A chuva ainda caía quando o carro finalmente deixou a estrada e entrou por um grande portão de ferro.
Os faróis iluminaram um longo caminho cercado por árvores altas até revelar uma mansão enorme no topo da propriedade.
Mesmo na escuridão da tempestade, era possível ver o tamanho da casa.
Imponente.
Luxuosa.
Quase como um palácio.
Ailme observava tudo pela janela com um misto de surpresa e desconforto.
Ela nunca tinha visto uma casa tão grande.
O pequeno Romã já estava meio adormecido em seus braços, ainda envolvido no terno de Brandão.
O carro parou diante da entrada principal.
As grandes portas da mansão se abriram imediatamente.
Alguns funcionários correram para fora com guarda-chuvas.
Brandão saiu primeiro.
A chuva ainda caía forte sobre os ombros dele, mas ele parecia não se importar.
Ele abriu a porta do carro e estendeu a mão novamente para Ailme.
— Venha.
Ela hesitou por um segundo.
Mas Romã estava pesado nos braços… e ainda frio.
Então ela aceitou a ajuda.
Assim que saiu do carro, um dos funcionários abriu um grande guarda-chuva sobre eles.
Ailme caminhou ao lado de Brandão até dentro da mansão.
Assim que cruzaram a porta, o calor do ambiente envolveu os dois.
Romã se mexeu no colo dela.
— Mamãe…
— Tá tudo bem, meu amor — ela sussurrou.
Os funcionários olhavam discretamente para aquela cena incomum.
O magnata trazendo uma mulher desconhecida e uma criança para dentro da mansão… era algo que nenhum deles jamais tinha visto.
Brandão tirou o casaco molhado e entregou a um dos empregados.
Depois olhou novamente para o menino.
— Chame a governanta — disse ele.
Um dos funcionários assentiu e saiu rapidamente.
Ailme estava parada perto da entrada, visivelmente desconfortável.
O chão de mármore brilhava sob seus pés molhados.
Ela tinha medo até de sujar aquele lugar.
— Senhor… — disse ela com cuidado — eu não quero causar problemas…
Brandão a interrompeu sem levantar a voz.
— Você não está causando.
Ailme abaixou os olhos.
Logo uma mulher mais velha apareceu no corredor.
Elegante, postura firme.
Era a governanta da casa.
Ela parou quando viu a cena.
Primeiro olhou para Brandão.
Depois para a mulher molhada com uma criança no colo.
— Senhor…?
Brandão falou calmamente:
— Prepare um quarto.
E apontou levemente para Ailme e Romã.
— Eles vão ficar aqui esta noite.
A governanta assentiu imediatamente.
— Claro, senhor.
Romã começou a tremer novamente nos braços da mãe.
Ailme tentou aquecer as mãos dele.
— Ele precisa de um banho quente… — murmurou, preocupada.
A governanta se aproximou.
— Venha comigo, querida.
Ela fez um gesto gentil.
— Vamos cuidar do menino.
Ailme olhou rapidamente para Brandão, como se pedisse permissão.
Ele apenas assentiu.
— Vá.
Ela acompanhou a governanta pelo corredor.
Enquanto caminhava, Romã levantou os olhos sonolentos.
— Mamãe… casa bonita…
Ailme sorriu fraco e beijou a cabeça dele.
— Muito bonita, meu amor.
Lá atrás, na entrada da mansão, Brandão ainda estava parado.
Observando eles se afastarem pelo corredor.
A forma como aquela mulher caminhava.
A forma como segurava o menino.
Tudo fazia lembranças antigas voltarem com força.
Ele passou a mão pelo rosto, pensativo.
E murmurou quase inaudível:
— Isso não é possível…
Porque quanto mais ele olhava para aquela mulher…
Mais parecia que o passado estava caminhando novamente dentro de sua própria casa.
O quarto era grande.
Quente.
E iluminado por uma luz suave que parecia acolher quem entrava.
Para Ailme, aquilo parecia outro mundo.
Depois de tantos dias passando frio, o simples calor daquele lugar já fazia seus olhos arderem de emoção.
