O olhar que procura

1326 Words
Victor Kane acordou às 5h47 em ponto, como todas as manhãs dos últimos quinze anos. A suíte master da sua mansão na Barra da Tijuca era um verdadeiro templo de luxo e solidão. O teto de dez metros de altura, a parede inteira de vidro temperado com vista panorâmica para o oceano, a piscina infinita que parecia mergulhar diretamente no mar, o closet do tamanho de um apartamento de classe média e a cama king size onde ele raramente passava a noite acompanhado. Ele se levantou nu. Aos 40 anos, seu corpo de 1,90m era uma escultura de disciplina: ombros largos, peito definido, abdômen marcado com os gomos perfeitos, braços e pernas fortes fruto de anos de treino rigoroso. A pele bronzeada contrastava com os fios grisalhos que começavam a aparecer nas têmporas, dando-lhe um ar ainda mais imponente e atraente. Victor era, segundo as colunas sociais do Rio, “o solteiro mais cobiçado da cidade”. Bilionário, charmoso, poderoso. E extremamente exigente. Tomou um banho gelado de dez minutos, sentindo a água fria despertar cada músculo. Vestiu um terno preto italiano feito sob medida, camisa branca impecável e gravata escura. Desceu para a academia particular da mansão, equipada com os melhores aparelhos importados. Uma hora e meia de treino intenso: supino, agachamento, deadlift, shadow boxe e finalizando com vinte minutos de cardio na esteira com vista para o mar. Enquanto socava o saco de pancada, o suor escorria pelo peito largo e pelas costas. Victor não treinava apenas pelo corpo. Treinava para manter o controle. Na vida, nos negócios e no prazer.Depois do treino, sentou-se na varanda da mansão com um café preto puro e um omelete de claras com abacate. A mansão era seu refúgio: mais de 1.200 metros quadrados, três andares, heliponto, cinema particular, adega com vinhos raros e uma sala de troféus com os prêmios que sua empresa havia conquistado. Tudo conquistado com suor, inteligência e uma ambição que muitos consideravam implacável. Victor Kane não nasceu rico. Cresceu em Niterói, em uma casa simples, filho de mãe costureira e pai que desapareceu quando ele tinha oito anos. Aos 18 anos, começou a estudar eletrônica à noite enquanto trabalhava como técnico de conserto. Aos 26, fundou a Kane Electronics com um pequeno empréstimo. Hoje, a empresa era uma multinacional de componentes eletrônicos e semicondutores, com fábricas no Brasil, China, Alemanha e EUA. Faturamento anual na casa dos bilhões de dólares. Seu nome era respeitado,e temido, no mundo dos negócios. Às 8h30, o motorista o levou até a sede da Kane Electronics na Avenida das Américas. O prédio de vidro e aço era um símbolo de poder. O dia foi corrido: videoconferência com a diretoria da China sobre novos chips para veículos elétricos, reunião com investidores, análise de aquisições e decisões estratégicas que movimentavam milhões. Victor era direto, exigente e não tolerava incompetência. Seus funcionários o admiravam e o temiam na mesma medida. No intervalo do almoço, enquanto comia salmão grelhado em sua sala privativa, Victor permitiu que a mente vagasse para o que realmente o inquietava: o vazio. Ele tinha tudo. Dinheiro. Poder. Mulheres lindas que se jogavam aos seus pés. Mas nada preenchia o buraco. Especialmente no quesito prazer. Há quase dois anos, Victor havia começado a contratar dançarinas particulares. Pagava fortunas, dez, vinte, trinta mil reais por noite. Mandava jatos buscar as melhores profissionais de Las Vegas, Miami, São Paulo e até Europa. Mulheres com corpos perfeitos, técnicas impecáveis. Mas todas tinham o mesmo defeito: dançavam por dinheiro.Movimentos mecânicos. Olhares ensaiados. Gemidos falsos. Sorrisos plásticos. Elas rebolavam, tiravam a roupa, se esfregavam no ar, mas não havia fogo verdadeiro. Não havia alma. Victor percebia na hora. Depois de meia hora, ele já mandava parar e pagava mesmo assim. Nenhuma conseguia excitá-lo de verdade. — Elas não amam a dança murmurava frequentemente para si mesmo. — Amam o dinheiro. O que Victor