O destino sempre encontra o caminho

1039 Words
O avião pousou no Rio de Janeiro pouco depois do meio-dia. Pela janela, Laura observou o mar azul recortando a cidade, os prédios espalhados entre morros verdes e o brilho intenso do sol refletindo na água. Era uma paisagem completamente diferente da rotina que ela havia deixado para trás. Massachusetts parecia agora uma vida distante. Outra Laura. Outro tempo. Quando o avião finalmente parou e os passageiros começaram a se levantar, Sônia olhou para a filha. — Está pronta? Laura respirou fundo antes de responder. — Acho que sim. Na verdade, não tinha certeza de quase nada. Mas precisava seguir em frente. As malas demoraram alguns minutos para aparecer na esteira, e enquanto esperavam, Laura mantinha a mão discretamente sobre o próprio ventre. Ainda era cedo. Muito cedo. Mas ela já sabia. Sentia. E aquela nova vida dentro dela era o motivo de cada decisão que estava tomando. Não era mais apenas sobre ela. Quando finalmente deixaram o aeroporto, um carro enviado pela empresa já as aguardava. O motorista abriu a porta educadamente. — Senhorita Sarkozy? Ela assentiu. — Sim. — O carro está à disposição. O trajeto até o hotel foi silencioso. Sônia observava a cidade pela janela, curiosa, enquanto Laura mantinha o olhar perdido no movimento das ruas. O Rio parecia vivo. Barulhento. Cheio de energia. Talvez fosse exatamente o lugar certo para recomeçar. O hotel escolhido ficava próximo à praia. Assim que entraram no quarto, Sônia caminhou até a varanda. — Meu Deus… Ela olhou para o horizonte. — Laura, olha essa vista. Laura se aproximou. O mar se estendia diante delas, infinito. Por alguns segundos, ela apenas respirou. Talvez aquilo fosse mesmo um novo começo. Mas o descanso durou pouco. Menos de uma hora depois, o telefone do quarto tocou. Laura atendeu. — Senhora Sarkozy? O corretor que a senhorita solicitou chegou. — Pode mandar subir. Minutos depois, um homem elegante, de pasta em mãos e sorriso profissional, estava sentado diante delas. — É um prazer conhecê-las, sou José, corretor da imobiliária que administra alguns dos melhores imóveis da cidade. Ele abriu a pasta sobre a mesa. — Separei algumas opções que acredito que possam agradar. As fotos começaram a aparecer. Casas grandes. Mansões com jardins enormes. Coberturas luxuosas. Sônia parecia impressionada. — Laura, olha essa… Mas Laura observava tudo com atenção silenciosa. Até que interrompeu. — Casas não. O corretor piscou. — Perdão? — Quero ver apartamentos. — Preferencialmente em prédio com segurança. O homem folheou alguns papéis. — Claro… temos ótimas opções também. Ele mostrou três opções. Quando a terceira foto apareceu, Laura parou. Um apartamento moderno. Vista para o mar. Prédio com portaria 24 horas. Três quartos. Ela analisou os detalhes com calma. Então apontou. — Esse. O corretor sorriu. — Excelente escolha. Sônia franziu levemente a testa. — Três quartos? Laura respondeu com naturalidade: — Um para mim. — Um para você. — E um escritório. Sônia assentiu. Parecia lógico. Mas Laura sabia que aquela não era toda a verdade. Porque aquele terceiro quarto… não ficaria vazio por muito tempo. E quando aquele pensamento passou por sua mente, sua mão voltou automaticamente ao ventre. Ninguém percebeu. O contrato foi resolvido rapidamente. — Amanhã mesmo podemos entregar as chaves — disse o corretor. Laura assentiu. — Perfeito. Quando ele foi embora, Sônia suspirou. — Acho que agora é oficial. Laura sorriu de leve. — Estamos no Rio. Naquela noite, pela primeira vez em semanas, Laura dormiu profundamente. Sem sonhos. Sem lembranças. Sem discussões ecoando na cabeça. Apenas descanso. Mas a paz durou apenas até o amanhecer. Quando o sol começou a iluminar o quarto, Laura já estava acordada. Ela ficou alguns minutos olhando o teto. Pensando em tudo que ainda precisava fazer. Tomou um banho demorado. Depois abriu a mala. Escolheu um terninho azul-marinho. Elegante. Forte. Quase como uma armadura. Quando saiu do quarto, Sônia estava tomando café. — Já vai sair? — Vou à empresa. Sônia arregalou os olhos. — Hoje? — Quanto antes eu começar, melhor. Sônia observou a filha. Havia algo diferente nela. Mais madura. Mais firme. Talvez a vida tivesse forçado aquele crescimento. — Tem certeza que está pronta? Laura sorriu. — Não. — Mas vou fingir que estou. Sônia riu. — Isso costuma funcionar. O carro da empresa chegou poucos minutos depois. O prédio ficava na região empresarial da cidade. Alto. Moderno. Imponente. Assim que Laura entrou, algumas pessoas olharam curiosas. A notícia de que a herdeira Sarkozy havia chegado já circulava. Uma recepcionista se levantou imediatamente. — Senhorita Sarkozy? — Sim.— Laura que antes pediria para chama-la apenas pelo nome, agora não estava mais se importando com isso, ela tinha chegado ao topo, e se tornado fria. — Seja bem-vinda, o gestor administrativo já está aguardando a senhorita na sala de reuniões. Laura agradeceu. Enquanto caminhava pelo corredor, percebeu algo inesperado. Os funcionários a observavam com respeito. Alguns sorrindo. Outros discretamente curiosos. Mas todos educados. Ela respirou fundo antes de entrar na sala. A porta se abriu. E imediatamente várias pessoas se levantaram. — Bom dia. — Seja bem-vinda. — É um prazer conhecê-la. Laura respondeu com educação. Sentou-se na cabeceira da mesa. Mas o gestor administrativo ainda não havia chegado. — Ele está a caminho — explicou uma das assistentes. Alguns minutos se passaram. Então a porta abriu novamente. Laura virou o rosto automaticamente. E congelou. Por um segundo inteiro, seu cérebro demorou a processar o que via. O homem que entrou na sala parou também. Os olhos dele se arregalaram. Depois um sorriso lento surgiu em seu rosto. Ele caminhou até a mesa. Laura continuava completamente imóvel. Porque não podia ser coincidência. Não podia. Mas era. Diante dela… Estava Guilherme. O menino que ela havia esperado por meses. O primeiro beijo. A primeira esperança. O quase. Ele parecia um pouco mais velho agora. Mais maduro. Mas os olhos continuavam os mesmos. Ele se aproximou devagar. As pessoas na sala observavam curiosas aquele silêncio estranho entre os dois. Então Guilherme se levantou completamente da cadeira onde iria sentar. Abriu um sorriso leve. E disse: — Olha o que o destino me trouxe de volta. E naquele instante… Laura percebeu que talvez sua nova vida no Rio estivesse prestes a ficar muito mais complicada.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD