Entre lobos

1184 Words
O salão silenciou quando Henrique subiu ao palco. Laura o observava da lateral, o coração apertado de um jeito diferente, ele não era o garoto da moto, nem o menino impulsivo que a puxava pela cintura com desejo. Ali, ele era Henrique Gates. O herdeiro. O sobrenome pesava no ar. O terno escuro moldava o corpo com precisão, mas o que chamava atenção era a postura, ombros firmes, olhar direto, seguro. — Boa noite — a voz dele ecoou pelo salão com firmeza. — Em nome dos meus pais, agradeço a presença de todos… Ele falava sobre responsabilidade social, tecnologia, investimentos, futuro, não lia nada, sabia exatamente o que dizer. Laura sentiu orgulho. Não era apenas o homem que a beijava com intensidade, era alguém que sabia ocupar um espaço. E aquilo a assustava um pouco. Enquanto ele continuava o discurso, algumas pessoas se aproximaram dela para cumprimentá-la, sorrisos educados, perguntas discretas. — Você é a namorada dele, não é? Ela sorria, respondia com elegância, Tereza havia dado dicas rápidas antes de entrar: “Postura reta, não fala demais, olha nos olhos.” Ela estava indo bem. Até sentir um olhar diferente. Mais demorado. Mais invasivo. Quando virou o rosto, encontrou um homem jovem — talvez dois ou três anos mais velho que Henrique, terno claro, cabelo perfeitamente alinhado, sorriso treinado. Mas os olhos… Os olhos eram predatórios. Ele se aproximou devagar, como quem sabe que não precisa se apressar. — Então você é a garota que conseguiu o impossível. Laura manteve a compostura. — Não sei do que está falando. Ele estendeu a mão. — Augusto Villar, meu pai é o senador Villar. Não era uma apresentação inocente, era um aviso. Ela apertou a mão dele rapidamente. — Laura. — Eu sei. O jeito como ele disse aquilo fez um arrepio subir pela espinha dela. — Você roubou a cena hoje. Ela soltou a mão dele. — Não estou competindo com ninguém. Ele sorriu de lado. — Todo mundo aqui está. O discurso de Henrique continuava, mas Laura sentia como se estivesse isolada em uma bolha de tensão. — Você não parece pertencer a esse lugar — Augusto continuou. — E isso é o que mais chama atenção. Ela ergueu o queixo. — Talvez eu pertença mais do que você imagina. Ele inclinou levemente a cabeça, divertido. — Gosto de desafio. Antes que ela pudesse responder, uma voz conhecida surgiu atrás deles. — Augusto… que surpresa desagradável. Gabriela. Vestido vermelho chamativo, sorriso venenoso. Ela se aproximou como se fosse amiga íntima de ambos. — Não sabia que você tinha vindo, achei que estava em Brasília com seu pai. — Voltei ontem — ele respondeu, sem tirar os olhos de Laura. Gabriela percebeu. E aquilo foi combustível. — Já conheceu a Laura? — ela perguntou, teatral. — Ela é… novidade. Laura manteve a calma. — Prazer em te ver também, Gabriela. — Sempre um prazer ver alguém tentando subir de nível — Gabriela respondeu com doçura falsa. Augusto arqueou a sobrancelha. — Subir de nível? Gabriela fingiu arrependimento. — Ah… eu achei que você sabia. Henrique tem um histórico interessante com… experiências temporárias. Laura sentiu o golpe. Mas não reagiu. Não ali. Augusto observava cada microexpressão. — Temporária? — ele perguntou. Gabriela sorriu. — Ele nunca assume ninguém, nunca traz ninguém para eventos assim. É curioso, não acha? Augusto se aproximou meio passo de Laura. — Então você é especial… ou estratégica. Laura sustentou o olhar dele. — Eu sou suficiente, isso já basta. Gabriela mordeu o interior da bochecha, irritada por não conseguir desestabilizá-la. Henrique terminou o discurso sob aplausos. Laura sentiu o coração acelerar. Ela precisava sair dali. — Com licença — disse, tentando se afastar. Mas Augusto segurou delicadamente o braço dela. Firme demais para ser casual. — Ainda não terminamos de conversar. O sorriso dele não alcançava os olhos. Gabriela observava, satisfeita. Era isso que ela queria. Confusão, dúvida, escândalo. — Solte — Laura disse, firme. — Calma, eu só estou sendo educado. — Educação não envolve segurar alguém contra a vontade. O clima ao redor começou a mudar, algumas pessoas notaram a tensão. Augusto se inclinou um pouco mais perto. — Você devia escolher melhor suas alianças, a família Gates tem muitos inimigos. A ameaça era sutil. Mas real. Antes que Laura respondesse, uma mão firme pousou no braço de Augusto. — Eu acredito que ela já escolheu. Tereza. Elegante, postura impecável, olhar frio como vidro. Augusto soltou Laura imediatamente. — Tereza Gates, sempre vigilante. — Sempre estratégica — ela corrigiu. O sorriso dela não tinha calor algum. — Meu irmão está descendo do palco, imagino que não seja uma boa ideia ele encontrar você… tão próximo da namorada dele. Augusto sustentou o olhar por alguns segundos. Era um jogo de poder. — Só estava elogiando. — Faça isso à distância — Tereza respondeu. Gabriela percebeu que o plano estava escapando do controle. — Não precisa desse drama todo — ela disse, fingindo leveza. Tereza virou lentamente o rosto para ela. — Você está envolvida nisso? Gabriela engoliu seco. — Claro que não. — Ótimo, então recomendo que continue não estando. Henrique se aproximava. Os passos firmes, o olhar atento. Ele percebeu na hora que algo tinha acontecido. — O que está acontecendo aqui? Augusto abriu um sorriso impecável. — Nada demais, eu estava conhecendo sua… namorada. Henrique passou o braço pela cintura de Laura imediatamente. Protetor. — Conhecer já foi suficiente. O tom dele era baixo, perigoso. Augusto ajustou o paletó. — Nos veremos mais vezes, tenho certeza. Ele saiu devagar. Gabriela lançou um último olhar venenoso antes de segui-lo. Quando ficaram apenas os três, Henrique segurou o rosto de Laura. — Ele encostou em você? Ela hesitou por um segundo. — Já passou. Henrique fechou os olhos, controlando algo dentro de si. — Augusto Villar não é alguém com quem se brinca. Tereza cruzou os braços. — E muito menos alguém que aceita ouvir um não. Laura respirou fundo. — Eu não tenho medo. Henrique a olhou com intensidade. — Eu tenho. Ela tocou a mão dele. — Então confia em mim. Ele encostou a testa na dela rapidamente, num gesto íntimo demais para aquele ambiente formal. — Eu confio, só não confio neles. Tereza suavizou o tom. — A boa notícia é que você lidou bem. Laura olhou para ela. — Eu quase perdi a calma. — Mas não perdeu — Tereza respondeu. — E isso é o que importa. Henrique puxou Laura levemente para perto. — Você foi incrível. Ela sorriu, mas por dentro algo tinha mudado. O mundo dele não era só luxo e vestidos caros. Era política. Poder. Homens que achavam que podiam tocar, decidir, possuir. E, pela primeira vez, ela entendeu que estar ao lado de Henrique significava enfrentar mais do que fofocas escolares. Significava enfrentar lobos. Henrique beijou discretamente a mão dela. — Vamos embora. — Já? — Já. Enquanto saíam do salão, Laura percebeu algo: Gabriela não parecia frustrada. Parecia satisfeita. E Augusto, do outro lado do salão, ainda a observava. Aquilo não tinha terminado. Na verdade… Tinha apenas começado.
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