Dia de sol e risadas

1265 Words
Luna Tavares acordou com o som das ondas quebrando na praia de Ipanema. Eram quase 11h da manhã de uma terça-feira rara, seu dia de folga completo no Velvet Shadow. Nenhum treino pesado, nenhum show, nenhuma maquiagem carregada.Apenas ela, sua cobertura e a liberdade que tanto amava. Esticou o corpo na cama king size, sentindo os músculos relaxados após o descanso. Vestiu um short confortável de algodão e uma camiseta oversized, prendeu os cabelos em um coque bagunçado e foi para a varanda. O sol brilhava forte, o mar estava calmo e azul-turquesa. Preparou um café da manhã simples: aveia com frutas, iogurte natural, torradas com abacate e suco de laranja fresco. Comeu devagar, olhando a vista, sentindo uma paz profunda. — Hoje eu mereço murmurou para si mesma, sorrindo. Depois do café, arrumou a cobertura um pouco. Organizou o closet, separou algumas lingeries e roupas de palco que precisavam de reparo e limpou o pole dance com cuidado, como se fosse um velho amigo. A dança era sua vida, mas até ela precisava de descanso.Por volta das 13h, recebeu uma mensagem no grupo das meninas: Sasha: “Meninas, hoje é dia de praia e fofoca! Luna tá livre né? Encontro em 40 min no posto 9?” Vicky: “Tô dentro! Levo a caipirinha de morango sem álcool pra gente.” Jade: “Eu levo o protetor e as chips de batata. Luna, confirma!” Luna respondeu com uma sequência de emojis de sol, praia e corações. Era exatamente o que ela precisava. Vestiu um biquíni preto simples, um vestido soltinho branco por cima, óculos escuros e chinelos. Pegou a bolsa de praia com livro, fone de ouvido e protetor solar e desceu.As quatro se encontraram na areia quente do posto 9. Sasha já havia estendido as cangas coloridas, Vicky trazia o cooler e Jade organizava os petiscos. Abraços apertados e risadas encheram o ar. — Finalmente um dia sem aquele cheiro de cigarro e uísque no cabelo! exclamou Sasha, jogando-se na canga. Luna riu, sentando-se no meio delas. — Vocês não fazem ideia de como eu precisava disso. Dormi até tarde, tomei café olhando pro mar… parece até que sou uma pessoa normal. Elas riram. Passaram protetor solar umas nas outras, pediram água de coco e começaram a colocar o papo em dia. Falaram sobre os shows da semana anterior, sobre o novo segurança do clube que era bonito mas burro, sobre o cliente que insistia em pedir música de funk antigo.Em determinado momento, depois de um longo suspiro, Luna decidiu abrir o jogo: — Meninas… tem um cara que tá me chamando pra shows particulares. Rico pra c*****o. Victor Kane. Vocês devem ter ouvido falar dele. Vicky ergueu as sobrancelhas. — O magnata da eletrônica? O bilionário solteiro que aparece nas revistas? Aquele mesmo? — Esse mesmo Luna confirmou, comendo uma batata chips. — Já fui duas vezes na mansão dele na Barra. Paga absurdamente bem. Mas o homem tá obcecado. Liga pro Roberto quase todo dia pedindo pra eu voltar.Manda flores pro camarim, mensagens indiretas… Ontem chegou um buquê enorme com um cartão dizendo que quer me ver “todos os dias que eu permitir”. Jade arregalou os olhos. — E ele é gostoso? Tipo, vale a obsessão? Luna deu de ombros, sorrindo. — É bonito sim. Alto, olhos verdes intensos, corpo de quem treina sério… Quarenta anos, mas daqueles bem conservados. O problema não é ele ser feio. O problema é que ele quer mais do que dança. Ele quer tudo. Fica me olhando como se eu fosse um troféu que ele precisa conquistar. Na segunda vez, depois do show, ele praticamente implorou pra eu ficar. Ofereceu dinheiro absurdo, disse que me dava o que eu quisesse. Sasha se apoiou nos cotovelos, interessada. — E você? — Eu