A governanta caminhou até o banheiro e abriu a água da banheira.
— Vamos aquecer esse pequeno primeiro — disse ela com um sorriso gentil.
Romã ainda estava sonolento, com os olhinhos pesados de cansaço.
Ailme começou a tirar as roupas molhadas do filho com cuidado.
As mãozinhas dele ainda estavam geladas.
Quando o colocou na água morna da banheira, o menino soltou um suspiro pequeno.
— Quentinho… — murmurou.
Ailme sentiu o coração apertar de alívio.
Ela pegou um pano macio e começou a lavar os bracinhos dele devagar.
Romã parecia relaxar pela primeira vez naquela noite.
A governanta observava a cena em silêncio.
Depois abriu uma pequena sacola que havia trazido.
— Uma das funcionárias da casa tem um bebê pequeno — explicou ela. — Peguei algumas roupinhas limpas para ele.
Ailme olhou surpresa.
Dentro da sacola havia roupas pequenas e macias.
Um pijaminha de algodão.
Meias.
Até uma mantinha.
Os olhos dela se encheram de lágrimas.
— Muito obrigada… de verdade…
A governanta sorriu.
— Não precisa agradecer.
Alguns minutos depois, Romã já estava limpo, seco e vestido.
O pijaminha ficou um pouco grande nele, mas parecia incrivelmente confortável.
O menino parecia outro.
Os cabelos ainda úmidos.
O rosto mais tranquilo.
Ele segurava a mantinha contra o peito.
— Mamãe… macio…
Ailme sorriu e beijou a testa dele.
— É sim, meu amor.
Depois foi a vez dela.
A governanta deixou algumas roupas limpas sobre a cama.
Uma calça simples.
Uma blusa confortável.
Uma toalha grande.
— Tome um banho também — disse ela. — você precisa se aquecer.
Ailme hesitou.
Olhou para o filho sentado na cama.
— Eu volto rápido, tá bom?
Romã assentiu.
— Tá bom, mamãe.
Quando Ailme entrou no banho quente, quase chorou.
A água quente escorria pelos cabelos, pelo rosto, pelos ombros.
Levando embora a lama.
A chuva.
O frio.
Por alguns minutos… ela apenas ficou ali parada.
Sentindo o calor.
Sentindo o corpo finalmente relaxar.
Quando saiu, vestiu as roupas limpas que haviam deixado para ela.
Ficaram simples… mas confortáveis.
Muito melhores do que qualquer coisa que ela tinha nos últimos dias.
Quando voltou para o quarto, encontrou Romã sentado na cama, enrolado na mantinha.
Ele estava olhando curioso para tudo ao redor.
— Mamãe… cama grande…
Ela riu baixinho.
— Muito grande.
Nesse momento, a governanta entrou novamente.
Desta vez carregando uma bandeja.
O cheiro fez o estômago de Ailme apertar.
Era sopa quente.
Pão.
E um copo de leite morno.
A governanta colocou a bandeja sobre a pequena mesa.
— Vocês precisam comer.
Ailme sentiu a garganta apertar.
— Obrigada…
Ela ajudou Romã a segurar a colher.
O menino tomou a primeira colherada de sopa e abriu um pequeno sorriso.
— Gostoso…
Ailme também começou a comer.
A sopa quente parecia aquecer todo o corpo por dentro.
Enquanto mãe e filho comiam em silêncio…
No corredor do lado de fora do quarto…
Brandão estava parado.
Observando pela porta entreaberta.
Ele via a mulher ajudando o menino a comer.
Via o cuidado.
A delicadeza.
A maneira como ela sorria para a criança.
E algo dentro dele apertava cada vez mais.
Porque quanto mais ele olhava…
Mais aquela mulher parecia alguém que ele havia perdido há muito tempo.
E isso o deixava inquieto.
Muito inquieto.
Sem perceber…
Brandão continuava ali parado.
Observando os dois.
Como se estivesse tentando entender por que o destino havia colocado aquela mulher e aquela criança dentro da sua casa naquela noite.