Sobre Garotos Maldosos

1532 Words
— Já pedi para calarem a d***a da boca! — Arbo chiou pela milésima vez para as duas ruivinhas de dez anos que nos perseguiam pelas escadarias frontais da Catedral Elementar, que correram em nossa direção quão logo descemos da carruagem. — Ainda não acredito que você tem duas irmãs gêmeas... — Duas pestes gêmeas, você quer dizer. E não “pestes negras”, mas “pestes vermelhas”. Não ia achar tão legal se você estivesse em meu lugar, acredite. 33 Caminho das Estrelas II ESFERA Christyenne A.C. — Ter duas irmãzinhas é uma dádiva divina, Arbolence... — tia Peg a corrigiu de seu modo familiar, enfiada em seu conjunto tradicional de blazer e saia que era usado apenas em momentos especiais — Nunca as entregue ao demônio sem um motivo. Arbo rolou os olhos. — Acontece que posso lhe dar mais que apenas um motivo... As centenas de Falanges que nos rodeavam usavam roupas parecidas. Ilínea e Manson saíram antes de todos por alguma razão em especial, e Edra andava perdida por Miriad desde que voltei á mansão Pinnbolrg. Assim como Dublemore. A carruagem incumbida de nos trazer era reluzente, em tons de cobre e marfim, e os cavalos brancos possuíam crinas escuras e gigantescos olhos turquesa. Arbo se parecia com uma espécie celestial de deusa maior, trajando um vestido marfim adornado com símbolos dourados, bordado em fios de ouro por toda a extensão lisa do vestido, que se dobrava sensualmente sobre suas curvas sem lhe dar um aspecto vulgar, mas provocante. A f***a que se abria na perna direita quase alcançava a parte superior da coxa, lhe dando um ar ainda mais sobrenatural. Seus cabelos ruivos estavam amarrados em uma trança desfiad a do lado direito do pescoço, e uma tiara dourada de onde vários pingentes reluzentes contornados com pequenos rubis vermelhos enfeitavam os fios , posta no alto de sua cabeça. Os quatro braceletes exibindo as folhas originadas do brasão da família Kendrick orgulhosamente postos em seus braços e pulsos. Quando adentremos Catedral a dentro, o clima festivo nos recepcionou, e mesmo em e meio á multidão de pessoas, senti uma sensação diferente e quente fluindo verticalmente de algum lugar em particular, vertendo pelas paredes de meu coração em um acesso súbito de calor. Pensei que nunca chegaria, Emunah... — as palavras arrepiaram minha nuca ao soarem em minha cabeça. Onde você está? Aqui em baixo... — ele sussurrou — Esperando você. É como se eu sempre tivesse estado aqui. As brasas acesas chiaram em meu peito, descendo em direção ao estômago. Tal qual Arbo havia explicado, as comemorações aconteciam no subterrâneo da Catedral, onde estava concentrada toda a força da terra. O mesmo local onde as Moradas eram construídas no mundo terreno. Eu... estou chegando. 34 Caminho das Estrelas II ESFERA Christyenne A.C. E eu estou ficando maluco apenas ao pensar nisso. Sorri como uma i****a, disfarçando rapidamente quando tia Peg notou o euforismo estampado em todas as minhas feições. Engoli em seco quando minha tia estreitou seus olhos terrosos em minha direção, retorcendo a boca em uma careta desagradável. Lhe rendi um leve sorriso caloroso, e ela chacoalhou a cabeça. — Você ainda vai me deixar com os cabelos brancos, garotinha... — Seus cabelos já são brancos, tia... — Exatamente. Sabe o que acontece depois dos cabelos brancos? Meu sorriso sumiu. — Isso não foi engraçado. — Não era para ser. As irmãs gêmeas de Arbo começaram a gritar atrás de nós, fazendo perguntas estranhas que Arbo fazia questão de ignorar com um revirar de olhos. — Elas são sempre assim? — perguntei, a seguindo em direção ás escadarias que nos levariam para baixo. — Não. São bem piores. — ela resmungou — Não deixe que isso te suba á cabeça, mas elas meio que te veneram. Aguente a puxação de saco durante o restante da Cerimônia ou morra tentando. As escadarias se abriam para um amplo salão pintado de dourado e terracota. Um lustre no teto maior do que qualquer lustre que eu já havia visto brilhava em milhares de diamantes pequenos á cima de nossas cabeças, e no centro, uma balança de cristal reluzia lapidada por entre o brilho destoante das pedras preciosas. As paredes eram recobertas por tapeçarias enormes, recriando cenas cheias de símbolos envolvendo guerras, balanças pesando almas, Têmis despencando dos céus, e mesas cheias de frutas que eu não conhecia. No fim do enorme salão, cinco Tronos se erguiam á baixo de uma grande escultura de um punho fechado, onde um grande rubi se incrustava em cada dedo. As mulheres se pareciam com deusas vestidas de forma quase egípcia, e semelhantemente, os homens vestiam apenas uma calça recoberta com alguns adornos dourados em metal. Os troncos nus me deixaram confusa por alguns momentos. Todos, usavam apenas um manto de qualquer cor por cima dos ombros, e por um momento, a quantidade absurda se símbolos que eu nã o conhecia me atingiu como uma maré de sensações controversas. — Por que os homens se vestem assim? — perguntei a Arbo em dado momento. 