A verdade dela

1058 Words
O quarto estava silencioso. A luz suave do abajur iluminava a cama onde Romã dormia profundamente. Depois do banho quente e da sopa, o cansaço venceu o pequeno corpo. Ele estava enrolado na mantinha, respirando devagar. Ailme estava sentada ao lado dele, passando os dedos com carinho pelos cabelos do filho. O rosto dela estava tranquilo… Mas as lágrimas desciam silenciosas. Uma após a outra. Ela rapidamente as limpava, tentando não fazer barulho para não acordar o menino. Foi então que uma voz grave surgiu na porta. — Ele dormiu? Ela se assustou levemente e levantou o olhar. Brandão estava parado na porta do quarto. Observando. Ailme limpou as lágrimas rapidamente e se levantou da cama. — Senhor… — disse um pouco envergonhada — está tudo ótimo… muito obrigada. Ele entrou no quarto devagar. O olhar passou primeiro pelo menino dormindo… depois voltou para ela. — Está confortável? Ela assentiu. — Muito. Por alguns segundos ele ficou em silêncio. Então fez a pergunta que estava martelando em sua cabeça desde a estrada. — O que você fazia naquela tempestade com o menino? Ailme abaixou os olhos. Os dedos dela se entrelaçaram nervosamente. — Não tem nem como explicar direito, senhor… Brandão caminhou até uma poltrona no quarto e sentou-se calmamente. O olhar firme. Pensativo. — Eu tenho uma pergunta. Ela hesitou… mas acabou sentando na ponta da cama, perto dele. O silêncio tomou conta do quarto por um instante. Então ela falou. — Eu fui expulsa de casa. Brandão franziu levemente a testa. — Seus pais te expulsaram? Ela balançou a cabeça. — Não. A voz saiu mais baixa. — Meu marido. Por um instante o maxilar de Brandão se contraiu. Os dedos dele se fecharam em punho. Mas ele não disse nada. Apenas ouviu. Ailme respirou fundo. — Eu sou casada com ele há quatro anos. Brandão ficou pensativo. Quatro anos. Era exatamente o tempo desde que sua esposa havia morrido. Mas ele não comentou. Ela continuou. — Eu era modelo. Uma modelo muito conhecida… tinha muitos contratos… aparecia em revistas… O olhar dela ficou distante por um momento. Como se lembrasse de outra vida. — Até que um dia apareceu um homem… um desses milionários. Ela sorriu fraco. — Ele disse que se apaixonou por mim… e eu também acabei me apaixonando. Nos casamos. No começo parecia um conto de fadas. Mas a primeira coisa que ele fez foi pedir para eu sair das passarelas. Brandão inclinou levemente a cabeça. — E você aceitou? Ela assentiu. — Aceitei. Porque eu achava que aquilo fazia parte do casamento. Ele era meu marido. Eu quis respeitar. Ela respirou fundo antes de continuar. — Depois de um tempo… ele mudou. O tratamento ficou frio. Grosso. Distante. Mas eu nunca fui uma mulher de discutir. Nunca fui de levantar a voz ou questionar nada. Então eu só… ficava quieta. Ela abaixou o olhar para as próprias mãos. — Eu também perdi meu corpo de modelo… ganhei alguns quilos… Ela soltou um pequeno riso triste. — E claro que isso piorou tudo. Deixei de ser apresentável para ele. Deixei de ser bonita. Deixei de ser suficiente. Brandão observava cada detalhe da expressão dela. Cada palavra. Cada pausa. Ela continuou. — Depois meu filho nasceu. Ela olhou para o pequeno Romã dormindo. O olhar dela ficou cheio de carinho. — Eu achei que talvez isso mudasse alguma coisa. Mas não mudou. Ele continuou trazendo mulheres para casa. Ela engoliu em seco. — Meu filho acabou de fazer três anos. E mesmo no aniversário dele… Ela fechou os olhos por um momento. — Eu estava no quarto com ele… com um bolo simples que eu fiz… E o pai dele estava em outro quarto… com outra mulher. Ela respirou fundo para não chorar. — Nem se deu ao luxo de não fazer barulho. Brandão ficou imóvel. O olhar dele escureceu. Mas ele continuou em silêncio. Ela prosseguiu. — Há cerca de vinte e cinco dias… ele chegou em casa furioso. Disse que tinha levado um golpe. Que tinha perdido milhões. Meu filho estava no tapetinho da sala brincando… e eu estava com ele. Ele entrou gritando. Romã sempre teve medo dos gritos dele. Sempre foi assim… Ela olhou novamente para o menino. — Por isso ele é tão quietinho. Então ela continuou. — Ele descontou toda a raiva em mim. Me machucou. Disse que tinha perdido milhões… e ainda tinha que sustentar a mim e ao próprio filho. Brandão apertou o braço da poltrona. Com força. Mas continuou ouvindo. — Era quase meia-noite… quando ele abriu a porta e mandou a gente embora. Ela limpou as lágrimas. — Não deixou nem eu pegar minhas coisas. Eu só consegui pegar algumas roupas numa mochila… pra mim e outra pro meu filho. E o brinquedinho favorito dele. O olhar dela ficou triste. — Mas na tempestade de hoje… o brinquedo foi levado pela água. Ela respirou fundo. — Eu fui para aquela cabana. Montei o que consegui. Depois comecei a procurar trabalho. Alguns lugares não me aceitavam por causa dele. Mas consegui em um restaurante. Ele ficava escondido no armário da cozinha. Quietinho. Mesmo com fome… ele nunca pedia nada. Ela fechou os olhos por um segundo. — Até que um dia o dono do restaurante viu ele. Disse que não aceitava criança lá. Me demitiu. E não pagou nenhum dia que eu tinha trabalhado. A voz dela quase falhou. — Eu tive que sair do hotel barato onde estávamos ficando… e voltei para a cabana. Ela então levantou os olhos para Brandão. — Hoje veio aquela tempestade. E o senhor apareceu. Ela fez uma pequena reverência com a cabeça. — Eu agradeço muito pela ajuda. Depois respirou fundo. — Amanhã eu vou embora com meu filho. Ela falou com dignidade. — Não quero dar trabalho. Quando eu conseguir algum trabalho… eu compenso pelas roupas e por tudo que o senhor fez por nós. O quarto ficou em silêncio. Brandão não respondeu imediatamente. Ele apenas olhava para ela. Pensando em cada palavra que havia ouvido. Pensando no menino dormindo. Pensando naquela vida destruída. E algo dentro dele… começava a ferver. Não de pena. Mas de raiva. Raiva do homem que tinha feito aquilo com ela. Mas, acima de tudo… Raiva de perceber que não gostava da ideia de ver aquela mulher sair da sua casa.
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