O carro avançava lentamente pela estrada molhada enquanto a tempestade continuava forte do lado de fora.
Dentro do veículo, o silêncio era pesado.
Romã ainda chorava baixinho, tremendo de frio, agarrado ao pescoço da mãe.
Ailme o embalava com cuidado, esfregando os bracinhos dele para aquecer.
— Shhh… calma, meu amor… já passou… já passou…
O terno caro que o homem havia colocado sobre a criança ajudava um pouco a protegê-lo do frio.
Romã fungou e encostou o rosto no peito dela.
— Mamãe… medo…
Ela beijou a cabeça dele.
— Eu sei… mas agora a gente está seguro.
Do banco da frente, Brandão observava tudo em silêncio.
O olhar dele passava da criança para a mulher… repetidas vezes.
Quanto mais ele olhava…
Mais aquela semelhança o perturbava.
Não era apenas o rosto.
Era a forma de falar.
A maneira delicada de tocar o menino.
Até o jeito de abaixar a cabeça.
Aquilo fazia algo dentro dele se mover… algo que ele tentou enterrar por anos.
Ele desviou o olhar para a estrada.
Precisava se concentrar.
Alguns minutos se passaram em silêncio.
Até que ele falou pela primeira vez.
A voz era grave.
Controlada.
— Para onde eu levo vocês?
A pergunta fez Ailme levantar os olhos.
Por um instante ela ficou sem saber o que responder.
Porque a verdade era simples.
Ela não tinha para onde ir.
Os dedos dela apertaram levemente o tecido molhado da roupa.
— Eu… — ela hesitou.
Romã mexeu no colo dela e murmurou baixinho:
— Mamãe… casa…
O coração dela apertou.
Mas ela sabia que não podia mentir.
Então respondeu com sinceridade.
— Eu não tenho para onde ir.
O motorista olhou rapidamente pelo retrovisor.
Brandão também virou a cabeça um pouco.
— Nenhum lugar?
Ailme abaixou o olhar.
— Não, senhor.
O silêncio voltou a tomar conta do carro.
Brandão ficou pensativo por alguns segundos.
O pequeno Romã estava quase dormindo no colo da mãe, ainda tremendo um pouco.
O rosto dele parecia pálido.
Brandão franziu a testa.
— O menino está com frio.
Ailme assentiu.
— Ele ficou muito tempo na chuva…
A voz dela saiu carregada de preocupação.
— Ele está assim desde quando saímos da cabana.
Brandão olhou novamente para a criança.
Algo apertou em seu peito.
Ele virou-se para o motorista.
— Vamos para a mansão.
O motorista pareceu surpreso por um segundo.
— Sim, senhor.
Ailme levantou a cabeça imediatamente.
— Não… senhor… não precisa… o senhor já ajudou muito…
Mas Brandão a interrompeu.
— O menino precisa se aquecer.
A voz dele era firme.
Sem espaço para discussão.
— E vocês também.
Ela ficou em silêncio.
Sem saber o que dizer.
Porque, no fundo… estava exausta demais para discutir.
Romã se mexeu novamente e sussurrou:
— Mamãe… dormir…
Ela acariciou os cabelos dele.
— Pode dormir, meu amor.
Enquanto observava aquela cena, Brandão voltou o olhar para a janela escura.
Mas seus pensamentos estavam longe dali.
Ele não conseguia parar de pensar em uma coisa.
Aquela mulher.
Aquele rosto.
Aquela voz.
Era como olhar para um fantasma do passado.
E pela primeira vez em muitos anos…
Ele sentiu que aquela noite não tinha sido apenas coincidência.
Talvez fosse destino.
E ele estava prestes a descobrir o porquê.