desejava era raríssimo: uma mulher que dançasse porque o corpo exigia. Porque a música corria em suas veias. Porque o movimento era sua forma de respirar, de gozar, de existir. Alguém autêntica, selvagem, incontrolável.Por volta das 18h10, seu amigo e sócio minoritário, Rafael Mendes, entrou na sala executiva sem bater, com um sorriso sacana no rosto. — Victor, cara, você precisa conhecer o Velvet Shadow. Eu fui ontem com uns investidores gringos. Aquele clube é outro patamar. As dançarinas não são aquelas profissionais frias que você costuma chamar. Elas amam o que fazem. Principalmente uma: Luna Tavares. A rainha do lugar. Morena, corpo escultural, curvas que parecem esculpidas, flexibilidade absurda e, o mais importante: quando ela dança, parece que está transando com o pole. Não é teatro. É real. A mulher goza de verdade no palco. Victor ergueu os olhos do notebook, interessado pela primeira vez em semanas. — Luna Tavares? — Isso. Dizem que ela é dura na queda. Recusa propostas de programas mesmo com fortunas em cima da mesa. Só dança. Treina todo dia, vive pra isso. O clube fica lotado quando ela sobe no palco. Victor ficou em silêncio por alguns segundos, tamborilando os dedos na mesa de mogno. Seus olhos verdes brilhavam com uma intensidade nova. — Me passa o telefone desse clube. Rafael riu, surpreso. — p***a, você não perde tempo mesmo. — Eu não gosto de perder tempo com o que não me interessa. Assim que Rafael saiu, Victor pegou o celular e ligou para o número anotado. Eram 18h47. Roberto, o dono do Velvet Shadow, atendeu no terceiro toque. — Boa noite. Aqui é Victor Kane. Quero contratar um show particular com a melhor dançarina de vocês. Luna Tavares. Roberto hesitou do outro lado da linha. — Sr. Kane… Luna é nossa principal atração. Ela raramente faz shows particulares. Prefere o palco do clube. Victor falou com voz calma, mas firme: — Eu pago cinco vezes o valor normal do show dela. À vista. Hoje à noite, se possível. Mansão na Barra. Carro com motorista busca e leva ela de volta. Sem pressão, sem toque forçado. Quero apenas a dança. Se ela for tão boa quanto me disseram, terá total liberdade. Houve um longo silêncio. — Vou falar com ela agora mesmo e retorno em dez minutos, senhor. Victor desligou e se levantou, caminhando até a enorme janela da sala. O sol se punha sobre o Rio de Janeiro, pintando o céu de tons alaranjados e roxos. Pela primeira vez em muito tempo, sentiu uma verdadeira expectativa subir pelo corpo. Não era só t***o físico. Era curiosidade profunda. Queria ver se essa Luna era diferente. Se ela dançava com a alma, não com a conta bancária.Enquanto esperava a resposta, pensou no tipo de mulher que realmente o atraía. Ele não queria submissas fáceis. Queria desafio. Queria fogo. Queria uma mulher que o fizesse sentir vivo, que não se dobrasse ao dinheiro ou ao poder. Alguém que amasse sua própria liberdade tanto quanto ele amava a dele. O telefone tocou às 18h59. — Sr. Kane? Luna aceitou o show para hoje. O carro pode buscá-la em aproximadamente uma hora e meia. Mas ela deixou bem claro: regras rígidas. Sem toque a menos que ela permita. Ela é dançarina, não acompanhante. Victor sorriu devagar, um sorriso predador. — Perfeito. Diga a ela para trazer o conjunto vermelho que usou recentemente. Quero vê-la exatamente como ela é quando domina o palco. Ele desligou e respirou fundo. Mandou preparar a mansão: luzes indiretas quentes no grande salão, champanhe Dom Pérignon gelado, uísque Macallan 25 anos e a playlist sensual que ele mesmo havia criado com batidas graves e lentas. Sentou-se novamente na cadeira, olhando o mar que escurecia. O coração batia um pouco mais forte, algo raro para um homem que controlava impérios. Pela primeira vez em anos, Victor Kane sentia que talvez tivesse encontrado algo autêntico. Alguém capaz de acender nele um desejo que o dinheiro nunca conseguira comprar. Luna Tavares ainda não sabia, mas sua vida estava prestes a mudar. E a dele também.
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