O cheiro de cloro sempre trazia uma estranha sensação de alerta.
Laura nunca tinha sido apaixonada por natação, mas sabia nadar bem. Muito bem. Cresceu passando as férias na casa da avó, onde o único passatempo era atravessar o rio como se fosse um desafio pessoal.
Mas ali não era um rio.
Era território.
E Gabriela já estava dentro da piscina quando Laura entrou no complexo aquático do colégio.
Maiô preto impecável. Óculos de marca apoiados na cabeça. Corpo relaxado, como se estivesse em um clube particular, não numa aula obrigatória.
As amigas estavam na borda, rindo alto demais.
Gabriela viu Laura antes mesmo de ela perceber.
E sorriu.
Não um sorriso aberto.
Um convite para guerra.
— Bom dia, novata — disse, a voz ecoando levemente no ambiente fechado.
Laura ignorou o tom e caminhou até o próprio armário.
Tereza, que estava ao lado, murmurou:
— Se ela começar, não deixa barato.
Laura respirou fundo.
— Eu não vou começar nada.
— Mas termina — Tereza completou.
O professor apitou, chamando os alunos para a borda.
— Hoje vamos fazer tempo livre e depois uma disputa em duplas — anunciou. — Quero ver quem realmente treinou nas férias.
Gabriela ergueu a mão.
— Professor, posso sugerir algo? — perguntou, doce.
Ele assentiu.
— Que tal uma competição individual? Acho mais justo medir desempenho assim.
O professor pensou por um segundo.
— Boa ideia. Vamos fazer uma prova de cinquenta metros livres. Melhor tempo vence.
Um murmúrio animado percorreu o grupo.
Gabriela tirou os óculos da cabeça e colocou com calma.
— Espero que você nade melhor do que parece — disse para Laura ao passar por ela.
Laura inclinou o rosto.
— Espero que você aceite perder.
As amigas de Gabriela soltaram um “uh” teatral.
O clima mudou.
Na borda da piscina, os nomes foram chamados.
Quando disseram “Gabriela Albuquerque” e “Laura Martins” na mesma sequência, o destino parecia estar se divertindo.
— Vocês duas na mesma bateria — anunciou o professor.
Claro.
Gabriela ajustou os óculos.
— Vamos ver quanto tempo dura sua fase.
Laura não respondeu.
Entrou na água.
A temperatura fria subiu pelas pernas, pelo tronco, pelos ombros. O barulho ao redor começou a se dissolver.
Ela conhecia aquela sensação.
Competição não era sobre força.
Era sobre foco.
Gabriela assumiu posição na raia ao lado.
Perfeita.
Confiante.
Convencida.
— Preparar…
O silêncio se instalou.
— Já!
O som do apito cortou o ar.
Laura mergulhou.
A água fechou ao redor do corpo como um mundo separado.
Ali não existia Gabriela.
Não existia Henrique.
Não existia colégio.
Só braçadas.
Ritmo.
Respiração controlada.
Ela não olhou para o lado.
Não precisava.
Sentia o deslocamento da água. O movimento da outra raia.
Nos primeiros vinte metros, estavam praticamente iguais.
Nos trinta, Laura aumentou o ritmo.
O corpo lembrava sozinho.
Braçada longa.
Virada limpa.
Empurrão forte na borda.
Quando emergiu na metade da piscina, ouviu os gritos.
— Vai, Gabi!
— Isso!
Mas também ouviu outro som.
— Laura!
Ela reconheceria aquela voz em qualquer lugar.
Henrique.
O coração acelerou — não por pressão.
Por combustível.
Nos últimos quinze metros, Gabriela forçou.
Laura percebeu.
O som da água ficou mais agressivo na raia ao lado.
Mas Laura não acelerou por desespero.
Acelerou por decisão.
E tocou a borda primeiro.
O apito soou novamente.
Laura levantou a cabeça, puxando o ar com força.
O professor olhou o cronômetro.
— Primeiro lugar: Laura Martins.
Silêncio.
Curto.
Pesado.
Depois murmúrios.
Gabriela segurou a borda com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.
— Quanto tempo? — ela exigiu.
O professor anunciou.
Era um tempo excelente.
Melhor do que o dela.
Gabriela tirou os óculos devagar.
