Desculpas e confissões

1077 Words
A segunda-feira amanheceu diferente. Laura sentiu isso antes mesmo de sair da cama. Talvez fosse a tranquilidade depois do domingo na praia, talvez fosse o jeito como Henrique a deixou em casa na noite anterior, com um beijo demorado e uma promessa silenciosa no olhar. Ou talvez fosse só a falsa sensação de que as coisas estavam se encaixando. Ela não sabia que, no outro lado da cidade, uma conversa nada gentil havia acontecido naquela madrugada. No estacionamento do colégio, o carro preto da família Gates já estava parado. Henrique encostado na porta, braços cruzados, expressão fechada. Ele parecia pensativo. — Bom dia — Laura disse ao se aproximar. Ele ergueu os olhos, e a tensão suavizou imediatamente. — Bom dia. Beijou-a com naturalidade, sem esconder, sem pressa. Alguns alunos diminuíram o passo para observar. Ainda era novidade. Ainda era assunto. Mas havia algo diferente no olhar de Henrique naquele dia. Mais atento. Mais calculado. — Você está estranho — Laura comentou, enquanto caminhavam de mãos dadas pelo corredor. — Só pensando. — Em quê? Ele hesitou. — Meu pai me ligou ontem à noite. Laura parou de andar. — Ligou? — Perguntou do evento, e de você. Ela sentiu o estômago apertar levemente. — E o que você disse? — Que você é minha escolha. Ela respirou. — Ele ficou bravo? Henrique soltou um meio sorriso. — Meu pai não fica bravo, ele resolve. Antes que ela pudesse perguntar o que aquilo significava, uma movimentação no corredor chamou atenção. Gabriela vinha caminhando na direção deles. Mas não sozinha. O pai dela estava ao lado. Roberto Albuquerque era conhecido no meio empresarial, elegante, postura rígida, olhar sério demais para uma segunda-feira de manhã. O burburinho começou imediatamente. — O que está acontecendo? — Ela trouxe o pai? Gabriela parecia… menor. Não fraca. Mas contida. Henrique parou. Laura manteve o queixo erguido. Roberto se aproximou. — Henrique. — Senhor Almeida. O cumprimento foi formal. Frio. — Laura — ele completou, olhando para ela com respeito medido. — Senhor. Ele virou-se para a filha. — Fale. O silêncio no corredor ficou quase constrangedor. Gabriela respirou fundo. Os olhos encontraram os de Laura primeiro, havia orgulho ferido ali, mas também algo novo. Obrigação. — Eu… — ela começou, a voz menos firme do que de costume. — Quero me desculpar pelo que fiz. Ninguém respirava. — Passei dos limites, fiz comentários desnecessários, e… tentei criar situações. Ela não olhava para Henrique. — Foi imaturo da minha parte. Henrique permaneceu em silêncio. Laura observava cada microexpressão. Gabriela continuou: — Não vai acontecer de novo. O pai dela interveio. — Minha filha entende que atitudes têm consequências, espero que possamos encerrar qualquer m*l-entendido. Henrique respondeu primeiro. — Não houve m*l-entendido. O olhar dele era direto. — Houve escolha. Gabriela apertou os lábios. Laura deu um passo à frente, surpreendendo até Henrique. — Eu aceito o pedido de desculpas. Todos olharam para ela. — Mas não porque foi forçado — Laura continuou. — E sim porque eu não quero carregar rivalidade. Gabriela a encarou, surpresa. — Eu não sou sua inimiga — Laura completou. — Só não sou sua competição. O golpe foi elegante. E certeiro. O pai de Gabriela pareceu satisfeito com o encerramento. — Ótimo, então estamos entendidos. Ele colocou a mão nas costas da filha, conduzindo-a para longe. O corredor começou a voltar ao normal. Henrique virou-se para Laura assim que ficaram sozinhos. — Você não precisava aceitar. — Eu quis. — Ela tentou te humilhar. — E hoje ela foi humilhada o suficiente. Henrique observou-a por alguns segundos. — Você está diferente. — Eu estou aprendendo. Ele sorriu de leve. — Eu gosto dessa versão. No intervalo, Laura encontrou Tereza na arquibancada da quadra. A amiga estava distraída no celular. — Você viu o espetáculo da manhã? — Laura perguntou, sentando ao lado dela. Tereza levantou os olhos. — Vi,meu pai é eficiente quando quer. Laura ficou em silêncio por um segundo. — Foi ele, então. — Foi. — Henrique sabe? — Não. Laura absorveu a informação. Então tudo aquilo… as ligações… o controle. Tereza observou a amiga. — Você está assustada? — Um pouco. — Com o poder deles? Laura pensou antes de responder. — Com o quanto eu estou entrando nisso. Tereza ficou quieta por alguns segundos. Depois, um pequeno sorriso apareceu no canto da boca. — Falando em entrar em coisas… Laura estreitou os olhos. — O que você está escondendo? Tereza suspirou teatralmente. — Eu mantive contato com o Caio. Laura abriu um sorriso imediato. — Eu sabia! — Não sabia. — Eu vi o jeito que você olhou pra ele. Tereza revirou os olhos. — Ele é interessante. — Interessante como? — Diferente. Laura inclinou-se, curiosa. — Diferente bom? — Ele não sabe quem eu sou. — Como assim? — Ele sabe meu nome, mas não liga para o sobrenome. Laura ficou em silêncio por um instante. Aquilo era raro. — E isso mexeu com você. Tereza desviou o olhar para a quadra. — Talvez. — Vocês conversaram sobre o quê? — Sobre o mar, sobre pesquisa ambiental, sobre como ele quer criar um projeto de preservação independente. Laura sorriu. — Você está encantada. Tereza respirou fundo. — Ele me perguntou se eu já pensei em fazer algo que não fosse obrigação. Laura tocou o braço dela. — E você já? Tereza ficou alguns segundos sem responder. — Eu nunca tive essa opção. O silêncio entre elas foi mais profundo dessa vez. Laura segurou a mão da amiga. — Talvez agora você tenha. Tereza a olhou. — E você? Está preparada para tudo que vem com o Henrique? Laura pensou no discurso, no sócio, em Augusto, na ligação do pai dele, nas desculpas forçadas daquela manhã. Pensou no mar. Pensou no beijo. — Eu não quero o poder — ela disse devagar. — Eu quero ele. Tereza assentiu. — Então você vai precisar ser forte. Laura sorriu de leve. — Eu estou ficando. Do outro lado do pátio, Henrique observava as duas. Ele não sabia dos detalhes. Mas sabia que algo estava mudando. Gabriela mantinha distância. Augusto não havia aparecido. E o pai… estava mais presente do que nunca, mesmo do outro lado do mundo. Aparentemente, tudo estava sob controle. Mas controle demais sempre custa caro. E naquela escola, entre desculpas forçadas e novas conexões, alianças estavam sendo formadas. Algumas por amor. Outras por interesse. E o jogo… Estava apenas começando a ficar interessante.
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