"A verdade começou a vir à luz, eliminando qualquer ilusão, como se estivesse a combater uma infecção que tinha estado escondida durante demasiado tempo."
Helena.
Acabo de arrumar os poucos pertences que Bruno me trouxe. Eu dei a chave do meu apartamento para que ele pudesse ir me buscar algo, quando eles me informaram que eu seria hospitalizada por mais tempo do que o esperado. Então, sim, meu vizinho vasculhou minha gaveta de roupas íntimas.
Terra, abra-se e me engula!
Quando eu terminar, eu abro a porta para o quarto e o vejo sentado nas cadeiras do outro lado. Ele se levanta assim que me vê, pega a bolsa da minha mão e depois estende o braço para me guiar até a saída.
— Vou fazer umas sobremesas —quebro o silêncio.
— Ok.
Os cantos da boca dele sobem ligeiramente. Estou aprendendo a conhecer seus gestos e reconheço isso como um sinal de emoção. Assim que chego em casa, vou investigar o Autismo. Eu quero saber qual é a maneira correta de interagir com uma pessoa que tem isso.
Paramos na estação de enfermeiras, e o médico que trouxe meu casaco se aproxima com alguns papéis na mão.
— Aqui tem a alta assinada, além da incapacidade e recomendações do obstetra.
— Muito obrigado.
— Tome cuidado, Helena.
Bruno também tira os documentos da minha mão e os mantém em sua jaqueta. Não posso carregar nada? Saímos completamente do hospital e ele me levou até seu carro. Abre a porta para eu me sentar, pega as minhas coisas. Espero que ele aperte minha mão, mas em vez disso, ele agarra meus quadris e me levanta.
— EI! — Eu reclamo.
— Dessa forma, você não vai se machucar.
—Sentar não me mata —resmungando.
— Nunca se sabe —responde.
Não digo mais nada. Ele já tem o suficiente com tudo o que está fazendo, para eu ser ingrata. Em silêncio, dirije até o nosso prédio de apartamentos. Repita o mesmo processo e desta vez eu não estou reclamando, tanto quanto eu quero.
— Obrigado por me trazer — digo uma vez que estamos à porta da minha casa.
— Abrir —indicar, apontando para a porta.
Eu reviro os olhos, mesmo que ele não perceba, e obedeça a sua ordem. Ele me leva para dentro, e até leva minha bolsa para o meu quarto. Ao voltar, ele vai para a cozinha e me olha para segui-lo. Eu puxo a cadeira para me sentar, mas novamente ele me leva pelos quadris e me levanta.
Agora, quão exasperante pode ser. No entanto, no fundo, eu considero um gesto doce.
— Vou ao supermercado e trago o necessário para a sua dieta. Quando eu voltar, enviarei o atestado para a empresa para a qual você trabalha. O plano é simples: Vou trazer café da manhã, almoço, lanche e jantar, e não aceito reclamações.
— Mas...
— Vou levá-la para a cama, a sua pausa começa agora —interrompa a minha objeção.
— Bruno...
Ignore a minha chamada. Ele simplesmente me levanta da cadeira e me leva para o meu quarto, onde ele gentilmente me deposita na cama. Espera que me deite para me meter. Satisfeito com seu trabalho, ele me dá um pequeno sorriso que faz meu coração bater mais rápido.
Ele é tão bonito.
— Volto em uma hora.
Ele não espera por uma resposta antes de sair. Suspiro. Ficar quieto não será fácil, mas é necessário se eu quiser que meu bebê cresça saudável. Olho para a minha barriga que, de uma forma incrível, começa a aparecer. O obstetra disse que era normal, embora, para a ciência, seja um mistério. É como se o simples fato de saber de sua existência lhe desse permissão para se manifestar. Com algum medo, eu acaricio a pele protuberante e ela responde ao meu toque com uma ligeira vibração. O som do meu celular me tira do momento. Eu me inclino para pegá-lo da mesa de cabeceira e ver que é uma mensagem recebida de Leonardo.
— Vou enviar o convite por correio. Por favor, não perca.
A festa terá lugar amanhã e não me é permitido mudar tanto, mas como ele diz, esta é uma questão que deve ser tratada pessoalmente e não a quero no meu apartamento. Não parece certo tê-lo neste espaço.
— Não vou perder.
Recebo o convite e, ao revisá-lo, percebo que o código de vestimenta é formal. Eu mentalmente revejo meu guarda-roupa e me lembro de um longo vestido verde que comprei impulsivamente, mas nunca tive a chance de usar, até agora. No entanto, mesmo que eu tenha o convite e o vestido, a parte mais difícil do plano será escapar da vigilância de Bruno. Porque se tenho a certeza de alguma coisa, é que ele não me deixa ir se eu lhe disser.
A porta da frente é ouvida, anunciando seu retorno. Ouço-o a mexer-se na cozinha e, meia hora depois, o aroma do caldo de galinha enche o ar.
— Fiz caldo de galinha... Espero que goste —diz ao entrar — Uma senhora no supermercado me deu a receita; ele disse que era anti-náusea, então você não deve jogá-lo para fora. Espero que tenha razão, ou vou procurá-la processar por me ter mentido —balbuciar.
Eu olho atentamente para ele e, embora eu não veja vermelhidão em suas bochechas, eu noto que suas orelhas estão ligeiramente coradas. Como pode ser tão grande, sério, m*l-humorado e doce ao mesmo tempo?
— Obrigado, tenho a certeza de que vou gostar.
— Bom.
Seus ombros apertam quando eu coloco a primeira colher de sopa na minha boca, mas eles relaxam quando me veem acenar com a cabeça e sorrir. Espere pacientemente para todo o caldo terminar, em seguida, retire a placa e volte.
— Precisa de mais alguma coisa? — Pergunta.
— Não, estou bem.
— Ok, eu vou jantar.
E com isso ele sai. Eu pego meu celular novamente e desta vez eu abro o navegador para investigar o Autismo. Quanto mais leio, mais compreendo o Bruno. No entanto, o cansaço me supera e eu adormeço. Não sei quanto tempo passa, mas lamento acordar. Com os olhos meio fechados, termino o resto da sopa e depois volto para a cama. Eu o percebo deixando um beijo na minha cabeça antes de afundar de volta no sono.