A noite em que tudo acabou

613 Words
Durante muito tempo, Ailme acreditou que a pior parte da sua vida era ver o marido com outras mulheres. Ela estava enganada. A pior parte ainda estava por vir. Tudo começou a mudar quando a empresa dele começou a enfrentar problemas. No começo eram apenas telefonemas irritados. Reuniões intermináveis. Portas batendo. Ele chegava em casa cada vez mais nervoso. Mais agressivo. Mais distante. Uma noite, Ailme estava sentada no tapete da sala com o pequeno Romã, que brincava com um carrinho de brinquedo, quando ouviu a porta da casa se abrir com violência. Ele entrou como uma tempestade. O rosto vermelho. O olhar cheio de raiva. Jogou o paletó no sofá e chutou uma cadeira que estava no caminho. Romã se assustou e correu para os braços da mãe. — Papai bravo… — murmurou o menino, agarrando a camisa dela. Ailme levantou devagar. — O que aconteceu? — perguntou com cuidado. Ele riu. Mas não foi um riso normal. Foi um riso amargo. — O que aconteceu? Ele caminhou até ela com passos pesados. — Eu fui roubado. Traído. Um golpe de milhões. Ailme sentiu o coração apertar. — Mas… você vai resolver… você sempre resolve… Foi a coisa errada a dizer. Ele explodiu. — Você acha que isso é fácil?! O grito ecoou pela sala. Romã começou a chorar. — Eu estou cercado de incompetentes! — ele continuou, andando de um lado para o outro. — Sócios falsos… investidores covardes… Então ele parou. E olhou diretamente para ela. O olhar mudou. Ficou mais frio. Mais c***l. — E ainda tenho que sustentar você. Ailme ficou imóvel. — O que quer dizer com isso? Ele riu novamente. — Olhe para você. O olhar dele desceu pelo corpo dela com desprezo. — Nem parece a mulher que eu conheci. Aquelas palavras foram como um golpe. — Eu… — ela tentou falar. Mas ele a interrompeu. — Eu perdi milhões hoje! MILHÕES! De repente, ele avançou e empurrou uma mesa de vidro. O objeto caiu no chão com um estrondo. Romã chorou ainda mais alto. Ailme abraçou o filho com força. — Por favor… não grita… você está assustando ele… Ele se aproximou. Muito perto. — Eu estou cansado dessa casa. Cansado de você. Ailme sentiu o coração acelerar. — O que você está dizendo? Então aconteceu. Ele segurou o braço dela com força. Forte demais. — Eu estou dizendo que você é um peso morto! O aperto machucava. Ela tentou se soltar. — Está me machucando… Ele soltou com brutalidade. Ailme quase perdeu o equilíbrio. Romã chorava agarrado ao pescoço dela. O olhar do marido estava cheio de algo que ela nunca tinha visto antes. Ódio. — Pegue suas coisas. Ela piscou, confusa. — O quê? Ele apontou para a porta. — Você ouviu. Ailme sentiu o chão desaparecer sob seus pés. — Não… você não está falando sério… Ele abriu a porta da casa com violência. A chuva caía lá fora. — Vá embora. O coração dela começou a bater descontrolado. — Por favor… não faz isso… é noite… Romã é só uma criança… Ele respondeu com frieza. — Então leve ele com você. Aquelas palavras destruíram qualquer esperança que ainda existia dentro dela. — Ele é seu filho… — Não me importa. O silêncio caiu sobre a sala. Ailme sentiu lágrimas escorrerem pelo rosto. Mas ela não implorou. Não discutiu. Não gritou. Apenas segurou o filho com mais força. E caminhou até a porta. A chuva molhou seu rosto imediatamente. Romã escondia o rosto no pescoço dela. Antes de fechar a porta, ele disse a última coisa: — Não volte. A porta bateu. E naquele instante… A vida de Ailme desmoronou completamente.
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