Laura ficou parada por alguns segundos depois que Guilherme disse aquela frase.
“Olha o que o destino me trouxe de volta.”
O coração dela deu um pequeno salto — não de amor, mas de surpresa, a última vez que tinham se visto, meses atrás, ele havia prometido que a encontraria novamente.
Mas o tempo passou… e muita coisa mudou.
Laura respirou fundo, recuperando a postura firme que vinha carregando desde que saiu de Massachusetts.
— Pelo visto o destino gosta de brincar com a gente — respondeu ela, mantendo o tom profissional.
Guilherme sorriu, mas percebeu na hora: aquela não era mais a mesma Laura.
A menina doce, que sorria fácil, tinha desaparecido.
Na frente dele estava uma mulher diferente.
Mais séria.
Mais distante.
Mais forte.
Ele puxou a cadeira para ela.
— Sentes-se, temos muito trabalho pela frente.
Laura assentiu e abriu a pasta com os documentos da empresa.
A reunião seguiu de forma profissional, números, contratos, metas, Guilherme explicava tudo com calma, e Laura absorvia cada detalhe com uma atenção impressionante.
No final da reunião, ele cruzou os braços e a observou por alguns segundos.
— Você mudou.
Laura levantou os olhos lentamente.
— Pessoas mudam.
— Não tanto assim.
Ela fechou a pasta.
— A vida ensina.
Guilherme percebeu que havia mais ali, mas não pressionou.
— Bom… — ele se levantou — já que agora você é oficialmente a nova dona disso tudo, acho que vou ter que te mostrar como as coisas funcionam por aqui.
— Então vamos trabalhar.
Nos dias que seguiram, Guilherme se tornou praticamente a sombra de Laura na empresa.
Ele apresentava setores, explicava funcionários, mostrava relatórios.
Laura se mostrou uma líder extremamente eficiente.
Fria.
Direta.
Sem paciência para erros.
Os funcionários começaram a perceber rapidamente que a nova chefe não era alguém fácil de lidar.
Mas também não era injusta.
Enquanto isso, fora da empresa, Laura ainda precisava montar o apartamento.
E foi Guilherme quem acabou ajudando.
— Você vai precisar de móveis — ele disse um dia, encostado na mesa dela. — Ou pretende dormir no chão?
Laura suspirou.
— Ainda não tive tempo para isso.
— Então vamos resolver hoje.
— Guilherme, eu ...—
— Sem discussão, eu conheço bons lugares.
Ela pensou por alguns segundos… e acabou concordando.
Naquela tarde os dois foram a várias lojas.
Sofá.
Mesa.
Camas.
Armários.
Laura escolhia tudo de forma prática, quase militar.
— Esse, esse também, não preciso de nada muito extravagante.
Guilherme começou a rir.
— Você está montando um bunker ou um apartamento?
Ela levantou uma sobrancelha.
— Segurança é prioridade.
— Três quartos para segurança?
Laura ficou em silêncio por um segundo.
— Um para minha mãe.
— E o outro?
Ela desviou o olhar.
— Reserva.
Ele não insistiu.
Depois das compras, os dois foram almoçar.
Era a terceira vez naquela semana.
Sentados em um restaurante simples perto da empresa, Guilherme observava Laura enquanto ela mexia distraída no copo de água.
— Posso te perguntar uma coisa?
— Depende.
— Eu realmente achei que nunca mais ia te ver.
Ela ergueu os olhos.
— Por quê?
— Porque eu esperei.
Laura franziu levemente a testa.
— Esperei meses — ele continuou. — Voltei naquele lugar várias vezes.
O silêncio caiu entre os dois.
— Achei que você fosse aparecer de novo.
Laura respirou fundo.
Algo dentro dela apertou.
— A vida mudou de direção.
— Eu percebi.
Ele apoiou os cotovelos na mesa.
— Você desapareceu.
Laura ficou alguns segundos olhando para ele.
E então tomou uma decisão.
— Guilherme… eu preciso te contar uma coisa.
Ele ficou imediatamente atento.
— Estou grávida.
O silêncio que se seguiu foi tão grande que parecia que o restaurante inteiro tinha parado.
Guilherme piscou.
Uma vez.
Duas.
— Você… o quê?
— Estou grávida.
Ele passou a mão no rosto, completamente desorientado.
— Eu… não… eu não estava esperando isso.
— Nem eu.
Ele ficou alguns segundos tentando organizar os pensamentos.
Então respirou fundo.
— O pai está por perto?
Laura endureceu imediatamente.
— Não.
— Ele sabe?
— Não.
Guilherme observou o rosto dela.
Ali havia dor.
Mas também algo muito mais forte.
Determinação.
Ele então se recostou na cadeira.
— Certo.
Laura franziu a testa.
— Certo?
— Certo.
— Só isso?
— Só isso.
Ele deu de ombros.
— Você é forte, vai dar conta.
Ela ficou surpresa com a reação tranquila.
— Guilherme…
Ele interrompeu.
— Escuta bem.
Os olhos dele estavam sérios agora.
— Eu esperei meses para te encontrar de novo.
Ela ficou imóvel.
— Então não vai ser uma gravidez que vai me fazer desaparecer.
Laura permaneceu em silêncio.
— Eu não sei o que você precisa — ele continuou. — amigo, ajuda, só alguém para ouvir.
Ele se inclinou um pouco para frente.
— Mas eu estou aqui.
Laura o encarou por alguns segundos.
A antiga Laura teria chorado.
A nova Laura apenas assentiu.
— Obrigada.
Ele sorriu de leve.
— Agora me diz uma coisa.
— O quê?
— Esse terceiro quarto…
Laura respirou fundo.
E colocou a mão discretamente sobre a barriga.
— Vai ser do bebê.
Guilherme passou a mão no cabelo.
Ainda tentando processar tudo.
Mas uma coisa ele já tinha decidido.
Não iria embora.
Não dessa vez.