O Primeiro Encontro

1019 Words
O som dos saltos de Isadora ecoava pelo hall de mármore da empresa Alcântara Group, como uma sentença. Ela ainda não acreditava que estava ali. Que aquilo estava mesmo acontecendo. Não era só o prédio imponente ou os olhares julgadores de recepcionistas bem vestidas. Era o peso do que viria a seguir. A porta de vidro opaco à sua frente escondia mais do que um escritório executivo. Escondia o homem que mudaria sua vida para sempre. Leonardo Alcântara. Ela nunca tinha visto o rosto dele. Não fazia ideia de como era seu timbre de voz, seu modo de falar ou o tipo de perfume que usava. Apenas sabia que ele era CEO de um dos maiores grupos empresariais do país, milionário e... que havia comprado o silêncio e o futuro dela por uma quantia indecente. Respirou fundo. O elevador a deixara ali há dois minutos e ela ainda não conseguira bater na porta. Até que ouviu a voz da secretária por trás de uma mesa com tampo de vidro. — Ele está esperando. Pode entrar. Isadora ergueu o queixo, escondendo o nervosismo por trás da postura erguida, e empurrou a porta. O escritório era amplo, com janelas que revelavam uma vista privilegiada de São Paulo. O cheiro de café, couro e madeira dominava o ambiente. Mas o que tirou o fôlego de Isadora não foi o lugar. Foi ele. Leonardo Alcântara. Alto. Impecável. Um homem esculpido pela arrogância e pelo poder. Usava um terno cinza-escuro, ajustado ao corpo atlético, e a gravata ligeiramente afrouxada, como se dissesse ao mundo que até sua informalidade era calculada. O cabelo preto estava perfeitamente penteado para trás, e os olhos — intensos, frios e calculistas — a avaliaram com um misto de surpresa e indiferença. — Então você é a filha do amigo do meu pai — disse ele, sem sequer se levantar da cadeira. Isadora sentiu a pele arder. Não pela grosseria, mas pela forma como ele a olhava. Como se ela fosse uma equação. Uma peça de xadrez. — E você é o homem que resolveu me comprar. Leonardo ergueu uma sobrancelha, curioso. — Direta. Gosto disso. Mas cuidado. Em certos ambientes, sinceridade demais soa como provocação. Ela se aproximou da mesa, devagar. — E no seu ambiente, Leonardo? O que você prefere? Bonecas que acenam a cabeça e dizem “sim, senhor”? Ele soltou um leve sorriso. — Eu prefiro previsibilidade. Mas você parece ser o oposto disso. — E ainda assim me escolheu. — Escolhi a situação. Não você. Mas já que estamos aqui... Levantou-se com elegância. A proximidade aumentou a tensão. Ele era ainda mais intimidante de pé. Exalava autoconfiança. E algo mais. Algo que ela não queria nomear. — Por que aceitou isso, Isadora? — perguntou ele, olhando direto em seus olhos. — O dinheiro? A chantagem emocional do seu pai? Ou simplesmente curiosidade para saber como é ser casada com um homem como eu? Ela sentiu o sangue ferver. — Não aceitei. Fui colocada nessa situação. Assim como você. E não se iluda — não me interesso pelo seu dinheiro, muito menos por você. Ele se aproximou mais um passo. A respiração dela falhou por um instante. — Ainda assim, vai usar meu sobrenome. Vai dividir uma casa comigo. Uma cama, se necessário. — Isso não estava no contrato — rebateu, firme. — Algumas cláusulas são implícitas — respondeu ele, com um sorriso de canto. O silêncio se arrastou. Um duelo mudo entre dois estranhos prestes a se tornarem marido e mulher por conveniência. — Está arrependida? — ele perguntou, como se testasse seus limites. — Não dou o luxo de me arrepender de algo que foi imposto — disse ela, recuando um passo. — Mas já que vamos fingir ser um casal, temos que estabelecer regras. Leonardo inclinou levemente a cabeça, interessado. — Gosto de regras. — Ótimo. Primeira: não vamos fingir nada fora da presença do seu pai ou da imprensa. Dentro de casa, cada um no seu espaço. Segunda: sem intromissões na minha vida pessoal. Terceira: sem... contatos íntimos. Eu sou sua esposa no papel, não no seu quarto. Leonardo caminhou de volta para sua mesa e se sentou. Girou levemente a cadeira, olhando para a cidade lá fora, antes de voltar o olhar para ela. — Tudo bem. Desde que você também cumpra sua parte. — Qual parte? — Fingir que está perdidamente apaixonada por mim. Ela riu, irônica. — Vai ser difícil. Mas com um pouco de talento, talvez eu consiga. Ele a observou por alguns segundos. Depois abriu uma gaveta, pegou um envelope e estendeu para ela. — Aqui estão os documentos do contrato. Leia com calma. Assine até o final da semana. O casamento será em quinze dias. Civil, discreto, apenas com os envolvidos. Ela pegou o envelope com mãos firmes, embora sentisse o coração martelar. — Você é sempre tão frio assim? — Só com quem tenta me desafiar. — Então vai ter que aprender a conviver com isso, marido — disse ela, virando-se para sair. Antes de alcançar a porta, ele a chamou. — Isadora. Ela parou, mas não se virou. — O que foi? — Você é mais bonita do que eu imaginava. Ela não respondeu. Saiu do escritório com a cabeça erguida, mas por dentro, o peito parecia uma tempestade. Ele a confundia. A irritava. E, pior... fazia algo em seu corpo estremecer de uma forma que ela se recusava a aceitar. Horas depois, sozinha em seu quarto, Isadora releu cada cláusula do contrato. O documento era claro: fingiriam ser um casal por dois anos. Ela não poderia se envolver com ninguém nesse período, nem poderia romper o acordo sem multa milionária. Teria que acompanhar Leonardo em eventos sociais, agir como esposa perfeita... tudo em nome da herança que ele tanto queria proteger. Mas não havia nada sobre sentimentos. Nem sobre o que aconteceria se, no meio do teatro, a verdade começasse a arder entre os dois. Na manhã seguinte, Leonardo recebeu uma notificação em seu celular: "Contrato assinado por Isadora Ferreira Costa."  Ele sorriu. Ela era um problema. Mas um problema interessante.
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