Pequenas Mentiras

914 Words
No começo, parecia inofensivo. Era só dizer que eu estava na casa da Raiana quando, na verdade, estávamos na casa de outra amiga dela, ouvindo música alta demais e rindo de coisas que não teriam graça nenhuma se alguém adulto estivesse por perto. Era só esconder o cheiro do cigarro que vinha das outras pessoas. Era só lavar o rosto antes de chegar em casa. Era só apagar algumas conversas do celular. Era só. Tudo começou com pequenos “só”. Naquela sexta-feira, eu disse que precisava fazer um trabalho de grupo. Minha mãe nem questionou muito. Eu tinha boas notas, ajudava em casa, nunca tinha dado motivo real para desconfiança. Ela confiava em mim. E talvez fosse isso que tornava tudo pior. Eu fui até o quarto dela enquanto ela tomava banho. A bolsa estava em cima da cama. Eu não tinha planejado fazer aquilo quando acordei. Mas a Raiana tinha dito mais cedo: — A gente vai numa casa hoje, vai ter bebida, mas precisa levar pelo menos uns vinte reais pra ajudar. Eu não tinha dinheiro. O Rogério já tinha me dado o suficiente para a festa anterior. Eu não podia pedir de novo. Fiquei parada olhando para a bolsa por alguns segundos. Meu coração batia tão alto que eu tinha medo que minha mãe ouvisse do banheiro. “É só vinte reais”, pensei. Abri o zíper devagar. O cheiro do perfume dela escapou junto com o som metálico. Passei a mão entre a carteira, papéis, moedas soltas. Encontrei duas notas de dez. Minhas mãos suavam. Peguei. Fechei a bolsa. Saí do quarto rápido demais, como se estivesse fugindo de um crime. No meu quarto, sentei na cama e fiquei encarando as notas dobradas na minha mão. Não era sobre o dinheiro. Era sobre atravessar uma linha que eu nunca tinha atravessado antes. Mas quando a Raiana mandou mensagem dizendo que já estava me esperando na esquina, eu enfiei o dinheiro no bolso e fui. A casa era de um menino mais velho, amigo de um amigo. Eu nem sabia o nome dele direito. A música já dava pra ouvir da rua. O portão estava aberto. Entrei com o coração acelerado. Lá dentro, as luzes estavam apagadas, só uma lâmpada colorida girando no canto da sala. O cheiro era uma mistura de perfume doce, suor e bebida. — Finalmente! — a Raiana apareceu sorrindo, já com um copo na mão. Ela estava diferente. Sempre estava. Ali, naquele ambiente, ela parecia pertencer. Eu parecia visitante. — Trouxe? — ela perguntou baixo. Eu entreguei o dinheiro. Ela nem hesitou. Pegou e guardou no bolso do short. — Relaxa, você vai gostar. Eu não sabia do que exatamente ela estava falando. Mas minutos depois, eu estava com um copo na mão de novo. A primeira vez tinha queimado. Aquela já não queimou tanto. A terceira desceu fácil demais. Eu comecei a rir alto. Mais alto do que o normal. Comecei a dançar sem me preocupar se estava bonito ou ridículo. Comecei a sentir aquela sensação perigosa de que nada importava. Um menino tentou me beijar. Eu desviei. Não porque eu estivesse apaixonada por alguém. Mas porque alguma parte de mim ainda estava ali, intacta. A música aumentou. Alguém trancou a porta. Alguém gritou que os pais do dono da casa estavam viajando. A Raiana já estava sentada no colo de um cara que eu nunca tinha visto. Eu olhei aquilo tudo com um misto de admiração e desconforto. Eu queria ser livre como ela. Mas ao mesmo tempo, alguma coisa apertava dentro do meu peito. Quando deu quase meia-noite, eu percebi que precisava ir embora. Minha mãe achava que eu estava estudando. Peguei meu celular e mandei mensagem dizendo que estava terminando o trabalho. Mentira. Mais uma. Saí da casa meio tonta. A rua parecia inclinada. O ar da madrugada estava gelado no meu rosto quente. Enquanto caminhava até a esquina, senti algo estranho. Não era culpa exatamente. Era como se eu estivesse me afastando de mim mesma. Cheguei em casa devagar. Abri o portão sem fazer barulho. Entrei pela porta da cozinha. A luz da sala estava apagada. Meu coração quase saiu pela boca quando ouvi a voz da minha mãe: — Laura? Congelei. — Oi mãe… — tentei parecer normal. Ela apareceu no corredor, de pijama. — Já terminou o trabalho? — Já sim. Ela me olhou por alguns segundos. Eu prendi a respiração. — Está tudo bem? — Está, por quê? — Você está diferente. Eu ri nervosa. — Só estou cansada. Ela se aproximou e beijou minha testa. — Vai dormir. Entrei no quarto, fechei a porta e me encostei nela. Diferente. Ela tinha percebido. E aquilo me deu um medo que nem a bebida tinha conseguido apagar. Deitei na cama, o quarto girando levemente. Peguei o celular. Nenhuma mensagem importante. Nenhum sinal do menino do sorriso bonito. Por um segundo, eu pensei em como ele me veria ali. Naquela versão minha. Com cheiro de álcool escondido atrás de um chiclete. Mentindo. Roubando. Rindo alto demais. Mas afastei o pensamento. “Todo mundo faz isso”, eu repetia na cabeça. “É só uma fase.” Fechei os olhos tentando ignorar o peso no peito. Só que, no fundo, eu sabia. Não era só uma fase. Era o começo de alguma coisa que eu ainda não entendia. E talvez, naquele momento, eu já estivesse caminhando para longe da menina que ele conheceu na saída da escola.
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