Entre Luzes e verdades

1295 Words
O vestido estava estendido sobre a cama como uma promessa. Laura passava os dedos pelo tecido com cuidado, como se tivesse medo de amassar algo que não lhe pertencia. Era elegante, de corte simples, mas sofisticado, azul profundo. Tereza tinha insistido que aquele tom fazia seus olhos brilharem. Mas não era o vestido que a deixava nervosa. Era o que aquela noite significava. Henrique iria apresentá-la oficialmente. Não como amiga. Não como companhia. Não como passatempo. Namorada. Ela respirou fundo quando ouviu a buzina do carro lá fora. Henrique nunca entrava buzinandoo, aquilo era intencional. ele queria que o mundo soubesse que estava ali por ela. Ela terminou de se arrumar, o coração acelerado, quando abriu a porta de casa, ele estava encostado na lateral do carro, de terno escuro perfeitamente ajustado ao corpo, o cabelo levemente bagunçado, como se não tivesse tentado demais. Mas ele sempre tentava. Os olhos dele percorreram cada detalhe dela, lentamente. — Você… — ele começou, mas parou. Engoliu em seco. — Eu não estava preparado pra isso. Laura sentiu o rosto esquentar. — Pra quê? Ele se aproximou, diminuindo o espaço entre os dois. — Pra te ver assim. — A voz dele estava mais baixa, mais verdadeira. — Você está linda demais. Ela sorriu de leve. — Eu estava com medo de não parecer… adequada. Henrique franziu o cenho. — Adequada? — É o mundo de vocês, Henrique, luxo, empresários, sobrenome importante, eu ainda sou a menina que pegava ónibus há 2 meses. Ele ergueu a mão e segurou o queixo dela com delicadeza. — Você não é “a menina que pegava ônibus”, você é a única mulher que entrou na minha vida e ficou. O tom dele mudou. — Você não está indo como convidada, está indo como escolha. O silêncio entre eles não era desconfortável, era cheio. Laura passou os braços pelo pescoço dele. — Você tem certeza disso? Ele fechou os olhos por um segundo, como se aquela pergunta tocasse algo profundo. — Eu nunca tive tanta certeza de alguém. E, pela primeira vez desde que se conheceram, Henrique não estava arrogante, não estava dominante, estava vulnerável. Ela o beijou primeiro. Um beijo lento, não apressado, não urgente, diferente das outras vezes. Havia entrega ali. As mãos dele desceram pela cintura dela, segurando-a com firmeza, mas também com cuidado, ele aprofundou o beijo, e o mundo pareceu diminuir ao redor deles. Não era só desejo. Era pertencimento. Quando se afastaram, ele encostou a testa na dela. — Promete uma coisa? — O quê? — Se em algum momento você se sentir desconfortável lá dentro… você me fala, eu largo tudo e vou embora com você. Ela sorriu. — Eu não quero que você largue tudo por mim. — Eu já larguei antes, e faria de novo. Ela percebeu que ele não estava falando apenas daquela noite. E aquilo a fez sentir algo que nunca tinha sentido antes: segurança. O salão do evento estava iluminado com lustres gigantes, taças tilintando, vozes baixas e elegantes, empresários, políticos, herdeiros. Henrique saiu do carro primeiro e deu a volta para abrir a porta dela. O gesto simples arrancou olhares. Quando Laura colocou a mão na dele, sentiu o burburinho começar. — É ela? — Ele está de mãos dadas? — Henrique Gates assumiu alguém? Ela manteve a postura, cabeça erguida. Tereza surgiu logo na entrada, com um sorriso contido. — Você está absurda de linda — sussurrou no ouvido de Laura. — Agora respira e deixa eles olharem. Henrique apertou a mão dela discretamente. Durante os primeiros minutos, ele a apresentou a algumas pessoas. — Essa é Laura, minha namorada. Ele fazia questão de dizer. Minha. Namorada. Não houve hesitação, não houve brincadeira, não houve tom de desafio. Era firme. E aquilo ecoou pelo salão. Laura começou a se soltar. Conversou com algumas senhoras da