CAPITULO 01 🎤
Candy Martinez
Cidade do México, 14/04/ 2020 - 01h50 a.m
Era final de mais um show, dessa vez na Cidade do Mexico, onde eu nasci e moro até hoje. Do público eu podia ouvir gritarem o meu nome e pedir para que eu cantasse mais uma música. Ainda em cima do palco eu sorria e acenava para todos que ali estavam em forma de agradecimento mas eu não poderia ficar ali, tinha que voltar para casa.
— Muito obrigada pelo carinho de sempre mas infelizmente preciso ir embora. Prometo que voltarei a fazer show aqui em breve
Joguei beijos para o ar e corri para o meu camarim para tirar aquela roupa do show e tirar a maquiagem, olhei para o relógio e vi que já eram 1h12 da madrugada, eu estava ferrada.
— Amanhã a tarde você tem sessão de fotos e entrevista para a entrevista Quién, não se esqueça disso, Candy – Disse Uriel, meu produtor
— Amanhã? Não tem como, eu preciso ficar com a minha filha
— Eu te perguntei semana passada se você toparia e você topou, não tem como voltar atrás
Droga! Agora me lembrei de que realmente ele havia falado comigo, foi em um momento em que eu estava em casa com minha família, estávamos no telefone e eu precisava desligar, topei sem prestar muita atenção
— Está bem – suspirei – Amanhã estarei lá
— Sem atrasos
— Ok, eu vou indo porque já está muito tarde
— Eu te levo
— Não precisa Uriel, está tarde e você precisa ir descansar também
— Você mora há 2 quadras da minha casa, então é caminho, eu te levo!
Isso talvez não fosse uma boa idéia, mas talvez também não fosse uma boa idéia eu ficar tentando achar uma motorista de Uber a essa hora da madrugada. Sim, era preciso que fosse mulher.
Peguei minhas coisas e fomos até o carro, um Honda City Cinza. Na parte de fora do local do show tinham alguns fãs a minha espera e eu não poderia simplesmente sair dali fingindo que não estava vendo eles pois o carro estava próximo. Dei alguns autógrafos e tirei fotos o mais rápido que pude.
A volta para casa foi rápida e tranquila, conversamos sobre algumas coisas e alinhamos alguns trabalhos futuros, Uriel além de produtor é meu amigo há alguns anos
— Esteja amanhã as 15h no estúdio, não esqueça
— Já disse que não vou esquecer – Disse saindo do carro e batendo a porta – até amanhã
Ainda do lado de fora vi pelas janelas que todas as luzes estavam apagadas, estava somente acesa a do quarto, Bernardo esperava por mim, como sempre. Fechei os olhos, respirei fundo e entrei já imaginando pelo que me aguardava
— Finalmente chegou – Disse Bernardo, descendo as escadas
— É, o show acabou demorando um pouco mais
— Mais 40 min? Que show que atrasa tanto assim?
— Tiveram alguns problemas no palco e por isso atrasou
Eu subi as escadas, indo em direção ao quarto para deixar a minha bolsa. Ele, claro, veio logo atrás de mim
— E quem foi que te trouxe? O tal do Uriel?
— Sim, ele me deu carona e...
— Sabe que eu não gosto de ver você andando de carro e conversando com homem, não é?
— Ele é gay, Bernardo
— Não interessa, eu não quero ver você mais andando de carro sozinha com ele, está me entendendo?
Eu estava de costas para ele, tentando ao menos naquele momento não prestar atenção no que ele dizia, então ele me puxou para que me virasse e olhasse em seus olhos e segurou meu pulso com brutalidade
— Olhe para mim enquanto eu estiver falando com você – Disse sério
— Eu estou ouvindo tudo o que você está falando, só quero me arrumar para dormir, por favor solta o meu pulso – Disse em súplica
— Está doendo? Mas eu nem estou fazendo força! Você é tão fraca assim, Candy?
— Por favor, solta
Tentei me soltar mas minha força não era o suficiente, enquanto eu me contorsia para tentar me livrar, ele permanecia sério, me olhando
— Eu vou soltar só porque estou cansado demais para brigar com você hoje mas saiba que estou de olhos bem abertos com você, Candy!
— Vou ver como está Ana Clara– Sai do quarto e encostei a porta
Ana Clara é minha filha com o Bernardo, tem 1 ano e 2 meses. Com cabelos castanhos escuros e lisos, olhos cor de mel e o narizinho batatinha eu poderia dizer que ela era a minha cópia perfeita
O quarto de Ana Clara é na frente do meu e é o melhor lugar da casa para mim, pois é ali que eu gosto de ficar quando quero ter paz e poder chorar. Aquele quarto e a companhia dela são como terapia para mim e posso dizer que se até hoje eu não desisti de tudo por causa dela
Ana Clara dormia feito um anjo, de barriguinha virada para baixo, com o seu pijama da Masha e o Urso, desenho que ela tanto ama
— Eu te amo meu amor - Passei as mãos em sua testinha e depositei ali um beijo
Ao ver ela se mexer eu saí do quarto pois se ela acordasse tenho certeza de que Bernardo não iria gostar nada.
Voltei para o quarto, Bernardo colocava algumas roupas dentro de uma mala. Sem falar nada, me troquei rapidamente e me deitei
— Amanhã eu vou viajar a trabalho, tenho um clipe para produzir
— Ok – Somente respondi sem dar atenção para ele
— E você tem fotos e entrevista que eu sei, não se esqueça de deixar claro na entrevista o quanto me ama e somos felizes no nosso relacionamento. Ah, e diga também que sou um grande pai
— Uhum.... – Ajeitei o colchoado sobre mim
— E nada de fotos sensuais, somente vestidos abaixo do joelho
— Tá...
Ao se deitar, Bernardo apagou a luz e veio me abraçando de conchinha e eu não podia reclamar disso, eu não tinha direito de reclamar de nada que ele fizesse, e se reclamasse com certeza eu me daria bem m*l.
Eu tentava dormir mas a minha própria mente me traía pensando em um passado que não volta mais e em como minha vida havia mudado drasticamente.
Eu pensava também em meus pais, que moram nos EUA e não vejo desde que Ana Clara nasceu, as vezes ligo rapidamente para eles sem que meu marido saiba mas não é o suficiente para matar as saudades que sentimos, por vezes ouço eles chorarem no telefone, minha mãe dizendo o quanto me ama e sente minha falta e meu pai me pedindo desculpas por ter feito o que fez comigo...
O que ele fez? Bom...Meu pai era viciado em jogos, um certo dia fez uma divida tão grande e por desespero acabou pedindo empréstimo a um agiota.
O agiota é o Bernardo mas claro que ninguém sabe, todos acham que ele é um produtor bem sucedido.
Como o meu pai fez para pagar a dívida com ele? Não pagou pois não tinha dinheiro, então meu querido marido que era doente por mim disse que se eu me casasse com ele a divida seria sanada, caso contrário meu pai seria morto. Eu não tive escolha
O celular de Bernardo tocou as 03h30 da madrugada, eu ainda estava acordada mas fingi dormir para ouvir o que ele estava conversando
“ — Pode deixar, amanhã sem falta a gente se vê... Vou ficar o dia todinho ai em Monterrey...Ok...Até amanhã....Beijos...Eu também “
Não sei com quem ele falava, mas ele fazia uma voz tão doce e calma que qualquer um acreditava que ele era dessa forma.