O silêncio dentro da cobertura era quase sufocante.
No último andar de um dos prédios mais luxuosos da cidade, o escritório de Brandão parecia mais um campo de guerra corporativo.
Paredes de vidro.
Vista para toda a cidade iluminada.
E uma mesa enorme coberta de relatórios e contratos milionários.
Mas nenhum som.
Nenhuma conversa.
Nenhuma risada.
Os funcionários que trabalhavam naquele andar caminhavam com cuidado, quase em silêncio, como se qualquer barulho pudesse despertar um monstro adormecido.
E talvez despertasse mesmo.
Brandão estava sentado em sua cadeira, imóvel.
O olhar escuro fixo em um relatório que não lia de verdade.
Alto. Largo. Ombros fortes.
O rosto marcado por uma beleza dura, quase intimidadora.
Os ternos caros não conseguiam esconder a aura perigosa que o cercava.
Ele era o tipo de homem que dominava qualquer ambiente sem precisar levantar a voz.
Quando finalmente falou, sua voz saiu baixa e fria.
— Isso está errado.
O diretor financeiro engoliu seco.
— Senhor… eu…
Brandão ergueu os olhos lentamente.
O homem imediatamente ficou pálido.
— Eu não pago milhões para ouvir desculpas — disse ele.
A sala inteira ficou tensa.
— Eu pago para que resolvam problemas.
Ninguém respondeu.
Porque todos sabiam.
Quando Brandão ficava irritado… alguém sempre perdia o emprego.
Minutos depois, a reunião acabou.
Os executivos saíram da sala quase correndo.
E o escritório voltou ao silêncio.
Brandão se levantou lentamente e caminhou até a enorme janela de vidro.
Lá embaixo, a cidade parecia pequena.
Pessoas andando.
Carros passando.
Vidas acontecendo.
Tudo tão distante da dele.
Ele pegou um copo de uísque e bebeu devagar.
A bebida queimou na garganta, mas não trouxe o alívio que ele procurava.
Nada trazia.
Não desde aquela noite.
Seus olhos caíram sobre um pequeno porta-retrato que ficava virado para baixo na estante.
Ele não tocava nele há meses.
Mas naquela noite… tocou.
Virou o quadro devagar.
A foto mostrava uma mulher sorrindo.
Linda.
Loura.
Olhos claros.
Por um segundo, algo se moveu dentro dele.
Uma dor antiga.
Um peso no peito.
Ele virou o retrato novamente.
— Chega — murmurou para si mesmo.
O passado estava morto.
Enterrado.
Assim como o homem que ele foi um dia.
Agora existia apenas Brandão.
O magnata.
O homem que não precisava de ninguém.
Mas naquela mesma noite…
Enquanto a chuva começava a cair forte sobre a cidade…
O destino já estava preparando algo que ele jamais esperava.
Em algum lugar, não muito longe dali…
Uma mulher lutava para proteger o filho do frio da tempestade.
E sem saber…
Ela estava prestes a cruzar o caminho do homem mais perigoso do país.