organização beneficente, elogiou o projeto, ouviu histórias, não parecia deslocada. Ela parecia natural. Henrique observava de longe em alguns momentos, o orgulho era visível, ele não interferia, não conduzia, apenas assistia. Até que algo mudou. Uma movimentação diferente perto da entrada. Um homem mais velho entrou acompanhado de dois seguranças. Laura não reconheceu, mas sentiu Henrique enrijecer ao lado dela. — O que foi? — ela murmurou. Ele não respondeu de imediato. Os olhos dele estavam fixos. — Ele não deveria estar aqui. — Quem? Henrique respirou fundo. — O sócio minoritário do meu pai, ele está negociando parte das ações enquanto meus pais estão no Japão. Laura sentiu o clima mudar. O homem se aproximou com um sorriso falso. — Henrique, não esperava te ver tão… acompanhado. Os olhos dele percorreram Laura de cima a baixo. Avaliando. Henrique deu um passo à frente, sutilmente protegendo-a. — Essa é Laura. — Ah… — o homem inclinou a cabeça. — A bolsista. O impacto foi imediato. Laura sentiu como se alguém tivesse jogado água fria nela. Bolsista. Ele sabia. Henrique ficou rígido. — Cuidado com o tom. O homem riu de leve. — Só estou constatando fatos. Seu pai ficaria curioso com suas prioridades. O silêncio ficou pesado. Laura olhou para Henrique. — Você… contou pra ele? Henrique negou com a cabeça. — Não. O homem continuou: — O investimento na escola foi interessante, estratégico até, mas misturar negócios com… emoções pode ser perigoso. Laura sentiu o chão tremer sob os pés. Então era isso. Não era apenas generosidade. Era investimento. Ela soltou devagar a mão de Henrique. — Laura… — ele murmurou. — Eu preciso de um minuto. Ela saiu do salão antes que ele pudesse impedir. No jardim externo, o ar estava mais frio, ela respirou fundo, tentando organizar os pensamentos. Não era sobre dinheiro. Era sobre escolha. Ela tinha sido escolhida? Ou patrocinada? Passos se aproximaram atrás dela. Henrique. — Olha pra mim. Ela virou devagar. — Você pagou a bolsa. Não era pergunta. Ele passou a mão pelo rosto. — Eu queria que você tivesse as mesmas oportunidades. — Ou queria me manter perto? O silêncio dele doeu mais que qualquer resposta. — Eu nunca quis te comprar — ele disse, finalmente. — Eu queria que você estivesse no mesmo lugar que eu, que não dependesse de ninguém pra isso. — Mas eu dependi de você. — Eu faria tudo de novo. Ela sentiu os olhos marejarem. — Você deveria ter me contado. — Eu tive medo. — De quê? Ele respirou fundo. — De você achar que eu estava fazendo caridade. Ela se aproximou. — Henrique… eu nunca precisei que você me salvasse. Ele segurou o rosto dela com as duas mãos. — Eu sei, é justamente por isso que eu me apaixonei. A palavra ficou entre eles. Apaixonei. Ele tinha dito. Sem ironia, sem fuga. Verdade. Laura fechou os olhos por um segundo. — Então não me protege do mundo escondendo coisas, me deixa enfrentar com você. Ele assentiu. — Eu errei. Ela tocou a mão dele. — Mas eu não vou fugir. Lá dentro, as vozes continuavam, o evento seguia. Henrique olhou para ela como se estivesse vendo além da noite. — Você ainda quer entrar comigo? Ela respirou fundo. E estendeu a mão. — Eu não sou a bolsista. eu sou sua escolha, e você é a minha. Ele entrelaçou os dedos nos dela. Quando voltaram ao salão, os olhares vieram de novo. Mas dessa vez, Laura não sentiu que precisava provar nada. Ela caminhava ao lado dele. Não atrás. Não como investimento. Mas como parceira. E, em algum lugar do salão, Gabriela observava com os olhos ardendo de inveja. A noite que era para consolidar status acabou consolidando algo mais perigoso: Sentimento. E agora, não era mais apenas luxo e desejo. Era amor começando a ganhar espaço. E isso… mudava todas as regras.
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