Pequeno demais para entender

856 Words
A vida na rua começou de forma silenciosa. Sem gritos. Sem brigas. Sem grandes explicações. Apenas com um vazio enorme dentro do peito de Ailme. Naquela primeira noite, ela caminhou por horas com o pequeno Romã nos braços, sem saber exatamente para onde ir. A chuva já tinha diminuído, mas o frio ainda cortava a pele. Romã estava quieto. Quieto demais. Ele havia acabado de completar três aninhos poucos dias antes de tudo aquilo acontecer. Mas parecia muito menor. Muito mais frágil. Desde pequeno, o menino havia aprendido a ficar em silêncio. Os gritos do pai sempre o assustavam. As portas batendo. Os objetos quebrando. A tensão dentro da casa. Tudo aquilo fazia com que ele se encolhesse no cantinho mais próximo da mãe. Então Romã cresceu assim. Calmo. Quietinho. Observador. Como se tivesse medo de ocupar espaço demais no mundo. Naquela noite fria, ele apenas segurava o pescoço da mãe e sussurrava baixinho: — Mamãe… papai bravo? O coração de Ailme se apertava toda vez que ele perguntava aquilo. Ela beijava os cabelinhos dele e respondia com voz suave: — Não, meu amor… agora vai ficar tudo bem. Mas ela A noite foi longa. Ailme passou as primeiras horas sentada em um banco de praça, abraçando o pequeno Romã para protegê-lo do frio. Ele dormiu encostado no peito dela, como se aquele fosse o único lugar seguro no mundo. Mas quando o sol nasceu, a realidade voltou com força. Ela precisava trabalhar. Precisava conseguir dinheiro. Precisava alimentar o filho. Naquela manhã, Ailme começou a bater de porta em porta procurando emprego. Padarias. Cafeterias. Restaurantes. Qualquer coisa. — Eu posso limpar… lavar louça… organizar… qualquer coisa — dizia ela, segurando Romã pela mão. Alguns olhavam para ela com pena. Outros nem disfarçavam o incômodo. E a pergunta sempre vinha. — E essa criança? Ela respondia com sinceridade. — É meu filho… eu não tenho com quem deixar. Quase sempre a resposta era a mesma. — Desculpa… não podemos contratar assim. Mas em um pequeno restaurante no centro, um homem acabou cedendo. — Está bem — disse o dono, suspirando. — Você pode lavar louça. Os olhos de Ailme brilharam de esperança. — Obrigada… eu prometo que não vou causar problema. Naquela tarde ela começou. A cozinha era quente. Cheia de vapor. Cheia de pratos empilhados. Mas para ela aquilo parecia uma vitória. Enquanto lavava louça, Romã ficava escondido dentro de um pequeno armário de estoque. Ela colocou uma caixa no chão para ele sentar. — Fica aqui quietinho, meu amor — sussurrou, acariciando o rosto dele. O menino apenas assentiu. — Tá bom, mamãe. Ele era incrivelmente quieto. Não reclamava. Não chorava. Às vezes ficava apenas brincando com uma colher ou observando as pessoas pela fresta da porta. Os cozinheiros quase nem percebiam que ele estava ali. E quando percebiam, apenas comentavam: — Esse menino é calminho demais. Romã só abaixava os olhos. A verdade era que ele tinha medo. Os gritos que ouviu durante tanto tempo dentro de casa o ensinaram a ficar em silêncio. Ailme trabalhava o mais rápido que podia. Quando ninguém estava olhando, ela se aproximava do armário e perguntava baixinho: — Está tudo bem aí? Romã sempre respondia com um sorriso pequeno. — Tô bem, mamãe. Durante alguns dias, aquilo funcionou. Mas um dia… tudo mudou. O dono do restaurante entrou na cozinha de surpresa. E encontrou o pequeno Romã sentado no armário. O homem franziu a testa. — O que é isso? Ailme sentiu o coração parar. Ela correu até o filho. — Desculpa… ele não tem para onde ir… eu só precisava trabalhar… O dono balançou a cabeça. — Eu disse que não queria problema aqui. — Por favor… eu preciso desse trabalho… Mas ele já estava decidido. — Pegue suas coisas. Aquelas palavras foram como um golpe no peito. Mais uma vez. Ela pegou Romã no colo. O menino apenas encostou a cabeça no ombro dela. Sem reclamar. Sem perguntar nada. Do lado de fora, o vento estava frio. Romã levantou os olhinhos para ela. — Mamãe… a gente vai pra casa? A pergunta fez os olhos de Ailme se encherem de lágrimas. Mas ela sorriu mesmo assim. — Vamos achar uma, meu amor. Só que os dias continuaram passando. E nenhum trabalho durava. Sempre pelo mesmo motivo. Romã. Até que chegou o dia em que não restou mais lugar nenhum para ir. Sem dinheiro. Sem trabalho. Sem abrigo. Ailme improvisou uma pequena cabana com pedaços de madeira e uma lona velha perto de uma estrada pouco movimentada. Ali, ela e o filho passaram a dormir. Naquela noite, Romã estava enrolado nos braços dela. O vento balançava a lona da cabana improvisada. O menino murmurou baixinho: — Mamãe… tô com frio… Ailme o abraçou mais forte. — Eu estou aqui… vai passar. Mas naquela mesma noite… Nuvens pesadas começaram a cobrir o céu. E uma tempestade estava chegando. Sem que ela soubesse… Essa seria a noite em que o destino colocaria um homem poderoso no caminho dela. O homem que o mundo conhecia apenas como Brandão. E que um dia revelaria a ela seu verdadeiro nome. Eusef Morat.
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