disse não, óbvio Luna respondeu com firmeza. — Eu não sou acompanhante. Danço porque amo. Porque me sinto viva no pole. Não vou vender meu corpo só porque um rico tá com t***o. Ele ficou puto quando eu saí. Dá pra ver que não tá acostumado a ouvir não. Mas sabe o que é mais engraçado? Quanto mais ele insiste, mais eu gosto de dançar pra ele e ir embora. As meninas caíram na gargalhada. — Essa é a minha Luna! Vicky bateu palma. — Deixa o homem sofrer. Rico precisa aprender que nem tudo se compra. — Exatamente continuou Luna, bebendo água de coco. — Ele me disse que m*l conseguiu trabalhar pensando em mim. Que nunca viu ninguém dançar como eu. Mas eu não nasci pra ser mulher de magnata, morar em mansão e parar de viver a noite. Eu gosto da minha cobertura, gosto de acordar quando quero, de vir para a praia com vocês, de ter minha liberdade. Se ele quiser me ver, que continue pagando os shows. Mas nada além disso. Jade ficou pensativa. — E se ele insistir mais? Tipo, ficar chato? — Aí eu paro de aceitar os shows Luna respondeu com tranquilidade. — Não vou deixar ninguém invadir meu espaço. Já vivi o suficiente pra saber que liberdade não tem preço. Dinheiro ele tem, mas controle sobre mim? Zero. O papo fluiu naturalmente. Elas falaram sobre relacionamentos passados, sobre sonhos (Sasha queria abrir um estúdio de pole dance, Vicky sonhava em viajar pela Europa dançando), sobre as dificuldades da vida noturna e como se protegiam umas às outras. Depois de algumas horas na praia, foram almoçar num restaurante pé na areia. Pediram salada, peixe grelhado, arroz de coco e sucos naturais. Riram de histórias antigas do clube, tiraram fotos bonitas para o i********: (sem mostrar o rosto de Luna, que preferia manter certa privacidade) e fizeram planos para uma viagem juntas em breve. À tarde, caminharam pela orla, olharam vitrines de lojas e entraram em uma para experimentar roupas leves de verão. Luna comprou um novo conjunto de short e cropped confortável e um chapéu de palha. Sentiu-se leve, feliz, completa. Quando o sol começou a baixar, voltaram para a cobertura de Luna. Pediram delivery de poke e assistiram a um filme leve de comédia romântica na televisão enorme da sala. Deitadas no sofá grande, com edredom leve, as quatro continuaram conversando baixo. — Sério, Luna disse Sasha em certo momento. — Você merece alguém que respeite sua vida, não que tente mudar. Se esse Victor realmente gostar de você, vai ter que aceitar que você é dançarina e ama isso. — Eu sei Luna respondeu, olhando para o teto. — Por enquanto ele é só um cliente obcecado. Interessante, rico, intenso… mas só um cliente. Se virar algo mais, vai ter que ser nos meus termos. Senão, adeus. As meninas concordaram. Passaram mais uma hora rindo e conversando até Jade e Vicky pegarem um Uber para casa. Sasha ficou um pouco mais, ajudando Luna a guardar as coisas da praia.Quando finalmente ficou sozinha, Luna tomou um banho demorado, vestiu um pijama confortável e sentou na varanda com uma xícara de chá. Olhou as luzes da cidade e o mar escuro. O dia tinha sido perfeito. Sem pole, sem holofotes, sem homens ricos querendo possuí-la. Apenas amizade, sol, risadas e a lembrança constante de quem ela realmente era: Luna Tavares, dona de si mesma. Ainda assim, não conseguia deixar de pensar em Victor. Na intensidade daqueles olhos verdes. Na forma como ele a olhava dançando. Sabia que ele não iria desistir tão fácil. — Vamos ver até onde você aguenta, Kane murmurou, sorrindo sozinha. Mas por hoje, o mundo dele ficava longe. Hoje era o dia dela. E ninguém iria tirar isso
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