O homem chamado Brandão

433 Words
O silêncio dentro da cobertura era quase sufocante. No último andar de um dos prédios mais luxuosos da cidade, o escritório de Brandão parecia mais um campo de guerra corporativo. Paredes de vidro. Vista para toda a cidade iluminada. E uma mesa enorme coberta de relatórios e contratos milionários. Mas nenhum som. Nenhuma conversa. Nenhuma risada. Os funcionários que trabalhavam naquele andar caminhavam com cuidado, quase em silêncio, como se qualquer barulho pudesse despertar um monstro adormecido. E talvez despertasse mesmo. Brandão estava sentado em sua cadeira, imóvel. O olhar escuro fixo em um relatório que não lia de verdade. Alto. Largo. Ombros fortes. O rosto marcado por uma beleza dura, quase intimidadora. Os ternos caros não conseguiam esconder a aura perigosa que o cercava. Ele era o tipo de homem que dominava qualquer ambiente sem precisar levantar a voz. Quando finalmente falou, sua voz saiu baixa e fria. — Isso está errado. O diretor financeiro engoliu seco. — Senhor… eu… Brandão ergueu os olhos lentamente. O homem imediatamente ficou pálido. — Eu não pago milhões para ouvir desculpas — disse ele. A sala inteira ficou tensa. — Eu pago para que resolvam problemas. Ninguém respondeu. Porque todos sabiam. Quando Brandão ficava irritado… alguém sempre perdia o emprego. Minutos depois, a reunião acabou. Os executivos saíram da sala quase correndo. E o escritório voltou ao silêncio. Brandão se levantou lentamente e caminhou até a enorme janela de vidro. Lá embaixo, a cidade parecia pequena. Pessoas andando. Carros passando. Vidas acontecendo. Tudo tão distante da dele. Ele pegou um copo de uísque e bebeu devagar. A bebida queimou na garganta, mas não trouxe o alívio que ele procurava. Nada trazia. Não desde aquela noite. Seus olhos caíram sobre um pequeno porta-retrato que ficava virado para baixo na estante. Ele não tocava nele há meses. Mas naquela noite… tocou. Virou o quadro devagar. A foto mostrava uma mulher sorrindo. Linda. Loura. Olhos claros. Por um segundo, algo se moveu dentro dele. Uma dor antiga. Um peso no peito. Ele virou o retrato novamente. — Chega — murmurou para si mesmo. O passado estava morto. Enterrado. Assim como o homem que ele foi um dia. Agora existia apenas Brandão. O magnata. O homem que não precisava de ninguém. Mas naquela mesma noite… Enquanto a chuva começava a cair forte sobre a cidade… O destino já estava preparando algo que ele jamais esperava. Em algum lugar, não muito longe dali… Uma mulher lutava para proteger o filho do frio da tempestade. E sem saber… Ela estava prestes a cruzar o caminho do homem mais perigoso do país.
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