Graves Consequências

927 Words
Brasília, 02h17 da manhã. O telefone do senador Villar tocou pela segunda vez naquela noite. Ele já estava acordado. Homens como ele não dormiam depois de certos tipos de silêncio. — Eduardo — atendeu, direto. Do outro lado da linha, a voz era calma demais. — Seu filho esteve na rua da minha nora esta noite. Não foi pergunta. Foi sentença. O senador fechou os olhos por um segundo. — Eu já conversei com ele. — Conversar não foi suficiente. O tom de Eduardo não subia. Não precisava. — Foi uma imprudência juvenil. — Foi uma tentativa de intimidação. Silêncio. — A placa foi registrada — Eduardo continuou. — As imagens também. O senador sentiu o estômago afundar. — O que você quer? A resposta veio simples: — Que ele aprenda. Na casa de Laura, Henrique ainda estava sentado na beira da cama dela. Ela havia conseguido dormir depois de muito insistir. Mas o sono era leve. Inquieto. Ele observava o quarto simples. A parede com fotos da infância. Os livros empilhados na mesa. Aquilo era real. E ele tinha colocado perigo ali. O celular vibrou. Mensagem do pai: “Estou cuidando.” Henrique fechou os olhos. Ele sabia o que aquilo significava. Do outro lado da cidade, Augusto estava em seu quarto, andando de um lado para o outro. Gabriela havia saído do carro quase chorando mais cedo. Ela não tinha imaginado que aquilo tomaria aquela proporção. Ele também não. O telefone tocou. Número desconhecido. — Augusto Villar? — Quem é? — Estou ligando para informar que sua autorização de estágio no consórcio tecnológico foi revogada. Ele franziu o cenho. — O quê? — Decisão administrativa. A linha caiu. O telefone tocou novamente. — Senhor Augusto? Sua matrícula no programa internacional de intercâmbio foi suspensa até nova avaliação. Ele sentiu o sangue esquentar. Ligou para o pai imediatamente. — O que está acontecendo? Do outro lado, o senador não gritou. O que era pior. — Eu te avisei. — Ele não pode fazer isso! — Ele pode. Augusto ficou em silêncio. — Eduardo Gates não briga, ele reorganiza o tabuleiro. — Eu só queria assustar ela! — Você mexeu com a única coisa que ele não negocia. A linha ficou muda por alguns segundos. — Arrume suas malas — o senador disse por fim. — O quê? — Você vai passar uma temporada fora do país. Augusto entendeu. Não era punição. Era exílio estratégico. No Japão, Helena observava o marido encerrar mais uma ligação. — Foi necessário? — ela perguntou. Eduardo serviu-se de uísque. — Ele precisava entender que não está jogando com adolescentes. — E Henrique? Eduardo demorou um pouco antes de responder. — Ele vai me odiar por proteger demais. Helena caminhou até ele. — Ou vai entender que amor também exige força. Eduardo ficou em silêncio. Pela primeira vez, não era o empresário falando. Era o pai. De manhã, Laura acordou com Henrique ainda ali. — Você ficou a noite toda? — Fiquei. Ela sentou devagar. — Isso vai virar uma guerra? Ele respirou fundo. — Já virou. — Eu não quero que sua família destrua a dele por minha causa. Henrique segurou o rosto dela. — Não é por sua causa. É por escolha dele. Ela estudou o olhar dele. Ali não havia apenas proteção. Havia culpa. — Você sabia que seu pai tinha colocado segurança? Ele assentiu. — Desconfiei. — E não me contou. Ele desviou o olhar por um segundo. — Eu não queria que você se sentisse vigiada. Ela tocou o queixo dele, fazendo-o olhar de volta. — Eu prefiro a verdade. Ele respirou fundo. — Eu estou aprendendo. Ela sorriu de leve. — Eu também. O celular dela vibrou. Mensagem de Tereza: “Precisamos conversar. Urgente.” No colégio, o clima estava estranho. Gabriela não apareceu. Boatos circulavam. — Disseram que o filho do senador vai estudar fora. — Transferência imediata. — Algo grande aconteceu. Tereza encontrou Laura no corredor. — Ele vai embora. — Augusto? — Hoje à noite. Laura sentiu um peso estranho no peito. Não alívio. Mas compreensão. — Foi seu pai. Tereza não negou. — Ele cruzou uma linha. — Isso sempre termina assim? Tereza pensou por um segundo. — Quando envolve o sobrenome Gates… geralmente sim. Laura absorveu aquilo. Henrique se aproximou. — Está tudo resolvido. Mas o jeito como disse não soava leve. Laura segurou a mão dele. — Não quero que você vire alguém que resolve tudo destruindo. Ele ficou em silêncio. Porque, no fundo, ele sabia: Era assim que tinha sido criado. Naquela noite, um jatinho particular decolou discretamente. Augusto Villar olhava pela janela enquanto a cidade diminuía abaixo. Ele não parecia arrependido. Parecia ferido. E homens feridos, com poder e orgulho… Raramente esquecem. Na casa de Laura, o carro de segurança permanecia estacionado. Henrique estava ao lado dela na varanda. — Isso vai acabar um dia? — ela perguntou. Ele olhou para o horizonte. — Não enquanto eu carregar esse sobrenome. Ela apoiou a cabeça no ombro dele. — Então a gente aprende a carregar juntos. Ele a abraçou mais forte. Pela primeira vez, Henrique Gates entendeu algo que seu pai talvez nunca tivesse aprendido completamente: Proteger não é controlar. É permanecer. Mas longe dali, atravessando o oceano, Eduardo observava relatórios sendo fechados, contratos sendo ajustados e alianças sendo reafirmadas. O império estava intacto. O inimigo afastado. O filho seguro. Mas no fundo, uma pergunta silenciosa começava a surgir: Até onde ele iria para proteger esse amor? E, mais importante… Henrique faria diferente quando fosse sua vez de comandar?
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