O resto do nome

1145 Words
Henrique não bateu na porta. Ele entrou. Sônia estava sentada à mesa da cozinha, a caixa aberta diante dela, os documentos organizados em pilhas que pareciam pesar toneladas. Ela levantou os olhos quando ele se aproximou. — Ela precisa saber — ele disse. — Eu sei. — Mas eu quero estar aqui. Sônia o estudou por alguns segundos. Não como o filho de Eduardo Gates. Mas como o rapaz que passara a noite ao lado da filha dela. — Por quê? Henrique engoliu seco. — Porque quando ela desabar… eu não quero que ela pense que está sozinha. Sônia suspirou. — Ela pode odiar nós dois depois disso. — Eu aguento. Ela assentiu devagar. — Então fique. Laura chegou alguns minutos depois, ainda com o uniforme do colégio. Estranhou o silêncio. — O que aconteceu? Ela viu a caixa. Viu os papéis. Viu Henrique ali. O coração dela começou a bater diferente. — Mãe? Sônia respirou fundo. — Filha… você precisa ouvir tudo antes de reagir. Essa frase nunca termina bem. Laura olhou de um para o outro. — O que está acontecendo? Henrique deu um passo à frente, mas não tocou nela. — Seu pai não morreu em um acidente comum. O mundo pareceu inclinar. — O quê? Sônia começou. Contou sobre os contratos. Sobre o esquema. Sobre o senador. Sobre a denúncia que nunca aconteceu. Sobre a investigação que destruiu o nome deles. Laura não piscava. Não respirava direito. — Você está dizendo que ele foi…? Ela não conseguiu completar. Sônia assentiu. O silêncio que se seguiu foi ensurdecedor. — E vocês sabiam? Ela olhou para Henrique. Ele não mentiu. — Desde ontem. Algo quebrou ali. — Desde ontem? — a voz dela falhou. — Você sabia e não me contou? Henrique deu um passo à frente. — Eu precisava ter certeza— — Certeza de quê?! — ela explodiu. — De que eu não ia surtar? De que eu sou frágil demais? — Não é isso. — Então o que é?! Ela se virou para a mãe. — E você? Você sabia disso há anos?! Sônia sentiu a acusação como faca. — Eu suspeitava, mas não tinha provas, eu tentei proteger você. Laura riu, nervosa. — Mentindo? Sônia tentou tocar o braço dela. Laura se afastou. — Você deixou eu acreditar que éramos vítimas do destino, que foi azar, que foi Deus, que foi qualquer coisa menos alguém que precisava pagar! A respiração dela estava irregular. — Eu cresci achando que a gente perdeu tudo porque ele fez algo errado! Porque ele falhou! — Nunca — Sônia disse, firme. — Seu pai nunca falhou. Laura começou a chorar, mas não suavemente. Era um choro de raiva. — E o sobrenome? Sônia fechou os olhos. — O sobrenome Sarkozy ainda é seu. Laura ficou imóvel. — O quê? Henrique observava em silêncio. — Seu pai era Sarkozy, o nome Almeida foi adotado décadas atrás, existe patrimônio internacional, empresas, direitos que nunca foram legalmente anulados. Laura parecia ouvir uma língua estrangeira. — Então… eu não sou só Laura Almeida? — Você nunca foi “só” nada — Henrique disse baixo. Ela virou para ele. — Não faz isso, não agora. A mágoa era clara. — Você faz parte disso também, seu pai sabia, você sabia, todo mundo sabia menos eu. Henrique sentiu o peso da culpa. — Eu queria te proteger. Ela pegou a bolsa jogada sobre a cadeira. — Eu estou cansada de ser protegida. Sônia percebeu o movimento. — Para onde você vai? — Eu preciso respirar. Ela começou a colocar roupas dentro da bolsa com movimentos rápidos, desordenados. — Laura, fugir não resolve. — Eu não estou fugindo! — ela gritou. — Eu estou tentando não quebrar aqui na sua frente! O silêncio caiu pesado. Henrique se aproximou devagar. — Vem comigo. Ela o encarou. — Pra onde? — Pra minha casa. Ela hesitou. Orgulho. Raiva. Cansaço. — Eu não quero ficar aqui agora. Sônia sentiu o coração apertar. — Você vai ficar segura? Henrique respondeu antes de Laura: — Comigo, sempre. Sônia olhou para ele por longos segundos. Depois assentiu. — Vai, mas me liga. Laura pegou a bolsa sem abraçar a mãe. Isso doeu mais que qualquer acusação. A mansão Gates parecia maior naquele dia. Mais fria. Laura entrou sem olhar ao redor. Henrique tentou acompanhar, mas ela virou o rosto. — Eu preciso ficar sozinha. — Você não precisa. — Eu quero. Ele respeitou. Ela subiu direto para o quarto de Tereza. Tereza abriu a porta e congelou ao ver os olhos vermelhos da amiga. — O que aconteceu? Laura entrou e largou a bolsa no chão. — Meu pai não morreu por acaso. Tereza ficou imóvel. — O quê? E então Laura contou tudo. Entre lágrimas. Entre pausas. Entre frases interrompidas pela própria respiração. Falou sobre corrupção. Sobre Villar. Sobre o nome Sarkozy. Sobre Henrique saber antes dela. Tereza ouviu sem interromper. Quando Laura terminou, estava exausta. — Eu não sei quem eu sou agora. Tereza segurou as mãos dela. — Você é a mesma pessoa. — Não, eu sou filha de um homem que foi morto por poder, eu sou herdeira de algo que tentaram roubar, eu sou… outra pessoa. Tereza caminhou até a bolsa dela. — O que é isso? Laura puxou um envelope amassado. — A carta dele. Ela abriu com cuidado. A voz tremia ao ler. “Minha filha, Se você estiver lendo isso, significa que eu falhei em estar ao seu lado, e essa é a única coisa que realmente me dói. Nunca duvide da sua força, nunca aceite versões prontas da verdade. E, acima de tudo, nunca tenha medo do seu nome. Sarkozy não é apenas um sobrenome. É uma história de resistência. De reconstrução. De pessoas que perderam tudo e ainda assim se levantaram. Se algum dia tentarem diminuir você… lembre-se: você carrega muito mais do que eles imaginam. Com amor eterno, Papai.” Laura não conseguiu continuar. Tereza a abraçou. Dessa vez, Laura não resistiu. Chorou no ombro da amiga como não chorava desde o enterro. No andar de baixo, Henrique andava de um lado para o outro. Eduardo observava o filho. — Ela sabe? Henrique assentiu. — E me odeia um pouco agora. Eduardo respirou fundo. — Vai passar. Henrique olhou para o pai. — Ela não é uma peça nesse jogo. — Eu sei. — Então não transforme isso em uma vingança. Eduardo ficou em silêncio. Porque, no fundo, parte dele já tinha transformado. No quarto, Laura secou o rosto. — Eu não vou fugir — ela disse, finalmente. Tereza sorriu de leve. — Eu sei que não. Laura olhou para a carta nas mãos. — Se eles começaram uma guerra contra o meu pai… Ela respirou fundo. Os olhos já não eram apenas de dor. Eram de decisão. — Eles começaram com o sobrenome errado.
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