(Um túnel de serviço de metrô abandonado, perto do Danúbio. Meia-noite.)
«Sebastian Narrando »
O cheiro de ** de cimento e esgoto era melhor do que o cheiro de fumaça de pólvora do Labirinto. Eu estava mancando um pouco,
Eu lavei o rosto na água fria do metrô abandonado, sentindo o sal e a sujeira escorrendo. Minha mão tremeu por um segundo, e não foi por causa do frio de Budapeste que entrava nos ossos. Eu tinha visto a Executora nos olhos cinzentos dela. O medo, a raiva e, acima de tudo, a mágoa. Aquele olhar de total destruição, a dor de ser traída pela única pessoa que a tinha tirado da escuridão. Isso doeu mais do que qualquer bala que ela poderia ter atirado.
Eu ouvi as palavras dela ecoando na sala úmida, bem claras, mesmo que ditas há minutos atrás, no meio da bagunça do Labirinto:
~“Você vai fugir e eu vou te caçar até o fim do mundo!” ~ (as palavras da Íris)
Eu sorri, um sorriso cansado e sem graça. Sim. Esse era o plano. O plano que me custou a paz, a família e, talvez, a vida. Eu tinha dado pra ela exatamente o que ela precisava: um alvo claro, uma raiva que motivava e uma pista pra próxima armadilha.
O Capo Corleone, o pai dela, foi bem claro naquela reunião à noite na biblioteca siciliana dele, meses antes de tudo desabar:
“Sebastian, a Máfia Corleone está morrendo. Precisa do Fogo dela. Precisa da minha neta como motor. Você vai ser o Isco. Você vai fazer ela te caçar. Você vai provar para ela que ainda é a Executora, ou nosso nome será pó.”
O velho estava certo. A nossa fuga para Miami não a tinha salvo; tinha-lhe dado um interlúdio. Ela tinha-se tornado apenas “Íris”, uma mãe devota. Mas a Máfia Corleone não podia sobreviver com uma mãe que "comum" no Trono. Precisava da Executora. E o Capo sabia que só a traição e a dor pessoal de perder Alice a fariam abraçar novamente o monstro que a protegia.
Meu papel era o mais c***l de todos: planejar minha própria traição, orquestrar a minha morte aparente, usar minha filha,Alice, como a chave do labirinto. E o pior: forçar a mulher que eu amo a voltar pro inferno de onde eu tinha tirado ela. Eu me lembro da nossa última noite em Miami, o cheiro de sal na pele, a promessa de uma vida normal. Foi tudo uma mentira bem pensada, um teatro armado por um homem morrendo que queria garantir que o império dele continuasse, mesmo que isso custasse a alma da filha. Se a Íris soubesse a verdade que o sequestro da Alice foi o presente de aniversário final do pai pra transformar ela na Rainha Implacável ela nunca me perdoaria. Mas a dor da traição é um escudo mais forte do que a verdade.
Eu tinha que ser o traidor, pra que ela pudesse ser a salvadora. Eu tinha que ser o Isco, pra que ela pudesse ser a Executora.
Abri um celular descartável, um modelo antigo, analógico e à prova de EMP, exatamente o que se espera de um agente secreto. Meu contato no Leste, um ex-agente do FSB que eu conhecia dos meus dias de consultoria em segurança, tinha me alertado. A informação era fria e fatal: minha fuga no Labirinto de Budapeste não era para me salvar; era para eu ser silenciado de uma vez por todas. Os dois homens táticos que entraram no Labirinto, profissionais e sem insígnias, não foram enviados pela minha esposa para me capturar; eles foram enviados por Ela.
Ela. A Mente Mestra.
A pessoa que todos pensavam que tinha morrido num acidente era, na verdade, a força por trás de tudo, A Pessoa Que Sabe Mais, por trás de todo este caos. Ela matou o Capo. Ela usou a criança. O objetivo dela não era só o poder; era o controle total sobre Íris. O Trono vazio era apenas uma armadilha para ela voltar.
Eu não era o traidor de Íris. Eu era o aliado dela no campo inimigo.
Meu próximo movimento era essencial, e tinha de ser executado com a precisão de um cirurgião. Eu dei a ela o pen drive do Código Arsênico. Isso não foi um erro; foi o meu único trunfo. O Código não é apenas uma lista de bens. É o diário de guerra do Capo, detalhando os pontos fracos nucleares e financeiros dos Barões do Crime russos do Leste. Era a única carta na manga que impediu a invasão russa da Sicília por décadas. O Capo usou-o como um freio de emergência.
Se A Mente Mestra o pegasse, ela teria domínio total do Leste, controlaria os ativos russos e, mais importante, obteria a alavancagem para transformar a Sicília numa base de operações internacional sem oposição. A minha morte, e a de Alice, seria certa. O mundo de Íris desmoronaria. Eu tinha de garantir que ela o obtivesse, porque a Executora é a única pessoa que pode usá-lo sem ser consumida por ele.
Eu tinha que chegar a Odessa antes de Íris. Não para impedir ela, mas para ter certeza de que o caminho estava limpo. Os mercenários da Mente Mestra não são do clã. Eles são profissionais bem treinados, com fundos ilimitados. Eles vão tentar interceptar Íris. Eles vão tentar destruir o Código. A minha missão não é protegê-lo, mas sim abrir a porta para que Íris chegue até ele. Eu sou o desvio. Eu sou o sacrifício tático.
Lembrei das minhas palavras: ~ “Eu sou o seu marido, Íris. A única pessoa em quem seu pai confiaria.”~
Esta era minha única verdade. Meu amor por ela era meu fardo e minha arma. Eu tinha que sobreviver à caçada dela, sobreviver aos assassinos dA Mente Mestra, e garantir que a Executora chegasse ao ponto final. Só ela, com a frieza dela, poderia derrotar A Pessoa Que Sabe Mais. Eu era o sacrifício; ela era a salvação. O meu papel era o de um mártir vivo, forçado a suportar a sua raiva e a sua caçada para o bem maior. A dor da perda era o preço da liberdade dela.
Digitei a mensagem final e secreta para meu contato no Leste: “Chego em Odessa em 48 horas. Preciso de um desvio de segurança no porto. Ela vai atrás do Código. Eu vou atrás da Sombra.”
A Sombra. (Serafiny.)
Eu suspeitava dela antes de Íris ter sequer chegado à Sicília, mas agora eu tinha certeza. O Capo tinha nomeado ela a sua sombra, a sua agente mais leal e sombria. Mas a lealdade dela era mais profunda e mais antiga que a nossa. Ela nunca saiu da Sicília. Ela nunca teve uma vida "normal". Ela viveu e respirou o jogo Corleone.
Ela está a guiar Íris para o abate, sob a ilusão de resgate.
Eu sei que Serafiny vai tentar m***r-me em Odessa. Não importa se eu sou um isco ou um aliado; o meu conhecimento é demasiado perigoso. Se eu puder chegar ao porto, desviar a atenção dos mercenários da Mente Mestra
Peguei minha mochila, liguei a lanterna e mergulhei mais fundo nos túneis de serviço, o som distante do metro a servir como a minha única companhia. O meu corpo estava exausto, a minha mente a arder com adrenalina e arrependimento. Tinha de manter-me vivo, não pelo meu próprio bem, mas para garantir que Íris chegasse ao final.
O jogo do Isco Vivo tinha acabado de começar.