Um nome que ninguém conhece

593 Words
O corredor da mansão estava silencioso. Brandão permaneceu parado por alguns segundos depois de sair do quarto. A mão ainda estava na maçaneta. O olhar fixo no chão. A cabeça cheia de pensamentos. Quatro anos. Quatro anos desde que Aiu tinha morrido. Quatro anos desde que ele tinha enterrado a única mulher que realmente amou. Depois disso… ele deixou de existir para o mundo. Os funcionários o chamavam de senhor. Os empresários o chamavam de Brandão. Os jornais o chamavam de magnata. Mas ninguém sabia quem ele era de verdade. Porque o nome dele… Ele não dizia para ninguém. — Senhor? A voz do motorista quebrou seus pensamentos. Brandão levantou o olhar. — Sim. — O senhor precisa de alguma coisa? Ele balançou a cabeça. — Não. O homem assentiu e se afastou. Brandão respirou fundo e começou a caminhar pelo corredor. Mas a imagem da mulher naquela cabana não saía da cabeça dele. A forma como ela abraçava o menino. Como protegia o filho da chuva. Como tremia de frio… E principalmente… O rosto dela. Era impossível não ver. Ela era absurdamente parecida com Aiu. Os mesmos cabelos claros. Os mesmos olhos. Até a voz. Ele fechou os olhos por um segundo. — Isso não pode ser coincidência… Enquanto isso… Dentro do quarto… Ailme ainda estava sentada na cama. Observando o filho dormir. Romã parecia tão pequeno naquela cama grande. Ela passou os dedos pelos cabelos dele novamente. Com carinho. — Meu amor… sussurrou. — Acho que Deus ouviu a gente hoje. O menino dormia profundamente. Pela primeira vez em semanas ele não estava tremendo de frio. Nem com fome. Nem com medo. Ailme encostou a cabeça na cabeceira da cama. O cansaço do dia finalmente caiu sobre ela. Mas antes de fechar os olhos… ela olhou ao redor do quarto. Era grande. Lindo. Quente. Uma cama macia. Banheiro enorme. Tudo parecia tão distante da realidade que ela vinha vivendo. Ela apertou a mantinha do filho com mais força. — Amanhã a gente vai embora… sussurrou para si mesma. Mesmo depois das palavras de Brandão. Ela não queria se aproveitar. Nunca foi esse tipo de pessoa. Mas o que ela não sabia… Era que, naquele momento, em outro ponto da mansão… Brandão estava em seu escritório. Sentado atrás da mesa enorme de madeira escura. Um copo de whisky intocado na frente dele. E um pensamento pesado na mente. Ele apertou um botão na mesa. Segundos depois um homem entrou. Era seu braço direito. — Senhor? Brandão levantou os olhos. A expressão fria de sempre tinha voltado. — Quero que você descubra tudo sobre aquela mulher. O homem franziu a testa. — A loira que o senhor trouxe da estrada? — Sim. — Nome. Histórico. Família. Marido. Tudo. O assistente assentiu imediatamente. — Certo. Mas antes de sair, perguntou: — O senhor acha que ela pode ser perigosa? Brandão ficou alguns segundos em silêncio. Pensando no menino tremendo de frio. Pensando nas lágrimas dela. Pensando na semelhança com Aiu. Então respondeu apenas: — Não. A voz saiu baixa. Quase pensativa. — Eu acho que ela é uma mulher quebrada. Ele se levantou da cadeira. Caminhou até a janela do escritório. Observando a chuva que ainda caía sobre a cidade. Mas no fundo… Havia outra pergunta muito mais perigosa na mente dele. Uma pergunta que ele ainda não tinha coragem de fazer. Por que ela é tão parecida com a minha esposa? E pela primeira vez em quatro anos… Brandão sentiu algo que pensava estar morto dentro dele. Curiosidade. E talvez… Algo mais. .
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