Sob flashes

1067 Words
Fazia três semanas. Três semanas desde que Eduardo Gates entregara o dossiê completo ao Ministério Público. Três semanas desde que mandados foram expedidos. Três semanas desde que o nome do Senador Villar começou a desaparecer das agendas oficiais. Agora ele estava foragido. A palavra rodava nos telejornais com gosto de escândalo. Corrupção. Lavagem de dinheiro. Fraude em contratos públicos. Possível envolvimento na morte de empresário. O nome Marcelo Sarkozy finalmente era pronunciado em voz alta. E com ele, o nome de Laura. Laura ainda não tinha voltado para casa. Ficava na mansão Gates, mas não no quarto de Henrique. Eles m*l tinham conversado depois da explosão. Orgulho ferido é um silêncio difícil de atravessar. Naquela manhã, Tereza desceu primeiro do carro. — Está pronta? Laura respirou fundo. — Não, mas eu não vou me esconder. Assim que abriu a porta do carro, o som veio como uma explosão. — Laura! Laura! Aqui! — Você sabia das denúncias? — Seu pai foi assassinado? — Está usando o sobrenome Sarkozy oficialmente agora? Os flashes cegaram por um segundo. Microfones avançaram. Câmeras quase tocando seu rosto. Tereza tentou segurar um deles. — Dá espaço! Mas era inútil. Alguém puxou o braço de Laura. Ela perdeu o equilíbrio por meio segundo. E então sentiu. Braços firmes ao redor dela. Henrique. Ele apareceu do nada. Ou talvez estivesse observando de longe. Sem dizer uma palavra, ele a puxou para perto, protegendo o rosto dela contra o próprio peito. — Dá licença — ele disse, frio. Os repórteres insistiam. — Henrique! Seu pai está financiando a investigação? — Vocês estão juntos por interesse? Henrique não respondeu. Apenas caminhou. Passo firme. Braço firme. Corpo entre ela e o mundo. Laura sentia o coração disparado. Não de medo. Mas da avalanche. Quando atravessaram os portões do colégio, os seguranças fecharam a entrada atrás deles. O barulho ficou do lado de fora. O silêncio interno foi quase ensurdecedor. Henrique soltou o rosto dela devagar. — Você está bem? Ela deu um passo para trás. — Você não pode fazer isso. Ele franziu o cenho. — Fazer o quê? — Decidir quando eu preciso ser protegida. Ele respirou fundo. — Eles estavam quase te derrubando. — Eu sei me defender. — Eu sei — ele respondeu, mais baixo. — Mas eu não ia deixar você enfrentar aquilo sozinha. Ela o encarou. Olhos ainda brilhando. — Você sempre acha que precisa estar na frente. — Porque eu sei como isso funciona. — E eu não? O silêncio caiu entre eles. Henrique passou a mão pelo cabelo, frustrado. — Laura… você virou notícia internacional. — Eu não pedi isso. — Eu sei. Ela deu um passo mais perto. — Mas você sabia que isso ia acontecer. Ele hesitou. — Eu sabia que quando a denúncia viesse à tona… — E mesmo assim você não me preparou. A mágoa estava ali, ainda viva. Ele sustentou o olhar dela. — Porque eu estava tentando te dar mais alguns dias de normalidade. Ela piscou. A raiva perdeu intensidade por um segundo. — Normalidade acabou no dia que meu pai morreu. A frase ficou entre eles. Pesada. Henrique respirou fundo. — Eu errei. Ela não esperava aquilo. — Eu achei que proteger era esconder, controlar a informação, decidir o momento certo. Ele deu um passo à frente. — Mas você não precisa de alguém que decida por você, você precisa de alguém que fique. Os olhos dela vacilaram. — E você ficou? — Eu nunca saí. O silêncio agora era diferente. Menos agressivo. Mais vulnerável. — Eu estava com medo — ele continuou. — Medo de perder você, medo de que quando soubesse de tudo, você olhasse pra mim e visse o filho do homem que poderia ter impedido isso anos atrás. Ela engoliu seco. — Eu não vejo isso. Ele deu um meio sorriso triste. — Eu via. Laura respirou fundo. — Eu fiquei com raiva porque você sabia antes de mim. — Eu sei. — Mas… — ela hesitou — …você estava lá, sempre. A tensão começou a ceder. Ele tocou o rosto dela, dessa vez devagar. Ela não se afastou. — Eu não quero guerra entre nós — ele disse. — Nem eu. Ela suspirou. — Só… não me exclui da minha própria história. — Nunca mais. Dessa vez, quando ele a abraçou, não foi para protegê-la dos flashes. Foi para se reconciliar. Ela apoiou a testa no peito dele. — Eu odeio que isso esteja acontecendo. — Eu também. — Mas eu não vou me esconder. Ele sorriu de leve. — Eu sei. A diretora os chamou na segunda aula. O semblante era sério, mas não hostil. — Eu entendo que vocês estão passando por algo muito difícil — ela começou. — Mas a presença da imprensa na porta da escola está criando um problema de segurança. Laura manteve a postura ereta. — Eu não controlo isso. — Eu sei, querida. Mas, até que a situação se estabilize, acredito que seja melhor vocês dois ficarem afastados por algumas semanas. Henrique franziu o cenho. — Afastados do colégio? — Temporariamente, aulas online, trabalhos enviados por e-mail, é uma medida de proteção. Laura sentiu o peso. Mais uma vez sendo afastada. Mais uma vez a vida pausada. — E se eu não concordar? A diretora foi gentil, mas firme. — Não é uma punição. É segurança. Henrique olhou para Laura. Dessa vez, não falou por ela. Esperou. Ela respirou fundo. Pensou nos flashes. Nos empurrões. No olhar assustado dos alunos mais novos. — Quanto tempo? — Até a imprensa perder o interesse. Laura quase riu. — Então talvez nunca. A diretora suspirou. — Escândalos são intensos… e curtos. Outros virão. Laura assentiu lentamente. — Certo. Quando saíram da sala, os corredores estavam silenciosos demais. Olhares curiosos. Sussurros. Henrique segurou a mão dela. — Você está pronta pra isso? Ela olhou para frente. — Eu não tenho escolha. Ele apertou os dedos dela. — Tem sim. Eu estou aqui. Ela olhou para ele de lado. — Dessa vez, comigo. Não na frente. Ele sorriu. — Combinado. Do lado de fora, os repórteres ainda gritavam nomes. Mas agora Laura caminhava diferente. Não era mais apenas a filha da vítima. Nem apenas a namorada do herdeiro Gates. Ela era Laura Sarkozy. E se o mundo queria assistir à queda de um senador… Ele também teria que assistir ao retorno do nome que tentaram apagar.
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