Gabriela

919 Words
O nome dela surgiu antes da presença. — Você viu que a Gabriela voltou? — Depois do intercâmbio? — Coincidência demais ela voltar justo agora… Laura ouviu o nome sem dar importância no começo. Até ver. Gabriela não entrava nos lugares. Ela deslizava. Cabelo longo, perfeitamente alinhado, uniforme ajustado como se tivesse sido feito sob medida, bolsa de marca pendurada no braço como extensão natural do corpo. O tipo de garota que não precisava levantar a voz para ser notada. O colégio inteiro se reorganizava levemente quando ela passava. — Quem é? — Laura perguntou baixo para Tereza. Tereza fez uma careta quase imperceptível. — Problema. Laura arqueou a sobrancelha. — Explica. — Gabriela Albuquerque, o Pai é dono de metade das construtoras da cidade, a Mãe vive em evento beneficente, ela estudou aqui a vida inteira. Sempre foi… influente. — E? Tereza respirou. — Ela sempre gostou do Henrique. Laura sentiu algo pequeno e frio se instalar no estômago. — Gostou como? — Como quem nunca teve coragem de admitir, mas também nunca deixou ninguém chegar perto. Laura virou discretamente o rosto. Henrique estava alguns metros à frente, conversando com um amigo. E então aconteceu. Gabriela o viu. E sorriu. Não foi um sorriso aberto. Foi calculado. Ela atravessou o pátio direto até ele, como se Laura simplesmente não existisse. — Henrique — ela disse, a voz doce demais. Ele virou. Surpresa atravessou o rosto dele por um segundo. — Gabriela. Sem entusiasmo. Sem aproximação. Só reconhecimento. Ela o abraçou. Devagar. Demorado o suficiente para ser notado. Laura ficou imóvel. Henrique demorou um segundo — apenas um segundo — mas não correspondeu ao abraço na mesma intensidade. — Você voltou quando? — ele perguntou. — Ontem, pensei que você fosse me procurar. A frase saiu leve. Mas tinha intenção. Ele deu um meio sorriso educado. — Fiquei sabendo agora. Gabriela inclinou a cabeça. Foi aí que os olhos dela finalmente pousaram em Laura. Avaliação instantânea. Dos pés à cabeça. Sem pressa. Sem disfarce. — Você não vai me apresentar? — perguntou, doce. Henrique virou o corpo na direção de Laura imediatamente. — Laura, essa é a Gabriela. — Gabriela, essa é a Laura. Sem título. Sem explicação. Gabriela estendeu a mão. — Prazer. Laura apertou. O toque era frio. — Prazer. Silêncio. Aqueles segundos onde duas mulheres entendem exatamente o que está acontecendo sem que nenhuma precise dizer. Gabriela soltou primeiro. — Ouvi comentários interessantes hoje. Laura manteve o queixo erguido. — Comentários sempre existem. Gabriela sorriu de lado. — Verdade, principalmente quando algo inesperado acontece. Henrique respirou fundo. — A gente estava indo para aula. Tradução clara: a conversa acabou. Gabriela não insistiu. Mas antes de sair, deixou cair como quem não quer nada: — A gente precisa conversar, Henrique, temos coisas pendentes. E foi embora. Sem olhar para trás. Mas sabendo exatamente o efeito que tinha causado. — Ela é sempre assim? — Laura perguntou depois que Gabriela sumiu no corredor. Henrique passou a mão no cabelo. — Assim como? — Como se o mundo fosse extensão dela. Ele soltou um riso baixo. — Mais ou menos. — E vocês têm “coisas pendentes”? Ele olhou diretamente para Laura. — Não. Resposta rápida. Firme. Sem hesitação. Mas Laura percebeu algo ali. Não mentira. Mas desconforto. No intervalo, o ataque começou. Não direto. Nunca direto. Laura encontrou seu armário com um bilhete dobrado dentro. “Algumas pessoas não sabem o lugar que ocupam.” Sem assinatura. Não precisava. Tereza ficou vermelha de raiva. — Ela não perde tempo. — Você tem certeza que foi ela? — Laura perguntou. Tereza deu uma risada incrédula. — Ela nunca faz nada com as próprias mãos, mas faz acontecer. Como se convocada pelo pensamento, Gabriela apareceu no corredor, acompanhada de duas meninas que claramente orbitavam ao redor dela. — Laura, não é? — ela disse, parando perto demais. — Sou. — Fiquei pensando… você está se adaptando bem? A pergunta parecia gentil. Mas carregava algo afiado por baixo. — Estou. — Que bom, porque às vezes as pessoas confundem momentos com permanência. Laura sentiu o sangue esquentar. Mas não recuou. — Eu não costumo confundir o que é claro. Gabriela inclinou o rosto. — Espero que não. O sinal tocou. Ela se afastou como se nada tivesse acontecido. Mas o estrago estava plantado. Mais tarde, Laura viu Henrique discutindo baixo com Gabriela perto da quadra. Não parecia íntimo. Parecia tenso. Ela não ouviu as palavras. Mas viu o gesto. Gabriela tocou o braço dele. Ele se afastou. Não brusco. Mas definitivo. Quando ele percebeu Laura observando, caminhou direto até ela. — O que ela queria? — Nada importante. — Henrique. Ele suspirou. — Ela não está acostumada a ouvir não. Laura sentiu o coração apertar. — E você já disse não? Ele segurou o rosto dela, firme. — Eu estou com você. Mas Gabriela, do outro lado da quadra, assistia. E sorriu. Não era um sorriso de quem perdeu. Era de quem decidiu jogar. Naquela noite, Laura ficou olhando o teto do quarto mais tempo do que queria admitir. Ela confiava nele. Mas confiança não impede medo. E Gabriela não parecia o tipo que desistia. O celular vibrou. Mensagem de Henrique: “Você não tem nada a temer.” Laura sorriu fraco. Mas uma frase ecoava na cabeça dela. “Algumas pessoas não sabem o lugar que ocupam.” Gabriela achava que aquele lugar era dela. E quando alguém mimado acredita que algo lhe pertence… Ela não aceita perder.
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