O rosto do passado

515 Words
A chuva continuava caindo forte sobre a estrada escura. Dentro do carro preto, o silêncio era pesado. Os faróis iluminavam diretamente a pequena cabana improvisada na beira da estrada. Brandão estreitou os olhos. Por um instante… ele achou que estava vendo errado. A silhueta de uma mulher abraçando uma criança aparecia entre a lona que balançava com o vento. Então um relâmpago iluminou o céu. E o rosto dela ficou visível por um segundo. O coração dele falhou uma batida. Ele murmurou baixo, quase sem perceber: — Não pode ser… Seu olhar ficou preso naquela mulher. — É igual… O motorista virou levemente a cabeça, observando também. — Senhor… — disse ele, surpreso. — olha aquela mulher… ela está tentando proteger a criança nessa tempestade. Brandão continuava olhando. Imóvel. A mente dele parecia voltar anos no passado. O mesmo rosto. Os mesmos cabelos claros. A mesma expressão delicada. Ele apertou a mandíbula. — Chegue mais perto. O motorista imediatamente reduziu a velocidade e aproximou o carro da cabana. A chuva batia forte no vidro. Agora era possível ver claramente. A mulher estava completamente encharcada. E a criança tremia nos braços dela. Brandão abriu a porta. — Senhor, a chuva está muito forte — disse o motorista. Mas ele já estava saindo. A água atingiu seu rosto imediatamente. Sem se importar, ele caminhou em direção à cabana. Cada passo afundava um pouco na lama. Quando chegou perto, viu a cena com clareza. A mulher abraçava o menino com todas as forças, tentando protegê-lo do vento. Os dois estavam tremendo. Brandão parou diante deles. Por um segundo, ficou apenas olhando. O coração batendo mais forte do que ele gostaria de admitir. Então estendeu a mão. — Moça… venha comigo. Ailme levantou o rosto lentamente. Os olhos azuis encontraram os dele. E por um instante o tempo pareceu parar. Ela olhou para o homem alto diante dela. Elegante. Mesmo sob a chuva. Mas seus pensamentos estavam no filho. Romã chorava baixinho contra o peito dela. — Mamãe… medo… O coração dela apertou. Ela olhou novamente para o homem. Depois para o carro. Depois para o filho. E então segurou a mão estendida. Brandão sentiu os dedos dela gelados quando ela aceitou sua ajuda. Ele a guiou até o carro rapidamente. O motorista já havia aberto a porta. Os três entraram. Assim que a porta fechou, o som da chuva ficou distante. Mas o pequeno Romã ainda chorava. — Mamãe… medo… Ailme o apertou contra o peito e beijou a cabeça dele. — Shhh… tá tudo bem, meu amor… calma… O menino tremia muito. Brandão observou a cena em silêncio. Então tirou o próprio terno. Sem dizer nada, colocou o tecido caro sobre o corpo do menino. Tentando aquecê-lo. Ailme levantou os olhos para ele, surpresa. — Obrigada… senhor… A voz dela era suave. Doce. Brandão ficou imóvel por um segundo. Porque algo dentro dele se apertou. Ele pensou, em silêncio: Até a voz… É igual. Muito igual. E naquele momento… Pela primeira vez em anos… O homem conhecido como Brandão sentiu o passado bater forte contra o peito.
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