O Lampejo Que Aparece

1128 Words
Ovestido era bonito. Brilhava como se tivesse sido feito com pedaços do Sol. Eu me sentia como a estrela mais brilhante da constelação. — Por que dourado? — perguntei a Arbo, parada diante do espelho de corpo inteiro enquanto ela escovava meus cabelos sem graça para trás das orelhas, prendendo alguns grampos na parte superior do lado direito de minha cabeça, obrigando os cachos á caírem pelo ombro esquerdo e deixando meu rosto completamente limpo. — É a cor das festividades. É falta de educação usar roupas escuras em Cerimônias. — ela explicou — O escuro representa a morte, é o que usamos 30 Caminho das Estrelas II ESFERA Christyenne A.C. para m***r. Mas hoje, vamos apenas celebrar. Dourado é cor do brilho e do furor das estrelas. E elas brilham quando estão felizes, é o que dizem. O vestido descia colado até os pés, como se tivesse sido moldado e costurado em meu corpo. Pequenas contas douradas dependuradas em longos fios de um material que não pude identificar também desciam num padrão circular, enrodilhando todo meu corpo dos s***s à baixo. A única coisa que estranhei, foi a falta do s***ã. O modelo era criado com um bojo próprio para seu uso sem eles. Quando interpelei Abro, ela explicou que ele havia sido desenhado pelos Maoris, e a tradição permanecia. Um manto em tule de uma cor semelhante ao vinho fosco e a cor de meu cabelo também descia preso aos ombros, como se fossem duas asas abertas. A gargantilha em tons de dourado, prata e azul celeste encobria todo meu pescoço, deixando apenas o triskle a mostra. Mas o que me maravilhou, foi um adereço parecido com uma coroa sem pedras nem pontas, simples, de forma circular posta em minha cabeça. De suas extensões, pequenos cordões de prata desciam por cima de meu cabelo, dando a volta por baixo dele e voltando a se interligar ao metal reluzente do outro lado. Eu meio que me parecia com uma princesa egípcia de um filme antig o. Estava tão deslumbrada com minha própria imagem, que m*l percebi quando verbalizei os pensamentos. Arbo riu. — E quem você acha que inspirou os egípcios á se vestirem assim na antiguidade? E tem mais uma coisa... — ela disse, arrebatando outra coisa de cima do criado mudo ao lado da cama e voltando para mim novamente. Ele me mostrou quatro braceletes dourados através do reflexo do espelho. — O que é isso? — É costume honrar nossos brasões nas cerimônias. Estes braceletes estão adornados com o brasão da família Hatthwey. — ela disse antes de fechar dois deles em meus pulsos, e os outros dois na parte superior de meus braços , como eu vira em Eron no julgamento. A meia lua cercada pelas estrelas cadentes se sobrepunha em alto relevo sobre o ouro reluzente, trazendo lembranças que não vivi, que pareciam se desprender de lacunas que não existiam em minhas memórias. — Onde conseguiu esses brasões? — Sua tia os tinha guardados. Eles pertenceram a... Hera. 31 Caminho das Estrelas II ESFERA Christyenne A.C. Engoli em seco, ensaiando uma careta ao expelir a próxima pergunta. — E esse vestido? A quem pertenceu? Dessa vez, a cor deixou o rosto de Arbo por alguns segundos, suas narinas se inflando ligeiramente, os céus se fechando em nuvens escuras dentro de seu s olhos tempestuosos. — Meu pai mandou tecer esse vestido especialmente para a Invocação de Zoe. Ela o usaria no dia em que completasse o treinamento e ganhasse sua Marca da Promessa. — ela explicou, a voz parecendo se enroscar nas paredes de sua garganta enquanto saia, pouco antes de seus olhos mirarem os meus no reflexo do espelho — Não se preocupe. Ela nunca o usou. O “sinto muito” se enroscou em minha garganta, se negando a sair. Arbo não era o tipo de garota que se reconfortava com palavras desse calib re. Mas ainda assim, não consegui me desprender do desconforto que acometia todos os meus sentidos ao tocar naquele assunto frágil que era sua irmã. — Você sente falta dela. Não era uma pergunta. Pela primeira vez desde que me lembrava, Arbo não retesou o assunto. Ao invés disso, soltou um suspiro profundo, caindo na ponta do colchão de lençol repuxado e continuando a me encarar de forma seria através do reflexo do espelho. Seus olhos levemente repuxados lhe dando um ar mais sério do que seria aconselhável propor. — Sabe, eu te odeio. — ela disse de repente — E também te amo. Você tem uma mania irritante de entender coisas em mim que outras pessoas não entendem, e eu odeio o quanto isso está mexendo comigo. Repeli um murmúrio, não completamente certa de que aquilo havia sido um elogio. As coisas eram estranhas com Arbo, mas eram boas. Seus olhos azuis se desviaram em direção ao nada a sua frente. — Ela costumava me fazer ser uma pessoa melhor... — Ela disse de repente — Tínhamos planos para um futuro juntas. Em nosso tempo livre, combinávamos táticas de batalha, como iríamos querer nossa Morada e como queríamos que nossos namorados se parecessem. — seus olhos me encontraram pensativos por um instante, se desviando rapidamente ao pularem para o pensamento seguinte. — É estranho como vocês duas têm gostos absurdamente parecidos. Chega a ser b***a. Ensaiei uma careta. — Acho que não vou querer saber o que isso significa... certo? 32 Caminho das Estrelas II ESFERA Christyenne A.C. Ela deu de ombros. — Provavelmente. Eu... — ela fez uma pausa significativa, procurando pontos pelo quarto em que firmar o olhar, parecendo desconfortável dentro do próprio corpo enquanto procurava as palavras certas á expelir — Isso vai soar estranho, mas... eu ... gostaria de ter te conhecido antes. Surpresos, meus olhos encontraram o caminho de seu olhar através do reflexo, não completamente certa do que aquilo significava. — Quero dizer. Acho que se sua tia não tivesse feito nada do que fez, você poderia ter crescido em Miriad. Poderíamos ter crescido juntas, e a Invocação de Zoe para as Trevas poderia ter me ferido de forma mais leve. Você sabe, as feridas poderiam ter não deixado cicatrizes. Por um momento, meus pensamentos voaram em direção ás possibilidades que aquele pequeno pensamento representava. Se tivesse crescido em Miriad, como uma Falange de verdade, o que isso teria mudado em mim? — Esqueça... — Arbo disse de repente, saltando da cama em sua típica mania vendaval — Eu só... pensei alto. Isso é prova que meus pensamentos nem sempre são os mais inteligentes. Quero dizer, só na maioria das vezes, quem sabe... Sorrio para o seu reflexo. Mas o sorriso é torto e sem graça. Quase a sombra de um. — Eu também queria ter te conhecido antes.
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