Urgência em São Paulo

1028 Words
Os dias no Rio de Janeiro começaram a ganhar um ritmo próprio. Laura mergulhou no trabalho como se aquilo fosse a única coisa capaz de manter sua mente em ordem, reuniões, contratos, visitas às filiais, decisões administrativas… tudo parecia exigir sua presença o tempo inteiro, era quase como se ela estivesse correndo contra o próprio silêncio. O apartamento também começava a tomar forma. As cortinas já estavam instaladas, os móveis principais montados e algumas caixas finalmente haviam desaparecido da sala, aos poucos, o lugar deixava de parecer apenas um imóvel recém-comprado e começava a se transformar em um lar. Mas aquela rotina tranquila durou pouco. Numa manhã cedo, Laura entrou na sala com o celular ainda na mão e o semblante sério. Dona Sônia estava no quarto quando ouviu os passos apressados da filha. — Mãe, preciso ir para São Paulo hoje. São Paulo Dona Sônia virou-se imediatamente, surpresa. — Hoje? Mas o que aconteceu? Laura já caminhava em direção ao quarto, abrindo o armário e puxando uma mala de viagem. — Um erro em um documento da empresa de São Paulo, se eu não resolver pessoalmente, pode virar um problema jurídico grande. Dona Sônia a seguiu até o quarto. — Mas você não pode mandar alguém no seu lugar? Laura começou a dobrar algumas roupas com rapidez, quase mecanicamente. — Não. Ela respirou fundo antes de continuar. — Fui eu que assinei o documento, então eu mesma resolvo. Dona Sônia ficou observando a filha por alguns segundos. Havia algo nela que estava diferente. Não era apenas a postura firme ou o modo decidido de falar. Era como se Laura tivesse construído uma espécie de armadura invisível, cada gesto, cada palavra, cada decisão pareciam calculados, fortes… quase frios. — Quando você volta? — perguntou Dona Sônia. — Dois dias, no máximo. Laura fechou o zíper da mala. — Assim que eu voltar, a gente já pode se mudar. Os olhos de Dona Sônia brilharam discretamente. — Então o apartamento já está pronto? Laura apoiou a mala no chão. — Quase tudo. Ela caminhou até a janela do quarto por um instante antes de responder. — A maioria dos móveis já foi entregue e montada. Ela fez uma pequena pausa. Inclusive os do quarto do bebê. Mas isso Dona Sônia ainda não sabia. Porque quem havia ajudado Laura a escolher cada detalhe daquele quarto tinha sido Guilherme. E Laura ainda não tinha encontrado o momento certo para contar isso à mãe. — Guilherme vai comigo — ela disse por fim. Dona Sônia assentiu com naturalidade. — Então vai tranquila, assim você não viaja sozinha. Poucas horas depois, Laura e Guilherme já estavam a caminho do aeroporto. Durante o trajeto, Guilherme percebia claramente o cansaço estampado no rosto dela. Mesmo assim, ele insistia em manter o clima leve. No avião, quando Laura abriu o notebook para revisar alguns documentos, ele inclinou o corpo para olhar a tela. — Você sabia que empresários sérios não deviam fazer cara de assassinos profissionais em reuniões? Laura levantou uma sobrancelha lentamente. — Eu faço cara de assassina? — Um pouco — respondeu ele, segurando o riso. — Ótimo. — Assusta os funcionários. Laura fechou o notebook. — Melhor ainda. Guilherme riu. — Você está virando uma CEO assustadora. — Estou virando eficiente. — Fria. — Prática. — Assustadora. Laura suspirou. Mas, alguns segundos depois, acabou rindo também. Uma risada breve. Mas sincera. E Guilherme percebeu aquilo imediatamente. Porque Laura não ria com tanta facilidade ultimamente. Horas depois, o avião pousou em São Paulo. Eles pegaram um táxi direto para a empresa. Durante o caminho, Guilherme comentava sobre alguns detalhes que precisariam ser resolvidos no escritório, enquanto Laura observava a cidade pela janela. Havia algo estranho em voltar ali. Memórias. Lugares. Histórias que ela preferia não revisitar. O táxi finalmente parou em frente ao prédio da empresa. Laura abriu a porta primeiro e saiu do carro. Ela ajeitou o blazer cinza e levantou o olhar para o prédio. Não percebeu. Do outro lado da rua, alguém a observava. Henrique. Ele tinha reconhecido Laura no mesmo instante em que o táxi parou. O coração dele disparou. Era ela. Depois de tanto tempo. Depois de tantas noites lembrando de cada detalhe do rosto dela. Henrique deu um passo para frente. Depois outro. Ele começou a atravessar a rua lentamente, como se estivesse sendo puxado por uma força invisível. Os olhos fixos nela. O mundo ao redor parecia desaparecer. Mas então… A outra porta do táxi se abriu. Guilherme desceu. Henrique parou no meio do passo. Guilherme caminhou até Laura com naturalidade, como se aquela fosse a coisa mais comum do mundo. Ele parou ao lado dela e colocou a mão em seu ombro de maneira casual. — Só um aviso — disse ele. — Se você entrar aí dentro com essa cara de CEO malvada, metade dos funcionários vai pedir demissão. Laura virou o rosto para ele. — Eu não faço cara de CEO malvada. — Faz sim. — Não faço. — Faz. Ela tentou manter a postura séria. Mas acabou soltando uma pequena risada. Leve. Espontânea. Henrique sentiu o corpo inteiro endurecer. Ele ficou parado olhando os dois. Guilherme ainda com a mão no ombro dela, inclinando-se um pouco enquanto falava. Fazendo outra piada. Dizendo algo que Laura respondeu com outro sorriso. Henrique conhecia aquele sorriso. Conhecia cada detalhe dele. Porque aquele sorriso já tinha sido dele. Ou pelo menos… ele acreditava que tinha sido. Laura e Guilherme começaram a caminhar em direção à entrada do prédio. Ela ainda ria de alguma coisa que ele tinha dito. Os dois atravessaram as portas de vidro e desapareceram dentro da empresa. Sem nunca perceber que Henrique estava ali. Do outro lado da rua. Observando tudo. Henrique permaneceu parado por alguns segundos. O peito pesado. O olhar fixo na porta por onde Laura havia desaparecido. Uma sensação estranha tomou conta dele. Não era apenas saudade. Era algo pior. Era a sensação de ter chegado tarde demais. Ele respirou fundo. Endureceu o olhar. E naquele momento acreditou em uma única coisa. Que tinha perdido Laura. Talvez para sempre. Então virou de costas. E sem olhar para trás… Henrique foi embora.
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