O portão do colégio parecia maior do que Laura se lembrava.
Talvez fosse só impressão. Talvez fosse o nervosismo.
O uniforme novo ainda tinha aquele cheiro leve de tecido recém-passado, a mochila pesava mais do que deveria, e o coração… o coração batia como se estivesse prestes a atravessar o peito.
Primeiro dia.
Primeiro dia no colégio novo.
Primeiro dia depois de assumir o Henrique.
Ela respirou fundo antes de sair do carro.
Henrique já estava encostado no capô do próprio carro, como se aquela cena tivesse sido ensaiada, jeans escuro, camiseta branca, postura despreocupada demais para alguém que sabia exatamente o efeito que causava.
Ele sorriu quando a viu.
Não aquele sorriso de festa.
Não aquele sorriso provocador.
Um sorriso tranquilo. Seguro.
De quem escolheu.
Laura caminhou até ele sentindo os olhares começarem antes mesmo de chegarem ao portão, não era paranoia, era percepção, as meninas já cochichavam perto das escadas, dois meninos pararam a conversa no meio.
Henrique estendeu a mão.
Simples assim.
Sem espetáculo.
Sem anúncio.
Laura olhou para a mão dele por um segundo que pareceu longo demais, era um gesto pequeno, mas era público.
Ele nunca tinha feito aquilo com ninguém.
Ela sabia.
Todo mundo sabia.
Ela entrelaçou os dedos nos dele.
E foi nesse momento que o burburinho realmente começou.
— É ela?
— Não acredito.
— Ele tá de mãos dadas mesmo?
— Desde quando ele assume alguém?
A sensação foi estranha, parte dela queria encolher, outra parte queria erguer o queixo.
Henrique apertou a mão dela de leve.
— Está tudo bem? — ele murmurou.
Laura assentiu.
— Está.
E estava.
Eles atravessaram o pátio como se nada estivesse acontecendo, mas tudo estava, olhares seguiam, risadinhas surgiam e morriam no ar, uma menina loira que estava sentada na mureta literalmente parou de mastigar o chiclete.
Henrique não soltou a mão dela em nenhum momento.
Nem quando um amigo se aproximou.
— Então é sério mesmo? — o garoto perguntou, encarando Laura com curiosidade quase infantil.
Henrique respondeu antes que ela pudesse sentir o peso da pergunta.
— É.
Simples, direto.
Sem explicação.
Sem justificativa.
Laura sentiu o rosto esquentar, mas não era vergonha.
Era reconhecimento.
Tereza chegou dez minutos depois.
Ela vinha rindo de algo no celular, distraída, até levantar os olhos e congelar.
A cena estava bem na frente dela.
Laura.
Henrique.
De mãos dadas.
Não havia dúvida possível.
Tereza parou no meio do caminho, o sorriso morrendo devagar, ela sabia que eles estavam “próximos”. Sabia dos olhares, sabia dos encontros depois da festa.
Mas aquilo era diferente.
Aquilo era oficial.
E oficial significava que não era mais só uma fase.
Laura viu primeiro.
O sorriso dela mudou, não sumiu, mas ficou mais tenso.
Henrique seguiu o olhar dela e encontrou Tereza parada, rígida, absorvendo a cena.
Ele não soltou a mão.
Laura também não.
Tereza atravessou o pátio com passos calculados.
— Bom dia — ela disse, olhando primeiro para Laura.
— Bom dia — Laura respondeu.
O silêncio que veio depois tinha peso.
— Vocês dois… — Tereza começou, mas a frase ficou suspensa.
Henrique foi quem completou.
— A gente está junto.
Sem ironia.
Sem deboche.
Tereza piscou, como se precisasse de um segundo para reorganizar a própria expressão.
— Desde quando?
— Desde o aniversário — Laura respondeu, tentando manter o tom leve.
Os olhos de Tereza passaram pelos dedos entrelaçados.
Ela não estava brava.
Mas estava processando.
— E você não me contou? — perguntou, dessa vez olhando só para Laura.
Ali estava o ponto.
Não era Henrique.
Era a ausência de confidência.
Laura soltou a mão dele devagar, não por vergonha, mas porque aquela conversa era das duas.
— Eu ia contar — disse. — Só queria… viver primeiro.
Tereza cruzou os braços.
— Viver escondido?
Henrique respirou fundo.
— Não estava escondido.
— Não para você — Tereza rebateu.
Laura sentiu a tensão subir como um fio elétrico.
— Não foi contra você, Tê. Eu só… eu precisava ter certeza.
— Certeza de quê? — ela perguntou, mas já sabia a resposta.
Dele.
Deles.
De que não era só mais uma.
Tereza suspirou, passando a mão pelo cabelo.
— Você sabe que ele nunca assumiu ninguém, né?
— Eu sei — Laura respondeu.
— E isso não te preocupa?
Henrique deu um passo à frente.
— Eu estou aqui, Tereza.
Ela olhou para ele como se estivesse vendo pela primeira vez um lado diferente.
Não o garoto disputado.
Não o popular intocável.
Mas alguém decidido.
— Eu não vou machucar ela — ele disse.
A frase não foi dramática. Foi firme.
Tereza encarou Laura por mais alguns segundos.
E ali estava o conflito real.
Medo.
Medo de ver a amiga sofrer.
Medo de perder espaço.
Medo de que aquela nova fase criasse uma distância entre elas.
— Eu só não quero que você se perca. — Tereza disse, finalmente.
Laura suavizou o olhar.
— Eu não estou me perdendo.
Pela primeira vez, ela tinha certeza disso.
O sinal tocou, quebrando o momento.
Henrique segurou a mão dela de novo, naturalmente, como se aquilo já fosse parte da rotina.
E talvez fosse.
Eles caminharam pelo corredor sob olhares ainda curiosos, uma garota morena sussurrou algo no ouvido da amiga, claramente incomodada. Um grupo de meninos lançou olhares de aprovação para Henrique.
Mas ele não reagia a nada disso.
O foco dele estava nela.
Na forma como ela respirava.
No jeito como ela tentava parecer tranquila.
— Se ficar demais, a gente sai — ele murmurou perto do ouvido dela.
Ela sorriu de canto.
— Eu não vou fugir no meu primeiro dia.
Orgulho.
Ele gostava disso nela.
Na sala, o professor pediu silêncio enquanto os alunos escolhiam seus lugares, Henrique puxou uma cadeira ao lado da dele sem hesitar.
Mais cochichos.
Mais surpresa.
Laura sentou.
E, pela primeira vez desde que entrou no colégio, sentiu que o chão estava firme.
Não porque estava ao lado dele.
Mas porque ele estava ao lado dela.
Escolhendo estar.
— Senhor Gates, poderia retornar a sua sala por gentileza.— Laura sorriu, ele saiu, mas assim que o sinal do intervalo soou, ele a esperava na porta da sala.
No intervalo, Tereza se aproximou de novo.
Dessa vez sozinha.
— Posso falar com você? — perguntou para Laura.
Henrique assentiu antes mesmo de ela responder e se afastou, dando espaço.
Isso não passou despercebido por Tereza.
— Ele mudou — ela comentou.
Laura sorriu leve.
— Eu sei.
As duas caminharam até o jardim lateral, longe do barulho.
— Eu fiquei surpresa, tá? — Tereza admitiu. — Não foi raiva. Foi… medo.
— Medo de quê?
— De você se envolver mais do que ele.
Laura pensou por um segundo.
— Eu estou envolvida.
— E ele?
Laura olhou para o pátio, onde Henrique conversava com dois amigos, mas os olhos dele voltaram para ela em questão de segundos, quase automático.
— Ele também.
Tereza seguiu o olhar.
E viu.
Não era fachada.
Não era jogo.
Era atenção.
— Você está feliz? — perguntou, mais suave.
Laura não hesitou.
— Muito.
O silêncio que veio depois foi diferente do anterior.
Menos tenso.
Mais reflexivo.
Tereza suspirou.
— Então eu vou confiar em você.
Não nele.
Nela.
E aquilo significava mais do que parecia.
Quando o sinal do fim das aulas tocou, Laura saiu do prédio com a sensação de ter atravessado um campo minado e saído inteira.
Henrique estava esperando.
Como prometido.
Ele segurou a mão dela de novo.
Sem cerimônia.
Sem hesitação.
E dessa vez, os olhares ainda existiam, mas tinham perdido força.
Porque quando algo deixa de ser rumor e vira realidade, as pessoas se acostumam.
— Sobre hoje — ele começou, enquanto caminhavam até o estacionamento.
— O que tem?
— Eu não vou soltar sua mão.
Ela sorriu, sentindo o coração aquecer.
— Eu não pedi para soltar.
Ele parou antes de abrir a porta do carro.
Olhou para ela com aquela intensidade que sempre desestabilizava.
— Eu sei.
E ali, no meio do estacionamento, sob o céu claro da manhã que já virava tarde, ele a beijou.
Sem espetáculo.
Sem plateia.
Mas sem medo.
E pela primeira vez desde que tudo começou, Laura entendeu uma coisa:
Não era sobre ser a única que ele assumiu.
Era sobre ele escolher assumir.
E isso mudava tudo.