O rímel à prova d’água não escondia a fúria nos olhos.
Laura saiu da piscina com calma.
Sem comemoração exagerada.
Sem provocação.
Apenas respirando.
Gabriela saiu logo depois.
— Parabéns — disse, mas a palavra parecia venenosa. — Não sabia que você tinha algum talento.
Laura pegou a toalha.
— Nem eu sabia que você não gostava de perder.
As amigas de Gabriela ficaram imóveis.
Henrique se aproximou, ainda de uniforme de educação física.
Ele não tocou Laura de imediato.
Mas o olhar dele dizia tudo.
Orgulho.
— Você foi incrível — ele disse baixo.
Gabriela ouviu.
Claro que ouviu.
— Foi sorte — ela disparou.
Laura virou o rosto devagar.
— Sorte não mantém ritmo.
O professor chamou a próxima bateria, encerrando o momento.
Mas o estrago estava feito.
Gabriela não estava acostumada a ser superada.
Muito menos na frente de uma plateia.
Muito menos por “a novata”.
No vestiário, o clima era diferente.
As meninas que antes apenas observavam agora olhavam para Laura com algo novo.
Respeito.
Gabriela estava de costas, trocando-se com movimentos bruscos.
— Competição não define ninguém — ela disse alto, para quem quisesse ouvir. — Consistência sim.
Laura fechou o armário.
— Concordo.
Gabriela virou.
— Você acha que ganhou alguma coisa hoje?
Laura a encarou sem pressa.
— Acho que ganhei exatamente o que estava em jogo.
— E o que estava em jogo? — Gabriela desafiou.
Laura deu um passo à frente.
Não agressiva.
Mas firme.
— Você tentando me fazer parecer menor.
Silêncio.
Gabriela riu, mas o som saiu tenso.
— Você se acha grande demais para quem acabou de chegar.
Laura inclinou levemente a cabeça.
— E você se acha dona demais para quem nunca teve nada confirmado.
A frase atingiu.
Direto.
Gabriela perdeu o sorriso.
— Cuidado — ela sussurrou.
— Você também — Laura respondeu.
E saiu do vestiário antes que a discussão virasse espetáculo.
Do lado de fora, Henrique estava esperando.
Ele segurou a mão dela automaticamente.
— Eu ouvi parte da conversa.
Laura ergueu uma sobrancelha.
— E?
— Você não precisa provar nada para ela.
Ela olhou para a piscina, onde Gabriela ainda estava parada, observando de longe.
— Eu não estava provando para ela.
Ele entendeu.
Ela estava provando para si mesma.
Que não seria intimidada.
Que não seria diminuída.
Que não seria substituível.
Henrique segurou o queixo dela com dois dedos, delicado.
— Eu não estou com você porque você ganha competições.
Ela sorriu de leve.
— Ainda bem.
— Eu estou com você porque você não abaixa a cabeça.
Gabriela viu o gesto.
Viu a proximidade.
Viu a i********e natural.
E algo dentro dela quebrou.
Não era sobre natação.
Nunca foi.
Era sobre controle.
E, pela primeira vez, ela não estava controlando nada.
Na saída do colégio, Gabriela entrou no carro importado que a esperava.
Bateu a porta com força.
— Dirige — ordenou ao motorista.
Mas enquanto o carro se afastava, ela olhava pelo retrovisor.
Laura e Henrique riam de alguma coisa.
Leves.
Conectados.
Sem perceber o tamanho da guerra que começava a se formar.
Gabriela não era do tipo que aceitava derrotas.
E aquela tinha sido pública.
Humilhante.
Imperdoável.
Ela pegou o celular.
Digitou uma mensagem.
“Precisamos conversar.”
E enviou.
O destinatário não era Henrique.
Era alguém que Laura ainda não conhecia.
E que mudaria o jogo.
Laura, por outro lado, caminhava de mãos dadas com Henrique sentindo algo diferente.
Não arrogância.
Não vingança.
Mas poder.
Ela não precisava diminuir ninguém para crescer.
E isso era o que realmente enfurecia Gabriela.
Porque Laura não estava competindo por atenção.
Ela simplesmente era suficiente.
E às vezes, para quem sempre teve tudo…
A coisa mais insuportável é encontrar alguém que não pode ser comprado.