Fazia três semanas.
Três semanas desde que Eduardo Gates entregara o dossiê completo ao Ministério Público.
Três semanas desde que mandados foram expedidos.
Três semanas desde que o nome do Senador Villar começou a desaparecer das agendas oficiais.
Agora ele estava foragido.
A palavra rodava nos telejornais com gosto de escândalo.
Corrupção.
Lavagem de dinheiro.
Fraude em contratos públicos.
Possível envolvimento na morte de empresário.
O nome Marcelo Sarkozy finalmente era pronunciado em voz alta.
E com ele, o nome de Laura.
Laura ainda não tinha voltado para casa.
Ficava na mansão Gates, mas não no quarto de Henrique.
Eles m*l tinham conversado depois da explosão.
Orgulho ferido é um silêncio difícil de atravessar.
Naquela manhã, Tereza desceu primeiro do carro.
— Está pronta?
Laura respirou fundo.
— Não, mas eu não vou me esconder.
Assim que abriu a porta do carro, o som veio como uma explosão.
— Laura! Laura! Aqui!
— Você sabia das denúncias?
— Seu pai foi assassinado?
— Está usando o sobrenome Sarkozy oficialmente agora?
Os flashes cegaram por um segundo.
Microfones avançaram.
Câmeras quase tocando seu rosto.
Tereza tentou segurar um deles.
— Dá espaço!
Mas era inútil.
Alguém puxou o braço de Laura.
Ela perdeu o equilíbrio por meio segundo.
E então sentiu.
Braços firmes ao redor dela.
Henrique.
Ele apareceu do nada.
Ou talvez estivesse observando de longe.
Sem dizer uma palavra, ele a puxou para perto, protegendo o rosto dela contra o próprio peito.
— Dá licença — ele disse, frio.
Os repórteres insistiam.
— Henrique! Seu pai está financiando a investigação?
— Vocês estão juntos por interesse?
Henrique não respondeu.
Apenas caminhou.
Passo firme.
Braço firme.
Corpo entre ela e o mundo.
Laura sentia o coração disparado.
Não de medo.
Mas da avalanche.
Quando atravessaram os portões do colégio, os seguranças fecharam a entrada atrás deles.
O barulho ficou do lado de fora.
O silêncio interno foi quase ensurdecedor.
Henrique soltou o rosto dela devagar.
— Você está bem?
Ela deu um passo para trás.
— Você não pode fazer isso.
Ele franziu o cenho.
— Fazer o quê?
— Decidir quando eu preciso ser protegida.
Ele respirou fundo.
— Eles estavam quase te derrubando.
— Eu sei me defender.
— Eu sei — ele respondeu, mais baixo. — Mas eu não ia deixar você enfrentar aquilo sozinha.
Ela o encarou.
Olhos ainda brilhando.
— Você sempre acha que precisa estar na frente.
— Porque eu sei como isso funciona.
— E eu não?
O silêncio caiu entre eles.
Henrique passou a mão pelo cabelo, frustrado.
— Laura… você virou notícia internacional.
— Eu não pedi isso.
— Eu sei.
Ela deu um passo mais perto.
— Mas você sabia que isso ia acontecer.
Ele hesitou.
— Eu sabia que quando a denúncia viesse à tona…
— E mesmo assim você não me preparou.
A mágoa estava ali, ainda viva.
Ele sustentou o olhar dela.
— Porque eu estava tentando te dar mais alguns dias de normalidade.
Ela piscou.
A raiva perdeu intensidade por um segundo.
— Normalidade acabou no dia que meu pai morreu.
A frase ficou entre eles.
Pesada.
Henrique respirou fundo.
— Eu errei.
Ela não esperava aquilo.
— Eu achei que proteger era esconder, controlar a informação, decidir o momento certo.
Ele deu um passo à frente.
— Mas você não precisa de alguém que decida por você, você precisa de alguém que fique.
Os olhos dela vacilaram.
— E você ficou?
— Eu nunca saí.
O silêncio agora era diferente.
Menos agressivo.
Mais vulnerável.
— Eu estava com medo — ele continuou. — Medo de perder você, medo de que quando soubesse de tudo, você olhasse pra mim e visse o filho do homem que poderia ter impedido isso anos atrás.
Ela engoliu seco.
— Eu não vejo isso.
Ele deu um meio sorriso triste.
— Eu via.
Laura respirou fundo.
— Eu fiquei com raiva porque você sabia antes de mim.
— Eu sei.
— Mas… — ela hesitou — …você estava lá, sempre.
A tensão começou a ceder.
Ele tocou o rosto dela, dessa vez devagar.
Ela não se afastou.
— Eu não quero guerra entre nós — ele disse.
— Nem eu.
Ela suspirou.
— Só… não me exclui da minha própria história.
— Nunca mais.
Dessa vez, quando ele a abraçou, não foi para protegê-la dos flashes.
Foi para se reconciliar.
Ela apoiou a testa no peito dele.
— Eu odeio que isso esteja acontecendo.
— Eu também.
— Mas eu não vou me esconder.
Ele sorriu de leve.
— Eu sei.
A diretora os chamou na segunda aula.
O semblante era sério, mas não hostil.
— Eu entendo que vocês estão passando por algo muito difícil — ela começou. — Mas a presença da imprensa na porta da escola está criando um problema de segurança.
Laura manteve a postura ereta.
— Eu não controlo isso.
— Eu sei, querida. Mas, até que a situação se estabilize, acredito que seja melhor vocês dois ficarem afastados por algumas semanas.
Henrique franziu o cenho.
— Afastados do colégio?
— Temporariamente, aulas online, trabalhos enviados por e-mail, é uma medida de proteção.
Laura sentiu o peso.
Mais uma vez sendo afastada.
Mais uma vez a vida pausada.
— E se eu não concordar?
A diretora foi gentil, mas firme.
— Não é uma punição. É segurança.
Henrique olhou para Laura.
Dessa vez, não falou por ela.
Esperou.
Ela respirou fundo.
Pensou nos flashes.
Nos empurrões.
No olhar assustado dos alunos mais novos.
— Quanto tempo?
— Até a imprensa perder o interesse.
Laura quase riu.
— Então talvez nunca.
A diretora suspirou.
— Escândalos são intensos… e curtos. Outros virão.
Laura assentiu lentamente.
— Certo.
Quando saíram da sala, os corredores estavam silenciosos demais.
Olhares curiosos.
Sussurros.
Henrique segurou a mão dela.
— Você está pronta pra isso?
Ela olhou para frente.
— Eu não tenho escolha.
Ele apertou os dedos dela.
— Tem sim. Eu estou aqui.
Ela olhou para ele de lado.
— Dessa vez, comigo. Não na frente.
Ele sorriu.
— Combinado.
Do lado de fora, os repórteres ainda gritavam nomes.
Mas agora Laura caminhava diferente.
Não era mais apenas a filha da vítima.
Nem apenas a namorada do herdeiro Gates.
Ela era Laura Sarkozy.
E se o mundo queria assistir à queda de um senador…
Ele também teria que assistir ao retorno do nome que tentaram apagar.