A segunda-feira amanheceu diferente.
Laura sentiu isso antes mesmo de sair da cama.
Talvez fosse a tranquilidade depois do domingo na praia, talvez fosse o jeito como Henrique a deixou em casa na noite anterior, com um beijo demorado e uma promessa silenciosa no olhar.
Ou talvez fosse só a falsa sensação de que as coisas estavam se encaixando.
Ela não sabia que, no outro lado da cidade, uma conversa nada gentil havia acontecido naquela madrugada.
No estacionamento do colégio, o carro preto da família Gates já estava parado.
Henrique encostado na porta, braços cruzados, expressão fechada.
Ele parecia pensativo.
— Bom dia — Laura disse ao se aproximar.
Ele ergueu os olhos, e a tensão suavizou imediatamente.
— Bom dia.
Beijou-a com naturalidade, sem esconder, sem pressa.
Alguns alunos diminuíram o passo para observar.
Ainda era novidade.
Ainda era assunto.
Mas havia algo diferente no olhar de Henrique naquele dia.
Mais atento.
Mais calculado.
— Você está estranho — Laura comentou, enquanto caminhavam de mãos dadas pelo corredor.
— Só pensando.
— Em quê?
Ele hesitou.
— Meu pai me ligou ontem à noite.
Laura parou de andar.
— Ligou?
— Perguntou do evento, e de você.
Ela sentiu o estômago apertar levemente.
— E o que você disse?
— Que você é minha escolha.
Ela respirou.
— Ele ficou bravo?
Henrique soltou um meio sorriso.
— Meu pai não fica bravo, ele resolve.
Antes que ela pudesse perguntar o que aquilo significava, uma movimentação no corredor chamou atenção.
Gabriela vinha caminhando na direção deles.
Mas não sozinha.
O pai dela estava ao lado.
Roberto Albuquerque era conhecido no meio empresarial, elegante, postura rígida, olhar sério demais para uma segunda-feira de manhã.
O burburinho começou imediatamente.
— O que está acontecendo?
— Ela trouxe o pai?
Gabriela parecia… menor.
Não fraca.
Mas contida.
Henrique parou.
Laura manteve o queixo erguido.
Roberto se aproximou.
— Henrique.
— Senhor Almeida.
O cumprimento foi formal.
Frio.
— Laura — ele completou, olhando para ela com respeito medido.
— Senhor.
Ele virou-se para a filha.
— Fale.
O silêncio no corredor ficou quase constrangedor.
Gabriela respirou fundo.
Os olhos encontraram os de Laura primeiro, havia orgulho ferido ali, mas também algo novo.
Obrigação.
— Eu… — ela começou, a voz menos firme do que de costume. — Quero me desculpar pelo que fiz.
Ninguém respirava.
— Passei dos limites, fiz comentários desnecessários, e… tentei criar situações.
Ela não olhava para Henrique.
— Foi imaturo da minha parte.
Henrique permaneceu em silêncio.
Laura observava cada microexpressão.
Gabriela continuou:
— Não vai acontecer de novo.
O pai dela interveio.
— Minha filha entende que atitudes têm consequências, espero que possamos encerrar qualquer m*l-entendido.
Henrique respondeu primeiro.
— Não houve m*l-entendido.
O olhar dele era direto.
— Houve escolha.
Gabriela apertou os lábios.
Laura deu um passo à frente, surpreendendo até Henrique.
— Eu aceito o pedido de desculpas.
Todos olharam para ela.
— Mas não porque foi forçado — Laura continuou. — E sim porque eu não quero carregar rivalidade.
Gabriela a encarou, surpresa.
— Eu não sou sua inimiga — Laura completou. — Só não sou sua competição.
O golpe foi elegante.
E certeiro.
O pai de Gabriela pareceu satisfeito com o encerramento.
— Ótimo, então estamos entendidos.
Ele colocou a mão nas costas da filha, conduzindo-a para longe.
O corredor começou a voltar ao normal.
Henrique virou-se para Laura assim que ficaram sozinhos.
— Você não precisava aceitar.
— Eu quis.
— Ela tentou te humilhar.
— E hoje ela foi humilhada o suficiente.
Henrique observou-a por alguns segundos.
— Você está diferente.
— Eu estou aprendendo.
Ele sorriu de leve.
— Eu gosto dessa versão.
No intervalo, Laura encontrou Tereza na arquibancada da quadra.
A amiga estava distraída no celular.
— Você viu o espetáculo da manhã? — Laura perguntou, sentando ao lado dela.
Tereza levantou os olhos.
— Vi,meu pai é eficiente quando quer.
Laura ficou em silêncio por um segundo.
— Foi ele, então.
— Foi.
— Henrique sabe?
— Não.
Laura absorveu a informação.
Então tudo aquilo… as ligações… o controle.
Tereza observou a amiga.
— Você está assustada?
— Um pouco.
— Com o poder deles?
Laura pensou antes de responder.
— Com o quanto eu estou entrando nisso.
Tereza ficou quieta por alguns segundos.
Depois, um pequeno sorriso apareceu no canto da boca.
— Falando em entrar em coisas…
Laura estreitou os olhos.
— O que você está escondendo?
Tereza suspirou teatralmente.
— Eu mantive contato com o Caio.
Laura abriu um sorriso imediato.
— Eu sabia!
— Não sabia.
— Eu vi o jeito que você olhou pra ele.
Tereza revirou os olhos.
— Ele é interessante.
— Interessante como?
— Diferente.
Laura inclinou-se, curiosa.
— Diferente bom?
— Ele não sabe quem eu sou.
— Como assim?
— Ele sabe meu nome, mas não liga para o sobrenome.
Laura ficou em silêncio por um instante.
Aquilo era raro.
— E isso mexeu com você.
Tereza desviou o olhar para a quadra.
— Talvez.
— Vocês conversaram sobre o quê?
— Sobre o mar, sobre pesquisa ambiental, sobre como ele quer criar um projeto de preservação independente.
Laura sorriu.
— Você está encantada.
Tereza respirou fundo.
— Ele me perguntou se eu já pensei em fazer algo que não fosse obrigação.
Laura tocou o braço dela.
— E você já?
Tereza ficou alguns segundos sem responder.
— Eu nunca tive essa opção.
O silêncio entre elas foi mais profundo dessa vez.
Laura segurou a mão da amiga.
— Talvez agora você tenha.
Tereza a olhou.
— E você? Está preparada para tudo que vem com o Henrique?
Laura pensou no discurso, no sócio, em Augusto, na ligação do pai dele, nas desculpas forçadas daquela manhã.
Pensou no mar.
Pensou no beijo.
— Eu não quero o poder — ela disse devagar. — Eu quero ele.
Tereza assentiu.
— Então você vai precisar ser forte.
Laura sorriu de leve.
— Eu estou ficando.
Do outro lado do pátio, Henrique observava as duas.
Ele não sabia dos detalhes.
Mas sabia que algo estava mudando.
Gabriela mantinha distância.
Augusto não havia aparecido.
E o pai… estava mais presente do que nunca, mesmo do outro lado do mundo.
Aparentemente, tudo estava sob controle.
Mas controle demais sempre custa caro.
E naquela escola, entre desculpas forçadas e novas conexões, alianças estavam sendo formadas.
Algumas por amor.
Outras por interesse.
E o jogo…
Estava apenas começando a ficar interessante.