Haviel estava inquieto no banco do motorista, olhava para mim vez ou outra com perguntas em seus olhos esverdeados, mas não abria a maldita boca para verbalizar nenhuma delas. Eu podia lidar com o silêncio absurdo de meu irmão, com os olhares, mas não com seu julgamento. Ele ficou sabendo sobre o que aconteceu entre mim e Christiel logo que pisamos dentro de casa na noite anterior, a essência angelical do arcanjo estava me rondando como um farol de navio. Houve um pequeno sermão sobre os riscos que eu corri bebendo um sangue repleto de graça divina, que praticamente ninguém sobreviveria a isso e se tivesse me perdido pela imprudência de Christiel iria ter que matar um ser de sua própria raça. Isso não durou mais que três minutos, então ele se trancou no quarto até de manhã e desde então não tem dito uma palavra se quer conforme o maldito trânsito avança como uma lesma.
— Estou viva, Haviel, e bem. — murmurei. Não havia sentido nada tão estranho em meu corpo com a essência de Christiel, exceto o chute extra em magia. Estava realmente bem, preocupação se tornava desnecessária. — Pare de me olhar desse jeito.
— Você ainda está brilhando, como um maldito ouro em volta do próprio corpo. Já vi auras amarelas, brancas, esverdeadas... Mas dourada é a primeira vez. Sua aura não costuma brilhar assim, ela geralmente és em um tom de azul profundo quase preto. — pisquei algumas vezes enquanto tentava absorver aquilo, eu estaria mesmo brilhando dessa forma?
— Todos conseguem ver?
— Não, apenas anjos e demônios, presumo.
Desviando meu olhar para o porta luvas, tirei de lá uma caixa de chicletes sabor morango e comecei a mastigar um deles. Não estava pronta para esse tipo de pensamento. Beber do sangue dele havia me banhado em sua aura, não era comum, não costumava absorver qualquer energia extra de outras espécies, já que não me alimentava exclusivamente de humanos. Absorver a cor e a essência da aura de Christiel era quase assustador naquele momento. Um demônio poderia me confundir com um novo anjo, ou me ver como um alvo a ser eliminado. Tentei desviar os pensamentos para qualquer outra coisa naquele lugar, mas tudo sempre voltava para ele e sua maldita raça.
— Ele sabia que isso iria acontecer?
— Ele deixou algum indício disso? Tem algumas formas de um celestial marcar alguém, mas teria que haver motivos bastante extremistas para isso.
— Ele disse que ninguém iria me tocar.
Haviel freou o carro tão bruscamente que se o cinto não estivesse no lugar eu teria voado pelo parabrisa. Os carros atrás de nós começaram a buzinar loucamente, xingavam em alta voz e só amenizaram as ameaças quando ele voltou a dirigir. Suas mãos estavam apertadas contra o volante, achei que ele quebraria aquele negócio e jogaria no primeiro que o xingasse uma próxima vez.
— Qual o seu problema? — perguntei, embora já imaginasse a real resposta.
— Nenhum, mas alguém terá um problema muito em breve.
— Não diga que vai simplesmente confrontar o prefeito sobre algo que não lhe convém?
— Irei confrontar Christiel de arcanjo para arcanjo, sobre algo que me convém, você é minha irmã e se ele pensa por um mínimo segundo que vai lhe envolver nas próprias merdas, está muito enganado!
— Deixe-o em paz, tenho certeza que não era o desejo dele deixar sua essência fluir pelo sangue, provavelmente perdeu o controle ou a culpa foi realmente minha.
Concluí, mas nem por um segundo tive certeza que Haviel ouvia. Ele estava determinado a levar isso a diante como se eu fosse alguma princesa em perigo. Não queria acreditar que Christiel faria algo de propósito, ou que me marcaria apenas para fins egoístas ou na intenção d me envolver em algum problema apenas dele. Mas, isso era aquela parte irracional de mim que sempre se voltava para ele, sempre deitava aos pés de um sentimento que não conseguia reconhecer.
O carro parou em frente ao Departamento de Polícia e eu desci em modo automático não prestando atenção para qual lado Haviel dirigiu após me dar carona para o trabalho. Minha cabeça começava a dar sinais de uma dor quando passei pela recepção e segui diretamente até a copa, precisava de café. No meio do caminho era notório a agitação da equipe por alguma notícia que Wesley tentará me contar por ligação e a qual eu não prestei nenhuma atenção, o caso se estendia mais do que gostaríamos e já estava bastante evidente que havia muito do sobrenatural envolvido. Tentamos sempre manter nossa existência separada dos humanos, evitar que eles descubram as forças mágicas que residem ao seu redor, mas seria possível mesmo fazer essa repartição daqui para frente? Encobrir assassinados leves era fácil, um serial kiler, um aluno em surto, mas essa onda de rastros macabros não parece estar escondendo nada do que somos, aí está o perigo.