Sentidos

1282 Words
Seus lábios redondos se esticaram em um sorriso torto e matreiro enquanto seus olhos verde-dourados avaliavam minha reação, seu polegar desenhando um caminho tentador pelo queixo anguloso. — E então? Vê algo que goste? Não tenho certeza se gaguejei ou pisquei, mas no próximo segundo, me lembrei de fechar a boca escancarada. Enfiei as mãos nos bolsos traseiros do jeans surrado enquanto pensava em algo inteligente para dizer, o que raramente acontecia nessas situações. — Ahn... como você sabia que eu estava aqui? Como eu ia dizendo... Ele ergueu uma das sobrancelhas escuras, seus olhos deslizando sobre mim enquanto piscava maliciosamente, brincando com as adagas de forma distraída. — Por que eu sempre sinto você. — ele deu de ombros — Da mesma forma que sinto meus dedos ou qualquer outra parte do meu corpo. A comparação me fez piscar por alguns momentos, ainda tonta pela for ma constante com a qual sua mente se embolava na minha, como duas serpentes se 14 Caminho das Estrelas II ESFERA Christyenne A.C. enrodilhando e lutando por território. Eu não lembrava do momento em que havia retirado bloqueio dela, mas a sentia se abrir para o garoto cataclista da mesma forma que uma flor se abria para o orvalho, na promessa de um pouco de vida e essência. Estava além de meu poder o domínio detê -la naquele momento. Da mesma que estava além de meu domínio deter á mim mesma. Quando foi mesmo que me perdi? Mais o menos no momento em que me achei. Não houve exatamente um intervalo de tempo válido em que me decidir. — Como isso acontece? — E quem é que se importa? Eu gosto. Ponto final. Dane-se o resto, se existe algum. — ele sorriu, dando um passo á frente e estendendo uma das mãos — Venha. Vamos ver o quanto você é boa com arremessos. Ensaiei uma careta, analisando as lâminas enterradas na madeira branca vermelha. — Se quer mesmo saber, posso te adiantar sem a necessidade de um teste: sou muito melhor cantando o hino nacional em árabe e fazendo equilibrismos em cima de uma corda bamba. Ele estreitou os olhos em minha direção. — Você não está com medo de ficar sozinha comigo, está? — Eu já fiquei sozinha com você antes. — Antes, eu ainda não podia te tocar. Estremeci diante de sua piscadela, sentindo toda a minha estrutura tremer diante de sua afirmação. Não era mentira. Estar sozinha com Eron quando ele podia me incinerar com apenas um toque era uma coisa, mas estar sozinha com ele depois que desenvolvi uma barreira contra fogo era outra completamente diferente. Por que eu continuava correndo riscos de ser incinerada com apenas um toque, só que de um modo mais não-literal. Mordi o lábio. — Ahm, eu... Ele suspirou, recolhendo o braço e me enviando um olhar cortante, como se estivesse ultrapassando cada fina camada de minha mente até chegar ´minha alma. — Venha aqui, Ev. 15 Caminho das Estrelas II ESFERA Christyenne A.C. E minhas pernas começaram a se mover por conta própria. Era como se eu fosse ferro puro sendo puxado em direção á um grande imã. Não havia uma forma melhor de descrever aquela força interdimensional me puxando em sua direção. Ele era o buraco n***o. Eu era matéria pura. E ele voltou á sorrir de canto. O sorriso sumindo quando me aproximei. Seus braços fortes estavam ao redor de minha cintura antes que eu pudesse me dar conta do que estava acontecendo. As coisas eram simples entre nós dois. Havia uma dificuldade insuperável de ambas as partes de querer manter as mãos longe um do outro. E essa era toda a explicação que eu tinha sobre o que acontecia quando ele estava por perto. — Pensei que você quisesse testar minhas habilidades com arremesso. — cobrei num fio de voz. Seus polegares desenhavam círculos em minhas costas, por cima da camiseta folgada de yoga, e ainda assim, eu podia sentir o poder de sua pele sobre a minha, emitindo ondas sonoras de calor por minhas veias. — Você ficaria assombrada com a quantidade de habilidades suas que d****o explorar nesse exato momento. A bolota se formou em minha garganta, e por um momento, um zum esquisito tomou posse de minha audição. — Seja... acadêmico. — pigarreei, ainda tentando me concentrar na forma correta de fazer os pulmões e os pensamentos funcionarem ao mesmo tempo. — Estou tentando ser o mais acadêmico possível, acredite. Acontece que... — ele deslizou as mãos sobre as laterais de minhas costas, percorrendo depois o caminho de minha espinha com o dedo indicador — É difícil pensar com delicadeza quando você está tão perto. Não é como se você pudesse me culpar. — Você me trouxe para perto... — cobrei, tentando me afastar um passo, o que ele rapidamente impediu. — E não pretendo deixa-la se afastar tão cedo... — ele me apertou contra ele, me arrancando outro suspiro. Eu adorava a forma como nos encaixávamos. A forma como ele tinha que se inclinar e baixar os ombros para poder me aninhar entre o peito, ou a forma como eu tinha que ficar na ponta dos pés para ter acesso á sua boca. — Sua tia não está aqui, então me deixe desfrutar um pouco dessa amostra de sorte. 16 Caminho das Estrelas II ESFERA Christyenne A.C. — A Cerimônia vai começar em instantes... Ignorando meu comentário, seu rosto desceu para a curva de meu pescoço, a ponta de seu nariz desenhando um caminho sobre a pele enquanto minha resistência ruía aos poucos. — O que você estava fazendo aqui, Ev? Meus olhos se abriram alertas. Eu devia ter desconfiado. Ele sabia que eu estava escondendo alguma coisa. É claro que ele sabia. Haviam muitas coisas á cerca daquele assunto que me deixavam em estado crítico de alerta. As últimas palavras de Zórem não saíam de minha cabeça, se repetindo como um CD riscado, e eu tinha quase toda a certeza necessária que o significado delas não poderia ser nada bom. Eu já havia aprendido o suficiente, e só planejava descobrir qual era o mistério em segredo. Qual era o m*l naquilo? O problema, era que Eron também estava a par do problema denominado “Evangeline”, e jamais me deixaria esconder qualquer coisa dele. O que rapidamente me obrigou a abrir o jogo. Depois de meu relato rápido sobre ter saído à procura da biografia de Evangeline, Eron voltou a levantar o rosto, me enviando um olhar curioso. — Eu poderia ter pegado o livro para você, se você tivesse me pedido. Desviei os olhos. Eu não queria falar sobre aquilo agora. Algo me dizia que as coisas já se complicariam bastante futuramente, e aquilo não era algo com que eu quisesse lidar agora. — Eu sei. Vou me lembrar disso na próxima vez. Mas ao invés de concordar e dar o assunto por encerrado, ele tocou meu queixo com a ponta do polegar, me fazendo inclinar o pescoço para ele, de forma a olhar dentro de seus olhos verdes e dopantes. Há algum tempo atrás, olhar dentro de seus olhos me horrorizava, porque eu me sentia sempre sendo sugada para dentro de tudo que Eron representava ao realizar o ato. Mas agora, eu entendia, que o que me aterrorizava, era o fato de conseguir achar á mim mesma ali dentro, como agora. — Não, você não sabe.. Tão pouco concorda comigo. — ele discordou, —O que você planeja, é enfrentar todo o problema sozinha e carregar sobre o s ombros todas as consequências. Achou mesmo que eu não saberia? Por alguns momentos, minha voz foi aniquilada de meu pacote de funções corporais. 17
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