, um sinal de que a visita terminou. Não é que eu queira que ele vá, é só que não sei como fazer isso. Ela se levanta, percebe, embora eu não diga. Tenho a certeza que percebe que não sou como os outros. E não quero que ele saiba. Não quero que veja os meus fracassos. Mas ainda assim, fica. Ela olha para mim como se estivesse à espera de outra coisa, como querer que eu a impeça? Não sei o que fazer com esse olhar. — Obrigado novamente por ontem à noite, até mais tarde —diz, e sua voz é suave, muito macia. Quero dizer qualquer coisa, qualquer coisa. Diz que não é culpa dele que eu me sinto assim, que isto depende de mim. Mas em vez disso, deixei ir. Não a paro. Sinto mais calmo quando está fora, mas também vazio, como se algo tivesse dado errado e não sei como corrigir. Quando ela sai, o silêncio retorna. Deve ser reconfortante, no entanto, agora parece diferente. Vazio. O eco de sua voz permanece no ar, como desconforto persistente. Quando termino de organizar minha cozinha, sento na frente do meu computador para trabalhar em um programa de segurança cibernética que pretendo vender para uma das empresas farmacêuticas da área. Não sei quanto mais posso suportar este caos na minha cabeça. Eu me esforço para me concentrar no trabalho, nas coisas que posso controlar, mas tudo parece estar fora de lugar quando ela está por perto. Helena. Não a entendo, e isso me irrita. Mas o que mais me confunde é como ela me fez me importar em não a entender. Cansado de não conseguir nada, vou para a cama e sonho com aquela mulher de cabelos ruivos e olhos verdes como a floresta. Às cinco horas o alarme soa e m*l e eu consegui colar meus olhos, eu saio da cama com relutância, coloco roupas esportivas no meu corpo e saio de casa. O ar fresco da manhã bate no meu rosto enquanto eu corro, o som rítmico dos meus pés contra a calçada é a única coisa que consegue acalmar o emaranhado de pensamentos na minha cabeça. Sempre foi assim. O exercício me ajuda a esclarecer as coisas, organizar o caos que às vezes se instala em minha mente. Hoje, por mais que eu tente, não consigo me livrar da sensação de desconforto que ele me deixou na noite anterior. Não consigo tirá-la da cabeça. Toda vez que interagimos, algo em mim é removido, algo que eu não sei como lidar. Então eu corro mais rápido, como se eu pudesse deixar para trás aquelas emoções que eu não entendo. De volta, passo por uma cafeteria e, por algum motivo, meus passos param. Não estou com fome, mas algo me leva. O cheiro de café fresco e pão recém-assado enche o ar, e antes que eu perceba, eu estou comprando dois cafés da manhã. Um para mim, sem açúcar, e outro para Helena. Por quê? Eu não sei. Eu só faço. Caramba! Com as sacolas na mão, volte para o prédio. Eu subo as escadas lentamente, meus pensamentos ficando mais pesados, mais confusos. Quando chego à porta de Helena, paro. Eu não sei por que eu faço isso, eu apenas fico lá, olhando para a porta dela, como se esperando por ela para me dar uma resposta para algo que eu nem sei como formular. O tempo passa, talvez minutos, talvez segundos. Não importa. Finalmente, eu bato na porta e quando ela a abre, eu seguro o café da manhã abruptamente, sem olhar nos olhos dela. — Obrigado pela sobremesa de ontem à noite —solto uma só vez, as palavras saem mais rápido do que eu tinha planejado. Antes que eu tenha a chance de responder, eu ligo meus calcanhares e abro a porta do meu apartamento. Eu bato dentro e fora da minha porta, sentindo uma pressão no meu peito que não estava lá antes. Não sei porque o fiz, não sei porque trouxe o café. Eu encosto minhas costas contra a porta fechada e m*l-humorado, frustrado. Meu peito está apertado, como se algo estivesse errado, algo fora do lugar, eu toco minha mão como se isso pudesse me ajudar a me aliviar. O peso em minha mente é insuportável, como se tudo o que fiz com Helena me complicasse ainda mais as coisas. O pior é que não quero que ela pare, por mais complexa que seja, quero que ela continue entrando na minha vida, arruinando-a com sua presença amorosa. Um choque com ela e eu fiquei tentada, mas tudo piorou ao tentar seus preparativos, anos sem saber o que era comer algo doce sem sentir que ela estava morrendo e ela veio com sua sobremesa estúpida e me fodeu. E é aí que percebo que a amo, caramba, quero que ela continue rasgando minha rotina, tudo o que sou e pensei que sabia. Eu não entendo. Eu não a entendo, e eu não me entendo. A única coisa de que tenho a certeza é que isto não vai acabar bem.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD