O sol da manhã atravessava as enormes janelas da mansão.
Tudo estava silencioso.
Ailme acordou cedo.
Por alguns segundos ela ficou olhando o teto, tentando lembrar onde estava.
Então tudo voltou à mente.
A tempestade.
O carro.
A mansão.
Brandão.
Ela virou o rosto e olhou para o lado.
Romã ainda dormia profundamente, abraçado na mantinha.
O coração dela apertou de amor.
— Bom dia, meu príncipe…
sussurrou.
Minutos depois, ela o pegou no colo.
O menino estava quietinho como sempre.
Magro demais para uma criança da idade dele.
Pequenino.
Três aninhos apenas.
Os cabelos loirinhos iguais aos dela.
E os olhos verdes grandes e assustados.
Ela desceu as escadas devagar com ele no colo.
Romã estava agarrado no pescoço da mãe, observando tudo com curiosidade e receio.
Era tudo grande.
Luxuoso.
Diferente de tudo que ele já tinha visto.
Quando chegaram na sala, ele cochichou baixinho:
— Mamãe…
Ela beijou a testa dele.
— O que foi, meu amor?
Ele olhou ao redor da casa enorme.
— Homem…
Ela entendeu o que ele queria dizer.
— Não, meu amor… está tudo bem.
Mas mesmo assim ele continuou agarrado nela.
Nesse momento uma mulher elegante apareceu no corredor.
Era a governanta da casa.
Ela sorriu educadamente.
— Bom dia, senhora.
Ailme sorriu de volta, um pouco sem graça.
— Bom dia… desculpe incomodar.
Ela apertou o menino contra o corpo.
— Eu só queria saber se poderia me dar um copinho de leite para ele… só para ele beber alguma coisa.
Romã estava olhando para o chão.
Quietinho.
A governanta arregalou levemente os olhos.
— Mas claro que pode.
Depois sorriu novamente.
— Na verdade eu já montei a mesa de café da manhã.
Ela apontou para a sala de jantar.
— O patrão pediu para que a senhora e o pequeno tomassem café com ele.
Ailme piscou surpresa.
— Ele pediu?
— Pediu sim, senhora.
A governanta abriu caminho.
— Por aqui.
Ela respirou fundo e caminhou até a sala de jantar.
Quando entrou, viu Brandão sentado à mesa.
Impecável como sempre.
A governanta se retirou discretamente.
Ele levantou o olhar.
— Bom dia.
Ailme respondeu educadamente.
— Bom dia.
Romã apertou o braço da mãe.
— Mamãe… medo…
Ela acariciou o cabelo dele.
— Está tudo bem, meu amor.
Ela o colocou sentado na cadeirinha ao lado dela.
— Fica aqui pertinho da mamãe.
Brandão observava os dois em silêncio.
Então tentou quebrar o gelo.
— Qual é o seu nome, campeão?
Romã olhou para ele com os olhos grandes.
Assustado.
Demorou alguns segundos para responder.
— Romã…
disse baixinho.
Ailme sorriu sem graça.
— Desculpa… ele sempre foi muito tímido e assustado.
Ela passou a mão nos cabelos do filho.
— Ele se chama Romã.
Brandão deu um pequeno sorriso.
— Não tem problema.
Nesse momento a governanta voltou com um copinho infantil.
Colorido.
— Aqui está o leite dele.
Ela entregou para Ailme.
— Muito obrigada.
Ela colocou o copinho nas mãos do filho.
— Aqui, filho.
Romã olhou para o copo.
Os olhinhos brilharam um pouco.
— Copinho bonito…
Ailme sorriu.
— Que bom que gostou, meu amor.
O menino começou a beber o leite devagar.
Quietinho.
Enquanto isso, Ailme pegou um pão da mesa.
Comeu com calma.
Ainda parecia um pouco nervosa.
Depois de alguns segundos ela falou:
— Senhor… eu não sei como agradecer por tudo isso.
Brandão levantou os olhos.
— Não precisa agradecer.
Mas ela continuou.
— Tem alguma coisa que eu possa fazer aqui na casa?
Ela parecia sincera.
— Eu sei cozinhar… posso ajudar na cozinha… ou limpar alguma coisa.
— Não.
Ele respondeu imediatamente.
Ela ficou surpresa.
— Você está aqui como minha convidada.
Ele apontou levemente para o menino.
— Você e o Romã.
Ela ficou em silêncio por um momento.
Então ele perguntou:
— Qual é o seu nome?
— Ailme.
Ele ficou pensativo por um segundo.
Outra coincidência.
Outro detalhe parecido com Aiu.
Mas ele disfarçou.
Então disse calmamente:
— Meu nome é Eusef.
Ela arregalou levemente os olhos.
Ele continuou:
— Mas esse é um segredo.
— Ninguém aqui sabe meu nome verdadeiro.
Ela sorriu surpresa.
— Então só eu sei?
Ele assentiu.
— Só você.
O olhar dele ficou firme.
— Porque você é minha convidada.
Depois completou:
— E porque você não vai embora daqui.
Ela soltou um pequeno sorriso tímido.
— Está bem… senhor.
Ele levantou a sobrancelha.
— Não precisa me chamar de senhor.
Ela o olhou.
— Como devo chamar?
— Pode me chamar de Brandão.
— Como todo mundo aqui chama.
Ele então completou em um tom mais baixo:
— Mas quando estivermos só nós dois…
O olhar dele encontrou o dela.
— Você pode me chamar pelo meu nome.
Ailme ficou um pouco sem jeito.
Mas sorriu.
— Está bem…
Ela respirou fundo.
— Brandão.
Ele apenas assentiu.
Enquanto isso, Romã terminou o leite e colocou o copinho na mesa.
Depois olhou para Brandão com curiosidade.
Ainda tímido.
Ainda quieto.
Mas pela primeira vez…
Sem tanto medo.
E Brandão percebeu isso imediatamente.