O Preço de uma Noiva
A proposta chegou numa caixa de veludo.
Dentro, um contrato. E um anel.
Nada de flores. Nada de palavras doces.
Só cifras. Muitas cifras.
— Isso vai mudar nossas vidas, filha — disse o pai de Isadora com os olhos marejados, mas firmes como aço. — Ele vai nos pagar uma fortuna.
Isadora congelou. O ar pareceu pesar uma tonelada quando a mãe complementou:
— Ele precisa se casar. É uma condição para herdar a empresa do pai. E ele escolheu você.
— Como assim “ele me escolheu”? Eu nem o conheço! — Isadora levantou-se num rompante, sentindo o sangue ferver nas veias. — Isso é loucura. É tráfico humano disfarçado de casamento!
— Não é assim... — murmurou a mãe, desviando o olhar. — Ele é um homem poderoso. O CEO da Alcântara Corporation. Está disposto a pagar o que for pra manter a empresa nas mãos dele. E seu pai... seu pai deve muito dinheiro.
Isadora sentiu o chão sumir sob os pés.
Leonardo Alcântara.
Esse era o nome do homem por trás do contrato. Um magnata frio, reservado, conhecido tanto por sua fortuna quanto por sua arrogância. O pai de Isadora havia sido amigo de infância do sócio dele. E agora, num ato desesperado, vendera a própria filha para livrar-se das dívidas.
— Eu não vou casar com um estranho por dinheiro. — A voz dela tremeu, mas não recuou.
— Já assinamos os documentos, Isa... — disse o pai, com a voz embargada. — O casamento será em uma semana.
Ela quis gritar. Correr. Sumir do mapa. Mas o destino já estava escrito.
Leonardo olhou para o contrato em cima da mesa, impassível.
— E ela aceitou?
— Os pais aceitaram. Ela não precisa gostar de mim. Precisa apenas assinar como minha esposa até que a transferência da herança seja concluída.
O advogado coçou a cabeça, desconfortável.
— Senhor Alcântara... uma mulher forçada a casar pode ser um problema. Ainda mais se ela resolver apelar para a mídia...
— Não vai. O pai dela está com o nome sujo em todos os bancos. Se não for por mim, eles perdem tudo. E ela... ela vai entender o jogo.
— E se não entender?
Leonardo deu um sorriso frio.
— Vai aprender.
No dia do casamento, Isadora usava branco, mas se sentia enlutada. Olhava para o homem à sua frente como se fosse um estranho — e ele era. Alto, imponente, com olhos tão escuros quanto a noite e uma expressão que parecia esculpida em pedra.
— Promete amá-lo e respeitá-lo até que a morte os separe? — perguntou o padre.
— Isso é mesmo necessário? — Leonardo murmurou ao ouvido dela, com um sorriso cínico.
— Que morra então rápido — ela sussurrou de volta, encarando-o com ódio.
Era oficial. Eles estavam casados.
Mas não havia amor ali. Nem cumplicidade. Apenas uma aliança de fachada.
Ele a levou para um apartamento luxuoso no alto de um prédio em São Paulo. Dois quartos. Dois banheiros. Nenhuma i********e.
— Esse é seu quarto. O outro é o meu. — Leonardo apontou sem sequer olhar nos olhos dela. — Não tente me agradar. Não vou fingir que isso é um conto de fadas.
— Ótimo. Porque se fosse, você seria o vilão.
Leonardo riu. Pela primeira vez, um riso verdadeiro.
— Isso está longe de ser um conto de fadas, Isadora. Mas vamos manter as aparências. Temos jantares, eventos... e uma herança em jogo. E você vai sorrir e parecer apaixonada por mim. É só isso que peço.
— E o que eu ganho com isso?
Ele a fitou com atenção. Havia faísca ali. Uma chama que ele não sabia se queimaria ou consumiria.
— Um ano. Um ano de fachada. Depois disso, você sai com uma conta bancária cheia... e livre de mim.
Ela pensou em dizer “não”. Mas estava presa. Financeiramente, emocionalmente, legalmente.
— E se eu quiser desistir antes?
— Não vai querer. Confie em mim. — E ele saiu, deixando um perfume amadeirado no ar e um rastro de silêncio.
Os dias seguintes foram um desfile de aparências. Fotos no i********:, beijos forçados em frente aos jornalistas, jantares em silêncio.
Ele não fazia questão de ser gentil. Ela, de esconder o desprezo.
Isadora encarava o pai com os olhos arregalados, o coração martelando no peito como se fosse explodir. Aquela frase ainda pairava no ar como uma sentença sem volta:
— Você vai se casar com Leonardo Alcântara.
Ela deu um passo para trás, a respiração curta, como se o ar tivesse se transformado em vidro quebrado em seus pulmões.
— Você só pode estar brincando — murmurou, a voz trêmula. — Isso é uma piada de mau gosto, pai. Muito, muito mau gosto.
O pai desviou o olhar, envergonhado, como se não suportasse encará-la. A mãe, sentada ao lado, mantinha as mãos entrelaçadas, o rosto pálido como giz.
— Não é brincadeira, filha — respondeu ele, finalmente. — É uma oportunidade. Uma chance de mudar de vida. Para todos nós.
— Para todos nós? — Ela deu uma risada amarga. — Vocês venderam a própria filha como se eu fosse... como se eu fosse um bem negociável!
— Não fala assim! — a mãe implorou, com lágrimas nos olhos. — A gente só quer o seu bem!
— O meu bem? — Isadora levantou as mãos, exasperada. — O meu bem seria liberdade! Seria poder estudar, viver, escolher com quem casar! Vocês acham que o meu bem é ser jogada na cama de um desconhecido só porque ele pagou bem?
O pai bateu a mão na mesa com força, como se tentasse recuperar o controle da conversa.
— Ele não vai te tocar! — esbravejou. — Ele não quer uma esposa de verdade, quer só cumprir uma cláusula do testamento. Vocês vão fingir estar casados por um ano, e depois ele te dará liberdade. Ele prometeu.
— E você acredita? — Ela cruzou os braços, furiosa. — Um homem que compra uma mulher pra se casar já mostra o tipo de caráter que tem.
— É um contrato — o pai explicou, tentando ser racional. — Um contrato vantajoso. Você não terá que fazer nada além de manter as aparências. Ele vai pagar bem. E... e nós precisamos desse dinheiro, filha. Estamos à beira da falência.
Isadora sentiu a dor atravessá-la como uma lâmina fina e fria. Então era isso. Dinheiro. A raiz de tudo. O motivo pelo qual seus sonhos estavam sendo arrancados com crueldade.