35 Caminho das Estrelas II ESFERA Christyenne A.C. — O tronco nu evidencia nosso maior orgulho: os símbolos. Quanto mais símbolos, mas respeitado você é. A cor do manto varia de acordo com os gostos de cada um. — Oh... eu... Parei no meio da frase quando um manto em especial lá em baixo me chamou a atenção, como se o salão tivesse obscurecido e um holofote brilhante tivesse sido ligado naquela direção. Era o único manto dourado na multidão, unido no peito por uma corrente de bronze. Os ombros largos de seu portador estavam inclinados, seu rosto virado em outra direção, e os cabelos escuros jogados de forma sensual de um lado da cabeça. Duas argolas da mesma cor refletiam a luz que baixava do grande lustre, enviando seixos brilhantes em minha direção. Os braceletes exibiam um lobo com uma aljava na boca, e as calças escuras traziam um cinto âmbar trabalhado em ouro puro, o contraste serpenteando em cores quentes com o bronzeado dos músculos poderosos que o possuíam. Um cinto escuro de couro em forma de X cortava seu peito, provavelmente se fechando nas costas e exibindo mais uma recriação de seu brasão na junção das duas linhas. No mesmo instante que meus olhos descerem até ele, os seus subiram até mim, como que atraídos pela mesma força magnética. Dourados como fogo, como se as chamas crepitassem em ondas vindas de seu interior. O verde havia de desintegrado, derretido em meio ao ouro líquido que circulava suas íris. Seus olhos analisaram cada pedaço de meu corpo enquanto e obrigava minhas pernas á continuarem descendo os degraus sem pisar em falso. Ele piscou, visivelmente aturdido enquanto milhares de pensamentos pareciam se passar por de trás do ouro derretido em seu olhar. Eron se virou completamente em minha direção, o rosto sério enquanto eu devolvia seu olhar. Emunah... — ele sussurrou, e por um momento, deixou que a palavra preenchesse o vazio que nos separava. — ... você só pode estar tentando acabar comigo... Meu peito se inflou sob o peso entorpecente de seus olhos. Talvez eu esteja... Seus olhos se estreitaram mais. Talvez você possa acabar se arrependendo. Eu não costumo me arrepender, garoto cataclista. 36 Caminho das Estrelas II ESFERA Christyenne A.C. Seu maxilar se tencionou, seu rosto se inclinando ligeiramente enquanto ele erguia uma sobrancelha escura, alguns fios de cabelo caindo por cima dos olhos dourados. Ev... já ouviu falar sobre o que acontece quando as pessoas brincam com fogo? É... acho que devo ter ouvido algo semelhante uma vez. Ele voltou a endireitar a cabeça, mordendo o lábio inferior e me devorando silenciosamente com o olhar, como se eu fosse o último pedaço de morango banhado em chocolate da face da terra. Se eu não te beijar agora, sinto que posso explodir. Cuidado. Minha tia está logo atrás de mim. Ele sorriu de canto, parte da tensão aparente em sua voz se derretendo no calor de seu sorriso. Nem todas as forças do inferno irão te ajudar a escapar de mim hoje, Emunah. Minha tia pode ser pior que as forças do inferno. Isso é o que vamos ver... — ele disse, se movendo graciosamente e passando a caminhar em minha direção, sua figura lembrando muito á um felino, seus passos atraindo os ombros para baixo enquanto ele se aproximava. O manto voando atrás de si como duas asas brilhantes. Eron! Estou falando sério! Eu também estou, Emunah... O assombro mudo tomou forma na boca de meu estômago, e Arbo encurvou as sobrancelhas de meu lado. — Ou esse garoto simplesmente adora confusão, ou tem um instinto primitivo muito forte de morrer. — ela piscou por alguns momentos, erguendo as sobrancelhas em tom genuíno de surpresa. — Admita, Eve. Você tem pensamentos sujos com ele. Você tem. — ele respondeu por mim — Não precisa ficar vermelha. Nesse exato momento, meus próprios pensamentos também não são dos mais honestos... Eron, pare aí mesmo! Ele não parou. Eron!! Demorou exatamente o tempo que achei que demoraria para que tia Peg detectasse sua presença. Enviando calafrios por todas as partes de meu corpo, 37
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