CAPÍTULO 19

1209 Words
— Tenho que sair para uma reunião, vou voltar antes do jantar —informa-me. — Ok. Passei o dia inteiro pensando em como me livrar de Bruno, e a oportunidade se apresentou em uma bandeja de prata. O fato de ele estar saindo me dará algumas horas para me preparar e ir, esperando voltar antes que eu perceba minha ausência. Eu saio da cama assim que ouço o som da porta se fechando. Eu ando devagar até o banheiro e tomo um banho. Quando eu saio, eu cuidadosamente coloco maquiagem e deslizo o vestido sobre o meu corpo. Me convém, mas acentua minha barriga. Eu saio de casa às cinco horas e pego um táxi, prefiro não exigir demais. Na chegada, mostro meu convite na entrada e eles me permitem passar. Olho à volta, à procura do Leonardo, mas não consigo encontrá-lo, mas vejo a Joyce a aproximar-se com a boca aberta. — Como isso aconteceu? — Diz apontando para a minha barriga. Eu dou de ombros, sem saber o que responder. — É de Leonardo? — Pergunta. Espere um minuto... Como você sabe sobre nós? — Por que eu teria um bebê de Leonardo? — Eu finjo. — Isto é mau, péssimo. Devia ir, Helena. Se ela te ver, haverá um grande problema. — Se me ver, quem? — Sinto muito, não queria, mas ela obrigou-me a mantê-la atualizada em tudo. Não pensei que o teu chefe fosse tão longe. Oh, não, isto é errado, péssimo —balbucia sem parar. Então, ela olha para alguém atrás de mim, fica pálido e dá um passo para trás antes de desaparecer. Eu me viro procurando a pessoa que a assustou, mas não vejo ninguém. Eu ando pela sala a tentar localizar o Leonardo, mas ele ainda não aparece. Eu envio mais de dez mensagens, todas sem resposta. As horas passam e a minha frustração cresce. Os convidados se acomodam em suas mesas para o jantar, no entanto, eu continuo esperando pelo pai do meu bebê. Não tenho fome, só quero falar com ele e ir para casa. — Atenção, senhoras e senhores —anuncia o anfitrião — Com você, o CEO, Leonardo Salvatore. Os participantes aplaudem quando o veem subir ao palco. Leonardo sorri, como o trapaceiro que ele é, e começa a falar sobre o sucesso da empresa e os novos negócios fechados. Continuo de pé, à espera que ele me veja e que possamos falar. De repente, a mulher de força de vontade que nos visitou nos últimos meses sobe ao palco. Ela coloca a mão no peito de Leonardo e remove o microfone. O que se passa? — Boa noite —diz — Me chamo Viviane Salvatore, para quem não sabe, sou a mulher do Leonardo. Minha boca se abre, mas não consigo articular uma palavra. — Esta noite celebramos não só o sucesso do meu marido, mas também as suas traições. Acontece que meu marido olhou para fora para o que ele já tinha em casa; na verdade, sua amante está aqui conosco. Certo, Helena Veiga? Estou de pé no meio da sala, cercado por rostos que se voltam para mim, com os olhos cheios de julgamento e desprezo. A música suave que encheu o ar há um momento cessou, deixando um silêncio que parece um golpe no estômago. Viviane Salvatore, com seu vestido de designer impecável e olhar gelado, dá um passo à frente, sua voz ecoando com uma calma cortante que exala veneno. — Então, esta é a mulher que decidiu dormir com o meu marido —diz, cada palavra um chicote que me marca na frente de todos. Risos e murmúrios sufocados crescem ao meu redor. Meu coração está batendo forte e, por um momento, quero que o chão se abra sob meus pés e me engula inteiro. Mas isso não acontece. Estou aqui, preso neste inferno que nunca imaginei viver. — Uma simples funcionária que pensou que poderia ascender na vida no caminho rápido —continua Viviane, lentamente, a virar-se à minha volta, como um predador a perseguir a sua presa — E, além disso, você tem a audácia de engravidar. Que típico! Minhas mãos tremem e eu me agarro às dobras da minha saia, procurando em vão por uma âncora nesta tempestade. Quero falar, defender-me, dizer que tudo isto não é como ela pinta, que acabei grávida do Leonardo sem querer, naquela noite com ele, sem saber o que isto implicaria. Mas minha voz está presa em minha garganta, sufocada pelo peso de seu desprezo e de todos os presentes. Viviane para na minha frente, seu olhar perfurando o meu. Eu sinto o calor das lágrimas ameaçando fluir, mas eu me recuso a ceder, recuso-me a dar-lhe essa satisfação. — Minha querida, você é apenas um erro. Um capricho passageiro de um homem que, no final, sempre volta para casa. — Suas palavras caem como uma sentença final, selando meu destino neste círculo de olhares cruéis. A sala explode em risos, alguns discretos, outros descaradamente zombando. Olho para Leonardo, olhando nos olhos dele para dizer algo, qualquer coisa que me salve desta humilhação. Mas ele está lá, imóvel, com os lábios apertados e o olhar perdido no chão. Não se mexe, não diz nada. O homem que parecia perfeito agora é apenas uma sombra do que eu pensava que ele era. E eu.. Estou sozinha. Eu saio daquele lugar tão rápido quanto minhas pernas fracas me permitem. O riso e os murmúrios cruéis continuam a soar em meus ouvidos, por que isso aconteceu comigo? Quando penso que estou longe o suficiente, tiro o meu telefone da mala e ligo para Bruno. — Venha me pegar, por favor — eu imploro entre soluços. — Vou demorar um tempo, Helena —promete que vem com uma voz firme. Eu fico, confiando que virá. Eu não lhe disse onde eu estava, mas ele assegurou que viria, e eu acredito nele. Apenas cinco minutos depois, eu vejo as luzes em seu carro. Eu enxugo minhas lágrimas rapidamente e me levanto do banco para atravessar a rua e encontrá-lo. Tudo acontece em um piscar de olhos: primeiro o som penetrante dos pneus acelerando contra o asfalto, seguido pelo grito desesperado de Bruno, me implorando para sair do caminho. Eu vejo o medo refletido em seus olhos, e então eu o sinto: o impacto do carro contra minhas pernas, o ar empurrando meu corpo para cima, o golpe seco ao cair e o zumbido constante em meus ouvidos. Mas não há dor, nem sofrimento. Apenas uma paz profunda que me rodeia, a mesma paz que eu tanto ansiei. Será este o fim? Eu ouço a voz frenética de Bruno, abro meus olhos e o vejo, desesperado, falando e me pedindo algo, mas não consigo distinguir suas palavras. Eu tento sorrir, embora eu quase não consiga. O Bruno foi melhor coisa que me aconteceu desde a morte do Kevin, e vou sentir a sua falta. Meu olhar se move atrás dele, e lá o vejo: a figura do meu irmão mais novo, sorrindo docemente para mim. Ele estende a mão, convidando-me a segui-lo. Chegou a hora; finalmente nos encontraremos. Meus olhos se fecham e o tempo parece parar. Tudo desaparece na densa escuridão, e não há mais nada.
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