Ressaca

980 Words
A primeira vez que fui para a escola de ressaca, eu achei que ninguém perceberia. Acordei com a cabeça latejando, como se alguém estivesse batendo dentro dela com um martelo pequeno e persistente. Minha boca estava seca, o estômago embrulhado e uma sensação estranha de cansaço que não era só físico. Eu tinha dormido pouco. Muito pouco. Quando cheguei em casa naquela noite, depois da casa do menino que nem lembrava o nome, eu ainda fiquei mexendo no celular. Rindo de fotos borradas. Respondendo mensagens que no dia seguinte eu m*l conseguiria reler sem sentir vergonha. O despertador tocou às 6:00. Eu quis morrer. — Laura! — minha mãe gritou da cozinha. — Vai se atrasar! Me levantei arrastando os pés. Me olhei no espelho e quase não reconheci meu reflexo. Olhos inchados. Pele opaca. Cabelo embaraçado. Passei corretivo em excesso, rímel para disfarçar o cansaço e amarrei o cabelo em um r**o de cavalo alto. Coloquei o uniforme e desci para o café. — Dormiu tarde? — minha mãe perguntou, me olhando por cima da xícara. — Tinha outro trabalho individual, demorou mais do que eu pensei. Mentira dita com facilidade assustadora. Ela assentiu. Eu senti um pequeno peso no peito. Mas passou rápido. Cheguei na escola sentindo o sol mais forte do que o normal. Cada barulho parecia amplificado. Cada risada era um eco dentro da minha cabeça. Na primeira aula, eu tentei prestar atenção. Não consegui. As palavras da professora pareciam atravessar a sala sem entrar em mim. Apoiei a cabeça na mão. Pisquei devagar. Minha visão embaçou por alguns segundos. — Laura? — ouvi meu nome ao longe. Levantei a cabeça rápido. — Oi? — Pode repetir o que eu acabei de explicar? Silêncio. Algumas risadinhas no fundo. Eu sempre fui a aluna que sabia responder. Naquele dia, eu não fazia ideia. — Eu… não entendi direito. A professora me olhou com uma expressão que misturava surpresa e decepção. — Preste mais atenção. Assenti. Mas cinco minutos depois, eu estava dormindo. Não foi intencional. Meu corpo simplesmente desligou. Acordei com a caneta caindo da minha mão e batendo na carteira. Mariana me cutucava. — Você está bem? — Estou. Mas eu não estava. No intervalo, sentei na escada do pátio com a Raiana. — Nunca mais eu bebo daquele jeito. — murmurei, apertando as têmporas. Ela riu. — Você fala isso toda vez. — Não, dessa vez foi sério. Ela abriu a mochila devagar e tirou uma garrafa de água. Ou pelo menos parecia água. Me entregou. — Dá um gole. Eu hesitei. — É cedo demais. — Relaxa. Ninguém vai perceber. Olhei em volta. Todo mundo conversando, rindo, vivendo a própria vida. Levei a garrafa até o nariz. O cheiro era fraco. Disfarçado. Dei um gole pequeno. Ardeu menos do que na primeira vez da minha vida. E, de alguma forma, a dor de cabeça pareceu diminuir. — Viu? — ela sorriu. Naquele momento, eu cruzei outra linha. Levar bebida para a escola não era só rebeldia. Era desafio. Na segunda aula, eu já estava mais leve. Não exatamente feliz. Mas solta. Despreocupada. Ri alto de uma piada que nem era tão engraçada. Falei coisas que normalmente eu filtraria. O Thiago, aquele menino que eu já tinha ficado algumas vezes, sentou do meu lado. — Você está diferente. — Todo mundo está me dizendo isso ultimamente. — Diferente como? Eu dei de ombros. — Melhor, talvez. Ele me olhou desconfiado. Eu não sustentei o olhar. No final da manhã, eu estava exausta de novo. A mistura de sono, álcool e culpa começava a formar algo estranho dentro de mim. Uma sensação de que eu estava me afastando de um lugar seguro e entrando num território que eu não conhecia direito. Quando o sinal tocou, eu saí rápido. Na saída, sentei no muro da faculdade como de costume. O grupinho da Raiana já estava lá. O Patrick fez um comentário qualquer sobre eu estar mais animada. Eu revirei os olhos e ri. Mas, por dentro, alguma coisa não estava confortável. Em casa, à tarde, eu fui direto para o quarto. Disse que estava com dor de cabeça. Não era mentira. Deitei na cama e fechei os olhos. Por alguns segundos, pensei no Guilherme. Não no beijo. Mas na versão minha que ele tinha visto. A menina tímida, nervosa, que m*l sabia dançar. Se ele me visse agora, com bebida escondida na mochila e sono acumulado nas aulas… o que ele pensaria? Balancei a cabeça afastando o pensamento. Ele nem estava na minha vida de verdade. Era só um quase. À noite, minha mãe entrou no quarto enquanto eu fingia estudar. — A professora ligou hoje. Meu coração parou. — Ligou? — Disse que você estava distraída. Que dormiu na aula. Minha garganta secou. — Eu estava cansada. — Cansada de quê, Laura? Eu não soube responder. Ela se sentou na ponta da cama. — Você sempre foi tão focada. Eu senti vontade de dizer a verdade. Dizer que eu estava tentando ser maior do que eu era. Que estava tentando sentir coisas novas. Que estava perdida. Mas eu disse: — Foi só hoje. Ela me olhou por mais alguns segundos. — Espero que sim. Quando ela saiu do quarto, eu fiquei encarando o teto. A ressaca já tinha passado. Mas a sensação de estar escorregando… não. Peguei o celular. Uma notificação qualquer. Nenhuma mensagem dele. Engraçado como, mesmo distante, ele ainda era uma referência invisível dentro de mim. Eu ainda não falava com ele. Mas, de alguma forma, parecia que eu estava me afastando de algo que ainda nem tinha começado. Fechei os olhos. E, pela primeira vez, a ideia de continuar naquele ritmo não parecia só divertida. Parecia perigosa. Mas no dia seguinte, quando a Raiana mandou mensagem perguntando se eu topava repetir a “água especial” na escola… Eu respondi: “Claro.”
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