Capítulo 07

2138 Words
        Jin Ling chegou ao Recanto das Nuvens furioso, o ômega já tinha lágrimas de raiva nos olhos e sequer cumprimentou direito os discípulos que haviam permitido sua entrada, passou direto pelos portões marchando. Ele exalava uma aura sombria, raivosa, um sinal claro de que ninguém se aproximasse já que tamanho era seu ódio, Jin Ling estava ali atrás de alguém, atrás de alguém bem específico.          – A-Ling? – A voz preocupada do alfa encheu seus ouvidos o travando. Lentamente ele se virou olhando nos olhos cinza do Lan que se aproximava. – O que aconteceu? Você não parece…          Um tapa.          – Isso é por todos os cultivadores mortos da seita Jin! – Outro tapa. – Isso é por mim! Outro tapa.          – Pelo meu pai! – Outro tapa. – Pela minha mãe! Outro tapa.          – Pela vergonha da seita Jiang! – Outro tapa. – Pela vida dos meus avós!          O último tapa foi dado.          – E isso é pelo meu tio Jiang Cheng!          O rosto de Sizhui estava vermelho e ardido, com a marca perfeita dos cinco dedos de Jin Ling em cada face, cada bofetada havia sido desferida com tamanha raiva e tamanho rancor que mesmo o alfa sabendo da tristeza no coração do mais novo, não tinha ideia que eram sentimentos que ocupavam tamanho lugar em sua alma.          – Mão pesada… − Reclamou passando as mãos pelo rosto tentando amenizar a dor. – Vamos conversar…          – Não tenho mais nada pra conversar com você! Nunca mais quero te ver na minha frente! – O rosto de Jin Ling estava vermelho e banhado em lágrimas grossas, os lábios e o nariz estavam inchados por conta do choro recente, sem mais esperar virou as costas para ir embora.          – Espera! Vamos conversar! – Segurou os pulsos do mais novo o impedindo de continuar a sua trajetória.          – Me solte! Lan Sizhui! Agora!         Gritou tentando puxar os braços o que só resultou num aperto mais forte por parte do alfa, sem esperar mais nada puxou o menor para um abraço, de início ele tentou se soltar, lutar, brigar, mas aos poucos acabou se rendendo ao aconchego quentinho e protetor que Yuan lhe oferecia, não demorou muito para que Sizhui sentisse a curvatura do seu pescoço e seu ombro molhado com as lágrimas do ômega.         Lentamente passou as mãos pelas costas de Jin Ling tentando de alguma forma confortá-lo, ele não podia dizer que compreendia a dor que o mais novo sentia, sabia que era adotado, sabia que todos da sua seita haviam morrido inclusive seus pais, mas todo seu conhecimento se baseava no que o contaram, ele não tinha lembranças, não sabia os nomes dos seus genitores, não sabia como eram seus rostos, não sabia de absolutamente nada que viesse descobrir de qual linhagem da seita Wen ele pertencia.         – Lan Sizhui. Jin Rulan. Posso saber o que está acontecendo aqui? – A voz severa de Lan Wangji surgiu atrás do filho o assustando.         – Meu pai. – Rapidamente Sizhui se soltou de Jin Ling reverenciando o cultivador mais velho. – Não é nada demais, não precisa se preocupar.         Os olhos dourados do Hanguang-Jun viajaram do ômega que estava incapacitado de ter qualquer reação até o rosto repleto de tapas do alfa, mas seu olhar focou especificamente no pequeno machucado no canto da boca, um machucado bem recente, algo como feito há cinco minutos.         – Está machucado, como não devo me preocupar? – Ele falava com o filho, mas seus olhos estavam cravados no ômega que estava estagnado no lugar sem conseguir sequer se mexer de tanto medo que sentia do lúpus. – Agrediu não só um discípulo da seita Lan, mas o meu filho, gritou, causou baderna e perturbou a paz, por favor, me acompanhe para receber a sua punição.         – Pai não, por favor. Não é necessário. – Em um movimento rápido o júnior se colocou em frente ao corpo pequeno de Jin Ling tentando protegê-lo. – Não é nada demais, é apenas uma DR.         – DR? Fale direito, eu não entendo essas suas gírias de adolescentes.         – Discussão de Relacionamento! É uma briga de casal boba, papai não se preocupe. A-Ling soube de umas coisas e veio tirar satisfação comigo. – Os olhos do alfa cintilaram.         – Ousa duvidar da honra do meu filho? Ou da minha criação? – A voz gélida e o rosto sem expressão eram o suficiente para o ômega sentir suas pernas virarem gelatina, ele sentia que estava perto de ter um colapso nervoso ali mesmo.         – Eu… Eu…         – Pai está o assustando.         – Vamos, aplicarei sua posição.         – Não! – A voz grossa de Sizhui assustou Lan Wangji, seu filho nunca o havia enfrentado na vida. – É apenas uma discussão de casal boba, se fosse o contrário o senhor deixaria o tio punir o mamã por algo que dizem respeito apenas aos dois?         O lúpus ficou calado, contra fatos não há argumentos, ele jamais deixaria seu Wei Ying ser punido por qualquer coisa que fosse.         – Quero quinze cópias das regras com parada de mãos da punição do Jin Ling + trinta cópias pelo desrespeito. – Na verdade, ele próprio se puniria no lugar de Wei Ying.         Assim que o alfa saiu as pernas de Jin Ling cederam e ele teve que ser amparado pelo namorado que o ajudou a se sentar, ambos soltaram o ar que nem perceberam que prendia nos pulmões, seu sogro era a pessoa mais assustadora que o jovem ômega havia posto os olhos na sua vida.         – A-Ling. – A voz do namorado o chamou de volta para a realidade, por um breve momento havia esquecido o motivo de ter ido até ali, a raiva instantaneamente inflou novamente em seu coração.         – Quieto! Eu não quero saber!         – Eu não sou culpado pelos pecados do meu mamã. – Falou sério obrigando o menor a olhá-lo.         – Não é culpado, mas se oferece para pagar as punições dele, não é?!         – Eu também vou pagar pelo o que fez agora!         – Eu não tenho sangue em minhas mãos! – As lágrimas desceram novamente com força. – O seu mamã acabou com a minha família! Por causa dele eu cresci órfão! Por causa dele o meu tio deixou de viver a juventude dele para me criar! E mesmo você sabendo de tudo isso… ainda desfila por aí com ele como se fosse a melhor pessoa desse mundo!         Sizhui se levantou sério ficando da mesma altura namorado que no momento já estava de pé.         – Eu tenho uma dívida eterna com ele. – Talvez a convivência com Lan Zhan fizesse com que o jovem inconscientemente o imitasse, porque por mais amável e carinhoso que ele fosse, havia momentos em que ele assumia uma face tão sem expressão e um tom de voz tão gélido que qualquer um poderia dizer que o sangue do Hanguang-Jun corria nas veias do rapaz. – Eu sou um Wen, Jin Ling.         O seu nome saindo dos lábios do amado em uma voz tão gelada o assustou, logo ele que sempre o chamava de A-Ling e com uma voz carinhosa, instantaneamente se arrependeu daquela viagem, depois de hoje não tinha tanta certeza se poderia continuar ostentando o Terceiro Jade de GusuLan como namorado.         – Se não fosse pelo meu mamã eu estaria morto assim como todo meu povo. Eu não acho que preciso lembrar que foi a sua família que nos manteve presos e escravizados no Caminho Qiongqi, até porque até hoje eles se gabam disso. Você se gaba pela grande “proeza” da sua seita. Se Wei Wuxian não tivesse me resgatado, eu não teria durado muito tempo, eu estaria até hoje apodrecendo numa vala comum por que vocês da seita Jin sequer tiveram o cuidado de enterrar os mortos com respeito. “Todos os remanescentes da seita Wen tinham que ser mortos!”, quantas vezes eu já não ouvi você repetir essa idiotice? Eu mereço ser morto para você Jin Rulan? O meu sangue Wen é r**m demais para alguém como você?         – Não… eu jamais desejaria sua morte, eu te amo! – Chorando ele tentou se aproximar do alfa que se afastou mantendo a mesma expressão gélida magoando ainda mais o coração do ômega. – Até pouco tempo eu sequer sabia que você era um Wen! Pra mim você sempre foi um Lan!         – Eu sou um Wen Jin Ling! Agora você vem aqui, me cobrar pela morte dos seus antepassados, mas o que você faria se eu fosse a sua seita, lhe batesse e exigisse reparação pela morte dos meus pais, dos meus avós, dos meus tios e dos meus primos?! Você diz que meu mamã tem sangue nas mãos da sua família…, mas o seu avô e seu tio tem o sangue da minha! Como acha que deveríamos resolver isso?         – A seita Wen colocou fogo no Recanto das Nuvens, invadiu Qinghe Nie, invadiu o Píer Lótus, matou os meus avós! Quase acabou com o mundo do cultivo! O que mais você quer?! – Falou gritando.         – Isso foi culpa de Wen Ruohan! O que eu e minha família tínhamos a ver com isso?! Minha avó nunca fez nada! Meu tio tampouco! – Sizhui esqueceu completamente as regras e a compostura e devolveu o grito.         – Não foi Wen Ruohan que arrancou o coração do meu pai! Foi o General Fantasma! O mesmo general que era controlado por Wei Wuxian!         – Nada daquilo teria acontecido se seu tio não tivesse armado pra ele!         – Nada disso não teria acontecido se sua mãe não tivesse o amaldiçoado!         – Ele nunca o amaldiçoou!         – Você tem como provar?!         – Você que está fazendo a acusação! – Sizhui deu um suspiro cansado olhando para o ômega com uma expressão determinada. – Vá embora.         Sizhui não tinha o costume de ser descortês, mas aquela conversa já o havia cansado, ele não queria mais discutir com Jin Ling, por isso evitou olhar para os olhos chorosos do namorado que o olhava arrasado sem acreditar no que estava ouvindo, onde estava seu alfa carinhoso e amável que só faltava lamber o chão pra ele passar?         – Como é…? – Perguntou incerto, talvez tivesse escutado errado.         – A viagem foi longa, vou mandar preparar um quarto para que possa passar a noite, mas amanhã cedo eu quero que volte para sua casa. – Jin Ling travou no lugar completamente surpreso, nunca na sua vida inteira chegou a pensar que seu amor poderia o tratar com tanta frieza a ponto de expulsá-lo da sua seita, talvez tivesse exagerado nas acusações.         – A-Yuan… não faz assim. – Se aproximou do jovem enlaçando seu pescoço só para ter seus braços segurados e colocados ao lado do corpo.         – Eu não vou ficar calado vendo alguém ofender minha família… isso inclui você!         – E como ficamos hã?! Vai terminar comigo por causa disso?! – Gritou exasperado, a última coisa que queria era perder seu namorado com essa briga.         – Eu não sei. – Foi sincero, tão sincero que precisou desviar o olhar para não ver as lágrimas escorrendo pelo rosto do ômega egoísta. – Mas não se preocupe, em breve irei a Torre da Carpa para que possamos conversar e em seguida resolver as nossas pendências. – Jin Ling sentiu um gelo como nunca havia sentido na vida.         – Que… que tipo de pendências? – Conseguiu perguntar ignorando o nó que se fazia na sua garganta.         – Eu não irei me casar com alguém que não respeita minha família Jin Ling, e Wei Wuxian faz parte dela. – Soltou um suspiro vendo que o seu, pelo menos ainda, namorado estava travado no lugar o olhando fixamente sem conseguir processar as palavras. – Um servo virá lhe acompanhar até os seus aposentos, como licença.         Fez uma reverência respeitosa e saiu deixando Jin Ling plantado onde estava sem conseguir se mexer e nem falar, sentia medo, amava Lan Yuan com todas suas forças, haviam começado com o pé esquerdo é verdade, mas aos poucos o jeito tímido e amável do alfa foi lhe conquistando. Uma lágrima escorreu ao se lembrar do primeiro beijo que deram, pelos deuses, Sizhui estava tão lindo naquele dia que o ômega não pensou duas vezes antes de tascar um beijo naquela boca, se lembrou de como o alfa mudava da água para o vinho quando ambos estavam sozinhos, a forma que ele lhe pegava e o tocava o enlouquecia, infelizmente nunca haviam conseguido chegar aos finalmentes, mas claro que uma brincadeirinha aqui ou ali já tinha rolado. O Lan era um homem perfeito, um alfa de ouro, a pessoa que o tivesse como marido era um ômega de sorte, e Jin Ling era esse ômega de sorte, e em hipótese nenhuma iria permitir perder o amor da sua vida, ainda mais pra Wei Wuxian.  
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