Domingo em família

933 Words
Hoje é um daqueles dias em que eu poderia dormir até mais tarde. Domingo. Silêncio deveria ser regra. Mas, como sempre, minha mãe começa a falar alto logo cedo, abrindo portas, mexendo nas panelas, andando pela casa como se o dia já estivesse no meio. Levantei só o suficiente para olhar o corredor. Provavelmente minha mãe já estava na cozinha. Fechei a porta devagar e voltei para a cama. Não faço ideia de como a Raiana continuava dormindo. — Tata, abre a porta, Tata! Suspirei. Pronto. Agora ninguém dorme mais. Minha prima tem cinco anos, veio passar uns dias na nossa casa, e ela tem uma habilidade impressionante de escolher exatamente o momento errado para aparecer. Levantei e abri a porta. — O que foi? Eu queria dormir mais um pouco. — Posso ficar com você? O jeito que ela fala sempre desmonta qualquer tentativa de irritação. — Vem. Mas fica quietinha, a Rai ainda tá dormindo. — Ela veio com você ontem à noite? Fechei a porta de novo e nós duas voltamos para a cama. — Veio, sim. Agora dorme, tá? Se não eu te expulso do quarto. Ela riu baixinho. — Eu vou dormir, Tata. Deitei abraçando ela. Por um momento, tudo ficou em silêncio. Dormimos por mais uma hora e meia. Quando acordamos de verdade, fomos escovar os dentes e descer para o café. — Bom dia, meninas — minha mãe disse, sorrindo. — Bom dia — respondi, ainda meio arrastada. Eu nunca acordo bem aos fins de semana. Sempre fico com a sensação de que poderia ter dormido mais, se a casa não acordasse antes de mim. — Bom dia, tia — Raiana disse, educada como sempre. Enquanto tomávamos café, pensei no computador. Pensei nele. Pensei na pequena bolinha verde do MSN que nunca coincidiu com a minha presença online. — Mãe, posso usar o computador um pouco? Eu já sabia a resposta, mas insistir às vezes me dava a falsa sensação de controle. — Agora não é hora, Laura. Você sabe. — Eu precisava mesmo. — Precisava pra quê? Já falei que aqui não é igual à casa da sua avó. Você não vai passar horas na frente daquele computador. Respirei fundo. As regras sempre me sufocaram um pouco. Não por serem absurdas, mas por serem muitas. Antes que eu retrucasse, Raiana entrou na conversa: — É que a gente tem um trabalho de Sociologia pra fazer. Olhei para ela surpresa. Ela nem piscou. — Mas vocês não são da mesma sala — minha mãe observou. — É em dupla, primeiro e segundo ano juntos. Minha mãe nos analisou por alguns segundos. Eu sustentei o olhar. Às vezes ela já vinha pronta para brigar, como se esperasse que eu estivesse sempre fazendo algo errado. — Então façam logo. Daqui a pouco seus avós chegam e eu não quero ninguém no computador. Subimos quase rindo. — E se sua mãe quiser ver o trabalho? — perguntei. — Relaxa. Tenho umas folhas na bolsa. Ela nem sabe qual é o tema. Enquanto ela buscava as folhas, liguei o computador. O som da internet discando parecia um ritual demorado, quase solene. Hoje parece absurdo imaginar esperar tanto para se conectar a alguém. Entrei no MSN. Olhei a lista inteira. Nada. Guilherme offline. De novo. — Eu acho que nunca vou conseguir falar com ele — murmurei. — Se for pra acontecer, vai acontecer — Raiana disse com naturalidade. Às vezes eu queria ter essa leveza. Entramos no Orkut. Atualizamos a página. E ali estava: data e horário da próxima teens. Meu coração acelerou. — Você vai, né? — Se meu pai deixar, eu vou. — Seu pai sempre deixa. — Nem sempre. Mas ele confia em mim. Confiança. A palavra ecoou dentro de mim. Ficamos ouvindo música no YouTube até minha mãe gritar avisando que meus avós tinham chegado. Desliguei o computador antes que ela viesse conferir. Raiana foi embora antes do almoço. Domingo na casa dela também tinha suas regras. O dia passou entre conversas de família, risadas e aquele cheiro de comida que parece sempre o mesmo. No fim da tarde, consegui mais alguns minutos no computador. Entrei no MSN. Guilherme tinha saído há três minutos. Fiquei olhando para a tela por um tempo maior do que gostaria de admitir. Depois fechei. Naquele momento, decidi que não ia mais correr atrás de coincidências. Se fosse pra acontecer, aconteceria. À noite, enquanto arrumava meu material para segunda-feira, pensei na próxima teens. Eu precisava ir. No dia seguinte, não fui à escola. Fiquei em casa. Limpei tudo. Organizei a cozinha. Fiz o almoço. Minha mãe gosta quando a casa está impecável. E eu sabia exatamente o que estava fazendo. Quando ela entrou, percebeu na hora. — O que você vai me pedir agora, Laura? — Nada, mãe. Eu só quis ajudar. Ela cruzou os braços. — Você nasceu de mim. Fala. Sorri. — Vai ter outra festa. Eu queria ir. Ela suspirou. — Eu não tenho dinheiro essa semana. Vou ver com seu tio, ele está por aqui. — Eu só preciso do dinheiro do convite. — Pede pra ele. Se ele deixar, você vai. Esperei o Rogério chegar. Antes de falar qualquer coisa, entreguei minha prova de Física. Nota alta. Ele analisou, assentiu e sorriu. — Continue assim. Respirei fundo. — Posso ir na festa? Eles trocaram um olhar rápido. — Pode. Mas porque está merecendo. Se suas notas caírem ou você mudar de comportamento, acabou. Assenti. Eu entendia o peso daquela condição. Ele me deu trinta reais. — O convite é quinze. — Fica com o resto. Agradeci.
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